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“Gomas Para o Foco” de Vanessa Martins funcionam? São seguras?

28 Abr 2025 - 10:14

“Gomas Para o Foco” de Vanessa Martins funcionam? São seguras?

A atriz e influenciadora digital Vanessa Martins lançou um novo suplemento alimentar que promete ser “a solução natural” que “o cérebro precisa para melhorar a concentração, a memória e a produtividade”. As “Gomas Para o Foco” (ou “Brainy”) são compostas por Bacopa Monnieri, Ginkgo Biloba e Vitaminas B5 e B12, ingredientes que, segundo a publicação de Instagram da marca de Vanessa Martins, “ajudam a manter a clareza mental, o foco duradouro e a reduzir o cansaço”. Mas será que existe evidência científica que comprove a eficácia destas “Gomas Para o Foco”?

As “Gomas Para o Foco” vendidas por Vanessa Martins funcionam mesmo?

Em declarações enviadas ao Viral, o grupo de investigação de Nutrição e Saúde do Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) explica que não é possível afirmar que as “Gomas Para o Foco” comercializadas por Vanessa Martins melhoram a concentração, a memória e a produtividade, porque “não existem ensaios clínicos robustos com a formulação específica” deste produto.

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De facto, existem algumas evidências científicas que apoiam a eficácia de suplementos que contêm Bacopa monnieri, Ginkgo biloba e vitaminas B5 e B12, individualmente, ou em conjunto.

No entanto, “os resultados podem variar com base no desenho do estudo e nas formulações estudadas, quer em termos de componentes, quer em termos de doses”, esclarece o grupo de investigação composto por Ana Gomes, Daniela Machado, Diana Almeida, Melissa Torres, Rita Vedor e Sérgio Sousa.

Além disso, segundo os investigadores, estas substâncias – Bacopa Monnieri, Ginkgo Biloba e vitaminas B5 e B12 – estão presentes nos suplementos “Gomas Para o Foco” em quantidades insuficientes para “garantir os alegados efeitos de forma significativa.

O suplemento em análise combina vários compostos, fornecendo, por dose diária (duas gomas): “100 mg de Ginkgo biloba, 30 mg de Bacopa monnieri, 5 mg de vitamina B5, 1.2 µg [microgramas] de vitamina B12 e 100 mg de hialuronato de sódio”.

Em relação à Bacopa monnieri, esta planta “tem sido utilizada na medicina tradicional como um medicamento para melhorar a memória”, mas “a evidência existente nem sempre suporta esta propriedade, por ser baseada sobretudo em dados pré-clínicos”, explicam os investigadores.

Numa revisão sistemática de 2021, sugere-se que a Bacopa monnieri mostrou melhorias modestas em sujeitos com perda de memória”, através de “alguns testes neuropsicológicos”, referem.

Ainda assim, “é importante realçar que esses efeitos não podem ser atribuídos exclusivamente” a esta planta. Aliás, na revisão em questão, conclui-se que, no geral, ainda existem poucos estudos “para estabelecer os efeitos de melhoria da memória e neuroprotetores da Bacopa monnieri”, sendo “necessários mais estudos”, aponta o grupo de investigação da UCP.

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Além disso, os ensaios clínicos disponíveis revelam que o extrato de Ginkgo biloba só pode ter “alguns benefícios cognitivos” quando é administrado em doses entre 120 mg e 240 mg. Nesse sentido, “os 100 mg presentes neste suplemento situam-se abaixo desse intervalo”, explicam os investigadores.

No que diz respeito ao Ginkgo Biloba, a evidência disponível também não é clara. Uma meta-análise estudou os efeitos da planta na função cognitiva em pessoas saudáveis, através de treze ensaios randomizados com mais de mil participantes (ver aqui).

Contudo, “o estudo não encontrou impacto significativo na memória, função executiva ou atenção, independentemente da idade, da dose administrada ou da duração da toma do suplemento”, referem os especialistas da UCP.

A esta questão acresce o facto de a dose presente nas “Gomas Para o Foco” ser bastante inferior às “quantidades habitualmente consideradas eficazes”, já que os “estudos apontam que doses inferiores a 150 mg podem produzir efeitos cognitivos mínimos” e doses diárias entre 160 e 320 mg parecem demonstrar efeitos significativos.

A vitamina B12 “desempenha um papel determinante na saúde neurológica”, por isso, “níveis baixos desta vitamina encontram-se relacionados com declínio cognitivo e demência” (ver aqui). Ou seja, reforçar o consumo de alimentos ricos em B12 ou suplementar esta vitamina pode ser necessário em pessoas com défice.

No entanto, “os ensaios clínicos que demonstraram benefícios cognitivos utilizaram quantidades de vitamina B12 entre 500 μg e 1000 μg, mais de 400 vezes a quantidade presente neste suplemento”, referem os investigadores da UCP.

