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Fernando Martins descobriu um cancro da próstata por acaso: “Não queria acreditar, só percebi quando fui confrontado com a cirurgia”

4 Fev 2026 - 08:15

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Fernando Martins descobriu um cancro da próstata por acaso: “Não queria acreditar, só percebi quando fui confrontado com a cirurgia”

Aos 60 anos é preciso fazer a renovação da carta de condução. Em fevereiro de 2025, Fernando Martins, 59 anos, decidiu começar a tratar disso. Marcou uma consulta com a médica de família para ter o atestado que permite a renovação da carta e a médica perguntou “há quanto tempo não fazia exames”. “Há uns quatro anos”, respondeu Fernando. Sentia-se bem, saudável, mas lá marcou os exames que a médica passou, disse, em conversa com o Polígrafo e com o Viral.

Quando recebeu os resultados, o valor do antigénio específico da próstata (PSA, na sigla inglesa) estava bastante alto. Mostrou à médica, fez uma ecografia e, aos poucos, foi-se tornando evidente. Pouco tempo depois, o diagnóstico confirmou-se: era cancro da próstata.

“Eu não queria acreditar, só percebi quando fui confrontado com a cirurgia, porque até aí não procurei nada, não quis saber de nada, não queria acreditar que tinha alguma coisa”, descreveu.

Jorge Fonseca, diretor da unidade de Urologia da Fundação Champalimaud, diz que é muito comum descobrir que se tem cancro da próstata em exames de rotina, ao notar um valor alto do PSA. “Aliás, quando há sintomas, habitualmente a doença já está muito avançada”, explicou, “nesses casos é um tumor que já se consegue sentir no toque retal”.

Quando veio a biópsia confirmou-se que a cirurgia era a melhor opção. “O nível de agressividade do tumor era grande, era nível 7”, lembra Fernando Martins. Este sete refere-se à escala de Gleason, que, apesar de ser “uma escala um pouco antiga” segundo o urologista, pode ser relevante para perceber a “agressividade” do tumor.

Neste caso, era intermédia e, após avaliação da equipa médica, percebeu-se que a melhor solução era recorrer a uma cirurgia. Foi Jorge Fonseca quem operou Fernando Martins. “Para além da remoção da próstata, fez-se um esvaziamento ganglionar pélvico”. 

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Fernando é professor de artes numa escola secundária e foi operado em julho. Não teve de deixar de dar aulas porque apanhou a altura das férias: “Em vez de estar na praia, passei o tempo a ver televisão e no computador”.

Como se faz uma cirurgia de remoção da próstata?

Depois da cirurgia, por vezes, há necessidade de fazer radioterapia, mas não foi o caso de Fernando Martins. Logo a seguir à operação sentiu algumas limitações, “tinha dificuldade em fazer muitos movimentos”. 

Um mês e meio depois fez uma viagem com a mulher e os filhos e não conseguia andar tanto quanto eles: ia parando enquanto a família andava porque era impossível “andar durante muito tempo”, recorda.

Mas o grande “medo” que tinha antes de fazer a cirurgia, quando percebeu o que se estava a passar e começou a procurar sobre o procedimento, era a incontinência. Viu muitos relatos, chegou a comprar fraldas, mas quando tirou a algália percebeu que esse não seria um problema.

E Jorge Fonseca explica porquê: a cirurgia que fez não é exatamente a cirurgia mais comum de remoção da próstata. Na prostatectomia radical convencional, “o cirurgião, para ter acesso à próstata, tem de descolar a bexiga da parede abdominal”. 

E aqui a abordagem foi diferente: “A próstata é abordada posteriormente sem necessidade de mobilizar a bexiga, o que permite recuperar muito mais rapidamente a continência urinária”. Na cirurgia convencional feita em “centros de excelência” a continência imediata não chega aos 20% e “ao fim de um ano é de 16%”, sublinha o urologista.

Esses números são bastante superiores aos registados na Fundação Champalimaud, onde o método utilizado não implica a mobilização da bexiga. “De forma geral, 10% dos nossos doentes ficam com incontinência ligeira”.

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E já foi possível perceber que grande parte tem em comum o facto de ter uma “uretra pequena”. Retirando os pacientes com essa condição, a taxa de incontinência “fica muito menor”. Esses, que são informados desta possibilidade, podem optar por fazer radioterapia.

Fernando Martins admite que só aceitou dar esta pequena entrevista porque o médico que o acompanha disse que o devia fazer. Não é “muito de conversas”, diz, mas deve muito à equipa e não quis dizer que não.

Não fala só dos médicos, mas especialmente dos enfermeiros, que são “fora de série”. “Quando fui tirar a algália estava cheio de medo”, recorda. Mas a enfermeira foi tão cuidadosa que não sentiu nada. “Não sei como é que ela fez aquilo, foi espetacular”.

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Agora continua a ser acompanhado por Jorge Fonseca, para já de três em três meses, eventualmente de seis em seis e, mais tarde, uma vez por ano. De todas essas vezes que voltar à consulta com Jorge Fonseca, Fernando irá repetir a análise ao PSA — esse valor, depois de uma cirurgia, “deve ser centesimal” — para fazer uma monitorização e vigilância de uma eventual recidiva.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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4 Fev 2026 - 08:15

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