O que é o luto, como se vive e como se fala sobre ele? Ordem dos Psicólogos lança guia com respostas
“O luto é uma reação universal, embora seja também profundamente pessoal”, lê-se num documento lançado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) sobre luto. O que é? E que impacto pode ter? Como se lida? E durante quanto tempo? — estas são algumas das perguntas às quais a OPP tentou responder através de um documento intitulado “Vamos falar sobre o luto”.
Quando se perde alguém ou alguma coisa, quando há uma mudança da realidade, há uma reação — isso é o luto. E, em alguns casos, pode “transformar-se num problema de saúde psicológica (luto prolongado) e requerer ajuda especializada”.
“É um processo cujo objetivo é ajudar-nos a adaptarmo-nos a uma nova realidade” e que pode expressar-se de maneiras muito distintas. “Na nossa e cultura a morte e o luto são, não raras vezes, assuntos difíceis de abordar ou mesmo tabu”.
O luto costuma ser um processo “doloroso” mas a intensidade dessa dor pode variar ao longo do tempo, não é um processo linear. Por exemplo, quando alguém próximo morre, o aniversário dessa pessoa pode passar a ser um dia em que os sentimentos associados ao luto são exacerbados.
Ao longo de 40 páginas, a OPP desmonta mitos, explica os diferentes tipos de perda — o luto não está necessariamente relacionado com morte, pode haver um processo de luto desencadeado pela saída de um trabalho, uma mudança de país, etc. —, como lidar com o luto, como apoiar crianças e adolescentes a passar por um período de luto e qual pode ser o papel de um psicólogo durante esse tempo.
A OPP elenca algumas estratégias que podem ajudar no processo de luto. No caso de estar relacionado com uma morte, pode ajudar estar presente nas cerimónias fúnebres: “São importantes para assimilar a perda e dar início ao processo de luto — ou seja, são essenciais para nos adaptarmos à ideia de que a pessoa morreu”.
“Reconhecer as emoções” também é importante, particularmente em casos de perdas “não socialmente reconhecidas”, como uma mudança de trabalho, a perda de um animal de estimação, mudança de país, entre outras. “Permita-se sentir: não lute contra as suas emoções nem tente suprimi-las/adiá-las. Reconhecê-las como legítimas é importante para fazer o luto”.
Ajuda também que essas emoções sejam não só conhecidas, como partilhadas. “Muitas vezes, recordar a pessoa que morreu e falar sobre ela pode ajudar a reduzir a solidão e tristeza, mesmo quando o sentimento de saudade é avassalador”.
E pedir ajuda para tarefas do dia-a-dia não é “vergonha”, durante um “processo de luto pode ser mais difícil ter motivação ou energia para realizar tarefas simples”. A OPP sublinha que “é saudável permitir-se ter momentos para chorar e expressar a perda, tal como é importante permitir-se fazer pausas, rir ou focar-se nas tarefas do dia-a-dia”.
Também o “autocuidado” deve ser mantido ao longo deste processo, “ainda que haja momentos em que parece difícil”. “É importante retomar uma alimentação equilibrada, praticar atividade física, manter uma rotina de sono saudável”.
Manter rotinas é outra das indicações da OPP para passar o processo de luto da forma mais saudável possível porque “pode melhorar o sentimento de segurança e a esperança face ao decorrer da vida”.
Em casos de luto prolongado, quando este processo se torna num problema de saúde psicológica, deve procurar-se ajuda profissional. Mas também é possível ter acompanhamento psicológico preventivo, de forma a tentar evitar o luto prolongado.
O psicólogo pode ajudar “a pessoa enlutada a entender, expressar e integrar a dor da perda e a encontrar estratégias para se adaptar à nova realidade”.