Há doenças que se transmitem através da chuva? É uma preocupação em Portugal?
Com o outono à porta, os períodos de chuva começam a ser mais comuns. Por norma, quando começa a chover mais e as temperaturas baixam, surgem picos de infeções, nomeadamente víricas, como a gripe. Mas será que a chuva pode trazer consigo vírus e bactérias capazes de infetar as pessoas? As fases de chuva intensa podem ser um problema? Tendo em conta o clima de Portugal, é necessário ter cuidados na exposição à chuva?
É possível contrair doenças ao apanhar-se chuva?
Em declarações ao Viral, o virologista Celso Cunha adianta que “andar à chuva, por si só, não transmite doenças”. Em teoria, aponta, “até poderia acontecer, mas é altamente improvável que aconteça alguma vez”.
De facto, “os pingos da chuva podem trazer vírus ou bactérias consigo”. Por exemplo, “há poeiras que atingem camadas altas da atmosfera”, ou “os aviões que passam, por vezes, podem depositar alguns vírus e bactérias nas camadas superiores” e “alguns desses agentes podem descer para a Terra com a chuva”, contextualiza.
Contudo, “sermos contaminados por eles é que é muito improvável” e, segundo o médico, “não há casos registados, nem provados, de contaminação por alguma doença através do contato com pingos da chuva”.
Celso Cunha explica que “as pessoas podem ficar doentes, não por andarem à chuva, mas porque, se estiverem muito tempo à chuva, o corpo fica molhado e com tendência a ficar mais frio”.
Ao ficarem com a temperatura do corpo mais baixa, “o sistema imune também vai ficar mais fraco e potencia, depois, o surgimento de determinadas doenças, como a gripe”, acrescenta.
Por outro lado, o que costuma acontecer na altura de maiores chuvas é que “começa a ficar mais frio e as pessoas começam a ficar mais em casa ou em espaços fechados”.
Assim, ao proporcionar-se um “maior contato entre pessoas”, “aumenta a probabilidade de propagação de vírus que se transmitem através do ar, nomeadamente a gripe, a Covid-19 e outros”, esclarece.
Por esse motivo é que, “no fim do ano, em janeiro e em fevereiro, há picos de infeção”, conclui o virologista.
A água parada proveniente de inundações pode transmitir doenças?
Sim, é verdade. “Se houver inundações, em casos de calamidade e em contextos em que há falta de recursos, há algum aumento da probabilidade de haver, por exemplo, infeções bacterianas ou até algumas infeções virais”, admite.
Porquê? São situações em que as pessoas ficam sem casa devido a desastres naturais e “ficam muito tempo sem acesso a água potável”.
Celso Cunha explica que “as condições de higiene deterioram-se muito e propiciam muito a transmissão de doenças infeciosas que se transmitem pela via fecal-oral como, por exemplo, a hepatite E, ou algumas doenças bacterianas”
Isto tem que ver com o facto de “as pessoas andarem pelos charcos” e “ficarem contaminadas” por ingerirem alguma dessa água, mexerem na água e levarem as mãos à boca, aos olhos ou ao nariz.
Por outro lado, apesar de a pele ser “uma barreira à transmissão da maior parte de vírus e bactérias”, “se houver uma ferida, e eventualmente uma mucosa exposta, podemos estar mais sujeitos a sermos infetados por algum agente”, salienta.
Tudo isto, “não por causa da chuva em si”, mas “devido ao que já estava no chão” e foi transportado pela água parada das chuvas intensas, ou inundações.
Esta é uma preocupação em Portugal?
Na perspetiva de Celso Cunha, esta não é uma circunstância alarmante em Portugal. Como explica o especialista, “a maior parte destas situações, em que há inundações, são mais perigosas em climas quentes”.
Isto porque, nestes locais, “há maior probabilidade das bactérias se multiplicarem e se manterem em quantidade suficiente para, depois, infetarem alguém e causarem uma doença”.
“No nosso caso”, frisa, “em que há condições sanitárias boas, não devemos estar preocupados com este tipo de situações”.
Claro que, aponta, “se virmos uma poça no chão convém não ir beber água de lá”, mas isto não se aplica só a períodos de chuvas intensas.