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Por outro lado, “embora o défice de vitamina B5 esteja associado a problemas neurológicos, as evidências de que a suplementação melhora a função cognitiva em indivíduos saudáveis são limitadas”. 

No que toca ao hialuronato de sódio, embora “a quantidade presente no suplemento seja semelhante à utilizada para outras aplicações, faltam evidências conclusivas sobre dosagens eficazes que proporcionem benefícios cognitivos mensuráveis” (ver aqui).

Em suma, não há provas de que as “Gomas Para o Foco” sejam eficazes na melhoria da concentração, da memória e da produtividade. Apesar de haver alguma evidência científica a relatar possíveis benefícios neste contexto de alguns dos ingredientes presentes neste suplemento, não há nenhum estudo robusto que investigue em concreto a formulação das “Gomas Para o Foco”.

Nesse sentido, os investigadores consultados pelo Viral recomendam que “os consumidores tenham expectativas realistas quanto aos resultados” e tenham presente que os suplementos “não substituem hábitos saudáveis como um sono adequado, a prática de exercício físico regular e uma dieta equilibrada”.

Há riscos associados à toma destes suplementos?

Apesar de serem compostos de origem natural, “o uso prolongado e indiscriminado de suplementos com Bacopa monnieri, Ginkgo biloba e vitaminas do complexo B” – como as “Gomas Para o Foco” – “pode apresentar riscos à saúde, sobretudo quando combinados com outros suplementos ou medicamentos”, adianta o grupo de investigação da UCP.

A Bacopa monnieri é considerada segura “em doses terapêuticas em adultos saudáveis”, mas “pode causar efeitos secundários gastrointestinais leves como náuseas, diarreia, desconforto e câimbras abdominais” (ver aqui e aqui). 

Além disso, é possível que esta planta interaja “com fármacos usados para distúrbios da tiroide, pois aumenta os níveis da hormona T4” (atua na regulação do metabolismo, fornecendo a energia necessária para o bom funcionamento do organismo).

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Por esse motivo, os investigadores da UCP recomendam que os indivíduos que tomem medicação para a tiroide evitem produtos com Bacopa monnieri

A Bacopa monnieri pode ainda “apresentar efeitos anti-hipertensivos, pelo que é aconselhável ter atenção em caso de pessoas com pressão arterial baixa ou que façam uso de medicação para tratar a hipertensão” (ver também aqui).

Em termos de possíveis interações farmacológicas, desaconselha-se o consumo deste produto por parte de pessoas que façam uso de “anticolinérgicos” (como, fármacos para úlcera gástrica, síndrome do intestino irritável, doença de Parkinson e doença de Alzheimer), “anticoagulantes e antiagregantes plaquetários”, “antidepressivos”, “antiepiléticos” e “anti-hipertensivos”, sublinham.

No caso do Ginkgo biloba, “os efeitos adversos mais comuns são leves (gastrointestinais, dores de cabeça, tonturas), mas também pode apresentar riscos mais sérios, sobretudo associados à coagulação do sangue”, referem os investigadores. 

O extrato desta planta “tem propriedades antiagregantes plaquetárias, ou seja, pode aumentar o risco de hemorragias, sobretudo quando combinado com medicamentos como aspirina, varfarina e anti-inflamatórios” (ver também aqui).

Além disso, há a possibilidade de os extratos de Ginkgo biloba terem uma toxina chamada “ginkgotoxina, que pode estar associada a episódios de convulsões, porque induz deficiência funcional de vitamina B6”.

Ginkgo biloba pode ainda “interagir com fármacos antidepressivos” (ver aqui) e causar outros efeitos adversos, como “palpitações, episódios de hipotensão e reações alérgicas na pele”, acrescentam os membros do grupo de investigação do CBQF. 

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Assim sendo, os investigadores alertam que, antes de tomar qualquer suplemento composto por Bacopa monnieri ou Ginkgo biloba, deve “consultar um profissional de saúde”, sobretudo se “já toma outras medicações”.

Por outro lado, as vitaminas B5 e B12 “são hidrossolúveis”, isto é, geralmente, o excesso é excretado na urina, o que faz com que a toxicidade aguda seja rara”, apontam os investigadores. 

Apesar de a vitamina B12 ser bem tolerada, “pode interagir com certos medicamentos, como metformina ou inibidores da bomba de protões, e mascarar défices de outras vitaminas como o ácido fólico” (ver aqui). 

Como não existem dados sobre a segurança destes suplementos na gravidez e no período de lactação, “desaconselha-se o consumo” das “Gomas Para o Foco” nestas fases, por uma questão de precaução.

Aliás, Ginkgo biloba está contraindicado na gravidez devido aos “efeitos anticoagulantes” e às “propriedades antiplaquetárias”, que aumentam o risco e o tempo de hemorragias.

28 Abr 2025 - 10:14

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