Entrar na escola aos 5 ou aos 6 anos: há diferença na aprendizagem?
De mochila às costas, os alunos entram pela primeira vez na sala de aula do 1º ciclo (conhecido, vulgarmente, como escola primária) para iniciar um novo ciclo de aprendizagem. Deixaram as brincadeiras do pré-escolar e vão começar a aprender as letras e os números. A maioria dos alunos da turma tem seis anos, mas alguns só têm cinco.
A lei determina que a matrícula no 1.º ano do ensino básico “é obrigatória para as crianças que completem seis anos até 15 de setembro” – data em que, normalmente, começa o ano letivo.
Para as crianças que celebram o sexto aniversário entre 16 de setembro e 31 de dezembro existem duas opções: ou entram na escola com cinco anos – mediante requerimento do encarregado de educação e dependendo do número de vagas existentes nas turmas – ou esperam pelo ano letivo seguinte e iniciam o ensino básico já com seis anos.
Mas qual é a melhor opção para a criança? É vantajoso entrar na escola com cinco anos ou é preferível esperar pelo ano letivo seguinte? Há diferenças nos resultados escolares a longo prazo?
Tânia Gaspar, professora e diretora do Serviço de Psicologia, Inovação e Conhecimento (SPIC) da Universidade Lusófona e coordenadora nacional do estudo “Health Behaviour School Aged Children” da Organização Mundial de Saúde (OMS), e Bárbara Ramos Dias, psicóloga especializada em crianças e adolescentes e autora de três livros sobre parentalidade, explicam ao Viral o que ter em conta antes de tomar a decisão.
Faz diferença entrar na escola aos cinco ou aos seis anos?
Não existe uma “resposta universal” para esta pergunta, depende “do ritmo de desenvolvimento e maturidade de cada criança”, afirma Bárbara Ramos Dias. Também Tânia Gaspar defende a análise caso a caso, mas ressalva que, de modo geral, “o ideal é esperar” que a criança complete os seis anos para entrar na escola primária.
“É importante respeitar o natural desenvolvimento da criança. Não há necessidade de acelerar ou pressionar o processo de aprendizagem”, esclarece, acrescentando que, “quando as crianças são obrigadas a entrar mais cedo [na escola], podem manifestar dificuldades de aprendizagem e não conseguir acompanhar os ensinamentos”.
Para Bárbara Ramos Dias, podem existir vantagens e desvantagens em ambas as situações. Tudo depende da personalidade da criança e do desenvolvimento das suas competências emocionais, sociais e cognitivas no momento em que entra para a escola primária.
“Se a criança já mostra interesse por letras e números, tem autonomia e uma boa regulação emocional, pode beneficiar da entrada aos cinco anos. Mas se ainda precisa de brincar mais, desenvolver linguagem, motricidade ou competências sociais, ficar mais um ano no pré-escolar pode ser muito protetor”, explica a psicóloga.
O “estímulo precoce” pode ser uma vantagem para as crianças que entram na escola com cinco anos, prossegue a psicóloga. Se a criança já demonstra maturidade intelectual e emocional, a entrada na escola primária pode também ser entendida como um “maior desafio”, reduzindo o “tédio” de ficar mais um ano no pré-escolar.
Por outro lado, uma criança que seja emocionalmente imatura, corre o risco de “ter mais dificuldades em lidar com regras, frustrações e autonomia” e de se comparar “com os colegas mais velhos”, prossegue a psicóloga. Existe também “maior risco de stress escolar”, sobretudo “em crianças menos preparadas para a exigência” do ensino primário.
Aos seis anos, a criança irá demonstrar “maior maturidade socioemocional”, o que significa que “conseguirá estar mais atenta” e “gerir melhor as regras e as relações”. Manifestará uma “confiança acrescida” perante as tarefas escolares e, por isso, apresenta uma “menor probabilidade de dificuldades iniciais”.
O facto de “serem os mais velhos da turma” e o “estigma social” de, supostamente, terem ficado para trás podem ser fatores de risco para as crianças que esperam um ano para entrar na primária, acrescenta a psicóloga.
