Suar muito é um problema? O que é e como se trata a hiperidrose
Com a aproximação do verão e a chegada do calor é comum transpirar-se com mais facilidade, uma vez que o suor surge, sobretudo, em resposta ao aumento da temperatura corporal. No entanto, pessoas com hiperidrose transpiram de forma excessiva, mesmo sem qualquer estímulo aparente. Quando é que “suar muito” pode ser um problema? O que é a hiperidrose?
Em declarações ao Viral, Margarida Brito Caldeira, dermatologista no Hospital Santo António dos Capuchos da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José, esclarece o que é a hiperidrose, quais as causas e como se trata a condição.
O que é a hiperidrose?
Tal como se explica num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos), “a hiperidrose é uma condição médica em que uma pessoa transpira excessiva e imprevisivelmente”.
As pessoas com hiperidrose “podem transpirar mesmo quando a temperatura é baixa ou quando estão em repouso”, acrescenta-se.
Segundo Margarida Brito Caldeira, existem dois tipos de hiperidrose: primária e secundária.
“A hiperidrose primária ocorre geralmente em pessoas jovens e saudáveis, definindo-se como o aumento da transpiração em áreas localizadas (como as axilas, as palmas das mãos e as plantas dos pés), apenas em horas em que se está acordado, durante mais de 6 meses”, explica.
Por outro lado, a hiperidrose secundária “pode ocorrer em qualquer hora do dia (inclusive durante o sono), sendo mais generalizada”, refere.
Quais as causas desta condição?
Na grande maioria dos casos, verifica-se uma hiperidrose primária, em que “não existe uma causa subjacente”, avança Margarida Brito Caldeira.
Esta condição ocorre “frequentemente em pessoas com história familiar” de hiperidrose e deve-se a um “aumento da estimulação cerebral sobre as glândulas sudoríparas de uma determinada área anatómica”.
Já na hiperidrose secundária “existe uma doença sistémica subjacente que, secundariamente, causa aumento da transpiração”.
Esta condição “pode estar associada” a condições, “como infeções agudas que cursem com febre, tuberculose, linfomas, menopausa, hipertiroidismo, estados de privação de álcool ou drogas ilícitas e alguns fármacos”, exemplifica a médica (ver também aqui e aqui).
Quando é que “suar muito” pode indicar hiperidrose?
Por norma, “considera-se que uma pessoa tem hiperidrose (ou seja, transpiração excessiva) quando existe um impacto significativo na qualidade de vida”, sublinha Margarida Brito Caldeira.
Além disso, “de forma mais quantitativa, diagnostica-se como hiperidrose axilar quando os doentes têm uma mancha de suor na roupa superior a 5 cm e, nas mãos, quando há formação de gotas visíveis”, explica.
Também existem “técnicas que permitem evidenciar a localização e atividade das glândulas sudoríparas, através da junção de farinha maizena (amido de milho) a uma solução iodada na área afetada”, prossegue.
Desta forma, explica a dermatologista, “os orifícios de drenagem das glândulas sudoríparas ficam mais evidentes e, no caso da existência de hiperidrose, adquirem uma cor mais escura”.
Qual o tratamento?
Antes de avançar para qualquer tratamento, é necessário perceber se a hiperidrose é secundária, ou seja, se é causada por outra doença. Se assim for, deve-se “tratar a condição médica que está a causar a transpiração excessiva”, refere-se num texto da Academia Americana de Dermatologia (AAD).
Após exclusão de causas secundárias, pode-se “avançar para o tratamento da hiperidrose primária”, aponta Margarida Brito Caldeira.
O tratamento “deve ser individualizado, conforme a localização anatómica envolvida, a gravidade da hiperidrose e o desejo do doente”, esclarece.
Segundo a dermatologista, o tratamento pode incluir “antitranspirantes tópicos (que inibem as glândulas sudoríparas), terapêuticas físicas como a iontoforese, procedimentos injetáveis como a toxina botulínica (botox), medicamentos orais e, ainda, a cirurgia”.
Regra geral, os tratamentos tópicos “são menos eficazes do que os tratamentos físicos, injetáveis, orais ou cirúrgicos”, sendo que a cirurgia só deve ser feita quando as outras terapêuticas não se mostraram eficazes.
Em termos de alterações de estilo de vida, existem medidas que podem ajudar com a transpiração excessiva.
Num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa) recomenda-se, por exemplo, a utilização de “meias que absorvam a humidade”, bem como “mudar as meias pelo menos duas vezes por dia, se possível”.
“Não usar roupas apertadas ou tecidos sintéticos” (como o nylon) e não usar “botas fechadas ou calçado desportivo que possam fazer com que os pés transpirem mais” também são estratégias recomendadas, neste contexto.
Além disso, deve-se tentar evitar gatilhos, ou seja, “coisas que possam piorar a transpiração”, como “beber álcool” ou “comer alimentos picantes”, sublinha-se no mesmo texto.
Segundo Margarida Brito Caldeira, “situações de ansiedade ou picos de stress” também “podem piorar uma hiperidrose pré-existente”.
A cirurgia cura a hiperidrose?
Não, “a cirurgia não cura a hiperidrose”, avança a dermatologista da ULS de São José. A cirurgia “apenas corta a via neuronal específica que está a causar hiperidrose naquela determinada localização anatómica”, explica.
Por exemplo, se a hiperidrose se focar nas axilas, a cirurgia “visa cortar os nervos que fazem a ligação entre o cérebro e as glândulas sudoríparas dessa área”.
No entanto, “mesmo após o corte desta via, a estimulação cerebral continua, podendo redirecionar-se para outras áreas previamente não afetadas, situação que designamos hiperidrose compensatória”, esclarece a médica.
Assim, “uma pessoa que previamente tinha apenas hiperidrose axilar, pode começar a transpirar das mãos, das costas ou das virilhas”, exemplifica.
Além disso, a cirurgia costuma ser apenas utilizada em último caso devido aos possíveis efeitos secundários, “como pneumotórax (entrada de ar para dentro do tórax aquando da cirurgia)” ou o comprometimento de “outras vias neuronais”.
Como é um procedimento realizado “sob anestesia geral”, tem ainda “os riscos inerentes a esta técnica anestésica”, conclui a dermatologista.