Estudo sugere que esperança de vida humana está a atingir um limite. Quais os motivos?
Durante o século passado, a esperança média de vida humana chegou a aumentar trinta anos em determinados países, mas a previsão mais recente estima um abrandamento deste crescimento. Um estudo publicado na revista Nature Aging sugere que a esperança de vida está a atingir um limite e que “o prolongamento radical da vida humana é implausível neste século”. Mas o que explica este cenário?
Porque está a esperança de vida a atingir um limite?
Antes de mais importa explicar que, tal como se esclarece num texto publicado no site do Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, a esperança de vida humana “é a quantidade de tempo que se espera que uma pessoa viva com base no ano em que nasceu, na sua idade atual e em vários fatores demográficos”.
Em esclarecimentos ao Viral, Paulo Almeida, especialista em medicina interna da Unidade Local de Saúde de São João (ULSSJ) e com competência em geriatria pela Ordem dos Médicos, refere que existem “três fatores principais que podem alterar a esperança de vida”: “a saúde pública”, “os cuidados médicos” a que cada pessoa tem acesso e “o envelhecimento biológico”.
No estudo em análise, publicado na revista Nature Aging e intitulado “Implausibilidade do prolongamento radical da vida dos seres humanos no século XXI”, explorou-se, entre 1990 e 2019, “as tendências recentes nas taxas de mortalidade e de expectativa de vida” nos oito países “com as populações mais longevas (Austrália, França, Itália, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Suécia e Suíça)”, “em Hong Kong e nos Estados Unidos”.
Tal como explica Paulo Almeida, “no artigo, foram selecionados países com condições socioeconómicas particulares e com disponibilidade de alto rendimento, em que as populações vivem mais, exatamente por otimizarem ao máximo os fatores ‘saúde pública’ e ‘cuidados médicos’”.
Estudaram-se países em que existem “medidas de saúde pública e acessibilidade a cuidados médicos de ponta com terapêuticas modificadoras de prognóstico das doenças”, acrescenta o médico.
Os investigadores constataram, assim, que “desde 1990 as melhorias globais na esperança de vida desaceleraram”, ou seja, tornou-se “progressivamente mais difícil aumentar a esperança de vida”, refere-se no artigo.
Isto porque, salienta Paulo Almeida, “já se otimizou quase ao máximo as determinantes associadas à saúde pública e os cuidados médicos”, os dois fatores modificáveis.
Claro que, refere, se fossem avaliados “países de populações com baixo rendimento, a taxa de mortalidade seria muito mais fácil de melhorar”, tal como “os cuidados médicos”.
Aí, possivelmente, iria verificar-se “a aceleração que se verificou nos países com alto rendimento” anteriormente constatada.
O médico da ULSSJ considera importante salientar ainda que o estudo terminou em 2019, evitando “que entrasse um fator muito importante, a pandemia por SARS-CoV-2”.
Tal como mostraram outros estudos, “a esperança de vida foi altamente influenciada por este fator importantíssimo de saúde pública”, sobretudo nos países subdesenvolvidos (ver aqui).
Acima das medidas de saúde pública e dos cuidados médicos está um fator “mais difícil de controlar”: “o envelhecimento biológico”.
O estudo “mostra que, mesmo que os humanos façam o que é possível em relação à doença e à proteção da comunidade, temos uma vida finita, não somos eternos”.
Portanto, “mesmo eliminando a doença com alterações comportamentais, com medicamentos, com avanços da medicina, o envelhecimento biológico é um fator importantíssimo e muito difícil de controlar”, reforça Paulo Almeida.
Apesar de poder surgir “uma ou outra medida que possa retardar o envelhecimento biológico”, elas também teriam de “ser acessíveis a toda a população” de forma a “alterar a esperança de vida”, acrescenta.
A isto acresce “a mortalidade na velhice” não ter vindo “a diminuir desde 1990 a um ritmo que se aproxime sequer da taxa de melhoria necessária”, refere-se no estudo.
Segundo Paulo Almeida, para haver “um declínio necessário da mortalidade” ao ponto de “aumentar ainda mais a expectativa de vida” seria preciso “uma redução muito drástica das taxas de mortalidade”.
Aliás, os investigadores adiantam que esse “nível de mortalidade exigiria a cura completa ou a eliminação da maioria das principais causas de morte que existem atualmente”.
Por isso, conclui-se no estudo, “é improvável que a sobrevivência até aos 100 anos ultrapasse os 15% para as mulheres e os 5% para os homens, sugerindo que, a menos que os processos de envelhecimento biológico possam ser marcadamente abrandados, o prolongamento radical da vida humana é implausível neste século”.
Em suma, a esperança de vida está a atingir um limite, porque, apesar de estar dependente de três fatores principais, sendo que um deles, o envelhecimento biológico, não se consegue controlar e sobrepõe-se aos outros dois (saúde pública e cuidados médicos).