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Polémica nos EUA. Flúor na água é um aliado ou um perigo para a saúde?

23 Abr 2025 - 09:19

Polémica nos EUA. Flúor na água é um aliado ou um perigo para a saúde?

“A Casa Branca de Trump vai aconselhar todos os sistemas de abastecimento público norte-americanos a remover o flúor da água para consumo”, escreveu Robert F. Kennedy Jr., em novembro, ainda antes de ser nomeado secretário da Saúde dos Estados Unidos. 

Robert F. Kennedy Jr. alegava que o flúor estaria associado a problemas como “artrite, fraturas, cancro nos ossos, perda de QI, doenças do neurodesenvolvimento e problemas de tiroide”.

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A fluoretação da água é uma medida de saúde pública, utilizada nos Estados Unidos desde os anos 40. Mas, agora, o estado do Utah aprovou uma lei que segue a linha de pensamento do secretário da Saúde norte-americano — a partir de 7 de Maio, deixará de existir adição de flúor à água pública.

Várias associações, como a American Dental Association (ADA), insurgiram-se contra esta medida e contra a visão de Robert F. Kennedy Jr., apontando os benefícios do flúor para a saúde oral. Mas, afinal, a fluoretação da água pode mesmo ser nociva?

Ingerir flúor na água pode causar problemas de saúde?

Em declarações ao Viral, Paulo Rompante, professor universitário no Instituto Universitário de Ciências da Saúde (CESPU), começa por sublinhar que os dentes são constituídos por “cálcio, fósforo e flúor”. 

Ao longo do tempo, “com tudo o que se passa na cavidade oral, vamos perdendo minerais nos dentes”. E da mesma forma que, “para estarmos hidratados, temos de beber água”, para remineralizar os dentes, “precisamos de fontes de cálcio, fosfatos e fluoretos” — caso contrário, podemos desenvolver vários problemas, desde cáries até à perda total de dentes.

A primeira cidade do mundo a consumir água de abastecimento público fluoretada foi Grand Rapids, no estado norte-americano do Michigan, em 1945. E os resultados falaram por si: nos 15 anos que se seguiram, registou-se uma redução de 60% de cáries entre as 300 mil crianças daquela cidade. 

A medida começou a espalhar-se no país e, atualmente, cerca de 63% da população bebe água fluoretada, que é constantemente analisada para garantir que a concentração de flúor se mantém dentro dos valores recomendados. Por cada litro de água, 0,7 miligramas de flúor — esse é o valor em vigor nos Estados Unidos. 

“Os valores paramétricos para a saúde humana não deixam que sejam ultrapassados 1,5mg/L”, a partir desse valor o flúor pode ter efeitos nocivos. 

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Vários estudos reportam uma relação entre níveis elevados de flúor e problemas de desenvolvimento, mas baseiam-se em países onde a quantidade de flúor na água não é controlada e existe, naturalmente, em quantidades superiores a 1,5mg/L.

A American Dental Association divulgou vários estudos que comparam comunidades que têm água fluoretada com outras que não têm. “As que não têm água fluoretada têm a saúde oral má ou miserável, as outras não”, resume Paulo Rompante.

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças norte-americano (CDC) afirma que a fluoretação da água é uma das dez grandes conquistas do século XX.

Então, qual é a base para a lei aprovada no Utah?

O próprio governador do estado norte-americano parece não ter a certeza. “Não é uma lei sobre a qual tenha sentimentos fortes, não é uma lei que me interesse particularmente, mas é uma lei que vou aprovar”, afirmou Spencer Cox, numa entrevista à ABC4. 

A grande impulsionadora local desta medida é a republicana Stephanie Gricius, que garante que esta é uma questão de “liberdade individual”. Já o especialista consultado pelo Viral considera que se trata de “uma decisão política” e sublinha: “Quem estuda [o tema] está a rir-se disso”.

Ainda no século XX, a comunidade científica chegou a considerar que a suplementação sistémica de flúor seria a melhor opção. “Depois, percebeu que tinha feito mal a interpretação dos resultados dos estudos e corrigiu”, explica Paulo Rompante. Em 1997, numa cimeira mundial realizada no Canadá, “acabou-se com a estratégia dos comprimidos” — a mesma que Stephanie Gricius parece querer recuperar.

Um estudo dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, publicado em janeiro, foi amplamente utilizado como argumento para sustentar a proibição da fluoretação da água. A monografia analisou 74 estudos de 10 países diferentes e afirma que o QI de crianças com maior exposição a flúor é mais baixo. O estudo era feito com base na análise à concentração de flúor na urina, e não diretamente na água. 

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O primeiro editorial que acompanhava o estudo afirmava que os resultados “sustentam a preocupação com populações vulneráveis que vivem em comunidades com água fluoretada”. 

Porém, num segundo editorial, são indicados vários pontos fracos do estudo do NIH e escreve-se mesmo que as políticas públicas “não devem ser afetadas pelos resultados” desta investigação. Para concentrações de flúor tão baixas como as praticadas nos Estados Unidos, não há indícios de efeitos nocivos para a saúde da população.

Esta proibição traz riscos?

“Só vamos conseguir ver resultados daqui a três ou quatro anos”, explica Paulo Rompante, que rapidamente atira uma previsão: “A saúde oral vai começar a piorar drasticamente”

Brett Kettler, presidente da ADA, fala numa vitória da pseudociência. “É difícil imaginar que algo que permitiu reduzir cáries de forma segura durante 70 anos, sem efeitos secundários, esteja agora a ser desafiado”, refere num vídeo publicado no Instagram.

É expectável que a incidência de cáries aumente, como aconteceu noutros sítios que deixaram de fazer a fluoretação da água. 

A cidade de Calgary, no Canadá, é um exemplo: em 2011, deixou de ser adicionado flúor à água para consumo. Sete anos depois, um estudo publicado na revista Community Dentistry and Oral Epidemiology, que comparava Calgary com uma cidade vizinha onde o abastecimento público continuava a ser fluoretado, concluiu que a prevalência de problemas de saúde oral entre crianças era bastante superior na primeira cidade. Em 2021, um referendo local levou à decisão de reintroduzir o flúor na água potável. ​

Em Portugal, a estratégia é outra

Em Portugal (e em grande parte da Europa), a estratégia é outra, acima de tudo por questões económicas. O CDC estima que o preço da fluoretação da água varie entre 0,5 e 3 dólares por pessoa, dependendo do tamanho da comunidade. E, apesar de o custo não ser considerado elevado, é mais caro do que o método utilizado em Portugal: a recomendação da utilização de pasta de dentes com flúor.

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“Nós percebemos que quem usa pasta dos dentes fluoretada está em condições semelhantes àqueles que ingerem água fluoretada”, simplifica Paulo Rompante. Os resultados “não são iguais”, a água é mais eficaz, mas em associação com outras medidas de saúde pública, a estratégia adotada em Portugal funciona.

Desde 2003, “os dentifrícios têm mais flúor” porque, antes disso, a quantidade de flúor presente nas pastas de dentes “estava aquém do resultado que pretendíamos”. Assim, aumentou-se a concentração do flúor para que a remineralização “fosse efetiva”, conclui.

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Alimentação

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