VITAL
Porque é que há cada vez mais adultos jovens com diagnósticos de cancro?
A idade avançada é um dos fatores de risco mais referidos quando se fala de cancro, mas ao longo das últimas décadas tem aumentado a incidência da doença em adultos jovens. Entre 1990 e 2019, o número de novos casos de cancro em pessoas entre os 14 e os 49 anos aumentou quase 80% a nível global, segundo um estudo publicado na revista BMJ Oncology em 2023.
Portugal segue esta tendência, ainda que de forma mais moderada: entre 2001 e 2021, o número total de casos de cancro em adultos jovens aumentou 15%, segundo o Registo Oncológico Nacional.
Mas porque é que cada vez mais adultos jovens têm cancro?
“Há várias explicações”, afirma Paulo Santos, médico de Medicina Geral e Familiar e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). “Por um lado, há claramente uma melhoria da capacidade de diagnóstico. Casos que há 30 anos não seriam sequer descobertos, porque as ecografias estavam no início e as mamografias mostravam muito pouco em pessoas jovens, hoje são detetados precocemente”.
O médico sublinha que não se trata apenas de um aumento real da incidência, mas de uma “transferência do diagnóstico de idades mais tardias para idades mais precoces” graças aos avanços tecnológicos.
Mas os avanços na deteção não explicam tudo. Paulo Santos admite que há fatores de risco concretos que podem estar a contribuir para um aumento real: “Os estilos de vida — alimentação, obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, tabaco, alterações no sono e stress crónico” — têm um “impacto no aparecimento de doenças e na ausência de saúde”.
A obesidade, em particular, é uma preocupação central: “Há muitos anos que se decretou que seria a pandemia do século XXI e estamos muito longe de conseguir controlá-la.”
Em Portugal, segundo o Registo Oncológico Nacional, os tipos de cancro mais frequentes entre adultos jovens variam por sexo. Entre as mulheres, os mais diagnosticados em 2021 foram os cancros da mama (2068 casos), da tiroide (672) e colorretal (247). Entre os homens, o colorretal (293), o do pulmão (186) e o da cabeça e pescoço (175).
Alguns tipos têm registado um crescimento muito acentuado: o cancro da tiroide aumentou 109% nas mulheres e 164% nos homens entre 2001 e 2021.
Além de o diagnóstico hoje ser bastante mais simples, este aumento também pode estar relacionado com a alimentação e particularmente com a “exposição ao iodo”, refere Paulo Santos.
Este fator está associado ao aparecimento do tipo mais comum de cancro da tiroide, que é pouco agressivo e tem um “bom prognóstico”.
Já os cancros do pâncreas e fígado cresceram 86% e 75% respetivamente entre as mulheres, mas continuam a ser “cancros muito raros” em termos absolutos, ressalva o médico.
As causas destes aumentos não são fáceis de isolar. No caso do cancro do fígado, Paulo Santos distingue duas vias: “Por um lado, temos os fatores infecciosos, como as hepatites B e C, que felizmente têm vindo a diminuir. Por outro, temos a obesidade e a gordura no fígado, que estão a aparecer cada vez mais cedo e que podem evoluir para cirrose e cancro.”
O cancro colorretal é, provavelmente, o mais preocupante. Dados do Observatório Global de Cancro, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostram que, em Portugal, é o cancro mais diagnosticado e o segundo que mais mata, a seguir ao do pulmão. Em 2022, registaram-se mais de 10 mil casos e cerca de 4800 mortes.
A má alimentação, pobre em fibras, e o excesso de peso são apontados como fatores centrais. “A ausência de fibras no intestino é um fator que condiciona fortemente o risco”, refere o professor da FMUP.
Uma das hipóteses levantadas por alguns estudos internacionais é a de um “envelhecimento biológico precoce”. Mas Paulo Santos rejeita a ideia: “Significaria que estamos todos a morrer mais cedo — e isso não é verdade. A esperança média de vida tem vindo a aumentar em praticamente todos os países desenvolvidos.”
A que sintomas se deve estar atento?
“A OMS recomenda atenção a alguns sinais de alarme, como hemorragias uterinas fora dos dias da menstruação, nódulos, emagrecimento súbito, alterações intestinais e tosse persistente. Estes sintomas não significam cancro, mas devem ser valorizados”, diz o médico. Principalmente porque “quanto mais cedo houver um diagnóstico, melhor será o prognóstico”.
Mas não se deve, por outro lado, ter uma postura alarmista: “Nesta altura, andamos todos cansados, a precisar de férias, é preciso enquadrar” os sintomas e não associar qualquer hipotético sinal de alarme a um diagnóstico de cancro.
O caminho para travar esta tendência, diz Paulo Santos, exige mudanças a dois níveis. No plano individual, “é preciso atuar nos estilos de vida: alimentação, atividade física, hábitos nocivos, stress e sono”. Mas também é necessário agir no plano coletivo: “A forma como organizamos o trânsito, o acesso à saúde, o planeamento urbano — tudo isso impacta o stress diário e, por consequência, a nossa saúde.”
“O Estado somos nós”, conclui. “E as nossas escolhas, enquanto cidadãos e enquanto comunidade, têm um impacto direto na forma como vivemos”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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