Bárbara Ramos Dias partilha o exemplo dos próprios filhos: enquanto a filha mais velha entrou na escola com cinco anos porque era “madura para a idade”, o filho do meio, como era “agitado, brincalhão e não lidava bem com a frustração”, ficou mais um ano no pré-escolar e acabou por beneficiar desta decisão.
Tânia Gaspar sublinha que “o primeiro ciclo é muito importante para a experiência escolar” e devia ser um momento em que a criança “aprende a gostar de aprender”. Uma iniciação precoce na escola primária pode fazer com que esta “experiência, que podia ser positiva e natural, acabe por ser mais promotora de stress e ansiedade”.
Há consequências a longo prazo? O que diz a ciência?
Nas últimas décadas têm sido publicados vários estudos sobre o “redshirting” académico (“camisola vermelha”, em português) – termo adaptado do desporto, que pretende identificar os atletas que esperam um ano para se inscreverem nas provas e, assim, obtêm melhores resultados.
Diferentes estudos (que poderá consultar aqui, aqui e aqui) concluem que as crianças que entram mais tarde na pré-escola obtêm melhores resultados nos testes durante o ensino primário. Num dos artigos ressalva-se, contudo, que esta diferença esbate-se à medida que a criança prossegue o seu percurso escolar.
Por outro lado, num artigo, publicado em 2019, afirma-se que não existe diferença estatisticamente significativa nos resultados académicos das crianças que entraram mais tarde na escola, quando comparados com os das que entraram mais cedo. Os investigadores realizaram dois testes por ano letivo (outono e primavera) no 1.º, 2.º e 3.º anos de escolaridade.
Também em Portugal, procura-se saber o efeito deste fenómeno na aprendizagem das crianças. Num estudo (2018), realizado com 153 alunos portugueses, foram identificadas “diferenças significativas nas dimensões de compreensão verbal e conceitos quantitativos”, com as crianças que ingressaram no ensino escolar com cinco anos a apresentar “resultados estatisticamente significativos mais baixos”.
Por outro lado, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas nas aptidões escolares (nas dimensões de relações espaciais, constância da forma, orientação espacial e escala total) ou nas competências pessoais e sociais entre os dois grupos analisados.
Noutro estudo (2020), realizado com 698 alunos portugueses do 1.º ano, analisou-se o impacto que o “redshirting” tem na aprendizagem da leitura. Ao contrário do estudo anterior, os investigadores portugueses não encontraram quaisquer “vantagens adicionais” para as crianças que esperam até aos seis anos para ingressar no ensino básico, quando comparado com as que entram com cinco anos.
A divergência nas conclusões dos artigos científicos sobre o “redshirting” académico não permite encontrar uma resposta universal para este dilema – como responderam ao Viral Bárbara Ramos Dias e Tânia Gaspar. Vários artigos referem a necessidade de realizar mais estudos sobre o assunto.
Quando os amigos mudam de escola, mas a criança não: o que fazer?
Mesmo que a criança esteja preparada para entrar na escola primária com cinco anos, isso nem sempre é possível devido à falta de vagas no ensino público. Em alguns casos, a criança pode ficar mais um ano no pré-escolar, enquanto os amigos (que já completaram os seis anos) avançam para uma nova escola.
Esta situação pode criar frustração na criança. Bárbara Ramos Dias aconselha os pais a “trabalhar a frustração, preparando as crianças para lidar com os desafios e ser mais resiliente no futuro”.
Além disso, prossegue a especialista, é importante abordar a questão pelo lado positivo: “Dizer à criança que pode brincar mais um ano, que não vai ter TPC. Temos de nos lembrar que eles são o nosso espelho: se falarmos pela negativa eles vão absorver o negativismo, se falarmos pela positiva eles vão aceitar melhor a situação.”
Para Tânia Gaspar, é importante que “a criança não se sinta posta em causa” por ficar um ano à espera para entrar na escola primária. A especialista acrescenta que também é benéfico para a criança “continuar a ver os amigos fora do contexto da escola”.