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Elixires com álcool fazem mal à saúde oral? Dentista esclarece

20 Fev 2025 - 10:01

Elixires com álcool fazem mal à saúde oral? Dentista esclarece

Em vários vídeos partilhados no TikTok, alerta-se para os supostos perigos para a saúde oral associados à utilização de elixires com álcool. Segundo um dos posts, os elixires que contêm álcool causam manchas e tornam os dentes mais amarelos. Além disso, acrescenta-se, este tipo de produto “causa um ressecamento”, porque “reduz a quantidade de saliva presente na boca”. Será mesmo assim? Os elixires com álcool fazem mal à saúde oral?

É verdade que os elixires com álcool fazem mal à saúde oral?

Em declarações ao Viral, António Mata, presidente da Comissão Científica da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), adianta que, até à data, e de forma geral, os elixires com álcool parecem ser seguros quando utilizados de acordo com a recomendação de um dentista.

No entanto, salienta o investigador, estes produtos estão contraindicados para algumas pessoas, porque, de facto, o álcool presente em alguns elixires “seca as mucosas”. 

Os elixires com álcool na sua composição não devem ser utilizados por pessoas com doenças que “cursam com a diminuição da função salivar”, ou seja, em que “há a sensação de secura na boca”, como, por exemplo, “doenças autoimunes, como a síndrome de Sjögren, e algumas doenças reumáticas”, explica.

Nesses contextos, “o álcool potencia o efeito de secura e de desidratação da mucosa”, tendo o potencial de “agravar” certas doenças.

Por outro lado, segundo António Mata, “nos últimos anos têm surgido algumas suspeitas sobre a possibilidade de os elixires com álcool poderem potenciar o aparecimento de cancro oral” (ver aqui).

Isto porque “o álcool é um dos três grandes fatores de risco para o cancro oral”, em conjunto com “o tabagismo” e “a má higiene oral”, avança (ver também aqui).

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Existe “muita investigação” na área, mas os resultados são contraditórios. Por exemplo, numa revisão de 2008, os investigadores consideraram que existem “provas suficientes” de que “os elixires bucais com álcool contribuem para o aumento do risco de desenvolvimento de cancro oral”, desaconselhando a utilização destes produtos.

Por outro lado, numa meta-análise de 2012 concluiu-se que “não há associação entre a utilização de elixires bucais com álcool e o risco de cancro oral”.

Mais recentemente, duas revisões sistemáticas (uma de 2019 e outra de 2022) apuraram que a utilização de elixires com álcool, por si só, não aumenta o risco de desenvolver cancro oral. No entanto, salientaram os investigadores, quando estão presentes outros fatores de risco de cancro oral, usar um elixir com álcool pode aumentar o risco.

Numa revisão de 2024, verificou-se que “não existem provas suficientes para aceitar a hipótese de que a utilização de elixires bucais com álcool pode influenciar o desenvolvimento do cancro oral”. Uma ideia semelhante é defendida num texto informativo publicado no site do Cancer Research UK.

Assim sendo, salienta António Mata, a comunidade de medicina dentária “não tem uma opinião definida sobre o assunto”, uma vez que “não há provas inequívocas de que o álcool possa ser um fator de risco para o cancro oral, mas também não estudos robustos que provem o contrário”.

Em relação à alegação de que os elixires com álcool causam manchas ou tornam os dentes mais amarelos, o dentista refere que “não é o álcool que causa esse tipo de alterações”.

Segundo o presidente da Comissão Científica da OMD, as alterações referidas nas publicações das redes sociais são “causadas pela clorexidina, um dos ingredientes mais comuns nos elixires orais”, utilizado sobretudo “para desinfeção da flora oral”.

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A clorexidina, “quando utilizada durante mais de sete dias em concentrações superiores a 0,12%, provoca um escurecimento do tecido dentário (uma pigmentação) e causa alterações do gosto”. Ambas as alterações “são reversíveis depois da suspensão” da utilização da substância.

“Os elixires só devem ser utilizados por indicação” de um profissional de saúde oral

Ao contrário do que se possa pensar, a utilização de elixires nem sempre é necessária e, segundo António Mata, não há qualquer benefício em usá-los de forma contínua, a longo prazo. Pelo contrário, bochechar com elixires de forma indiscriminada e sem aconselhamento “está contraindicado”.

O dentista explica que “os elixires só devem ser utilizados por indicação” de profissional de saúde oral, “em casos de patologia”. Seja porque se pretende “prevenir a cárie dentária durante os tratamentos ortodônticos, seja porque é necessário controlar uma flora oral nefasta, por exemplo, em contexto de periodontite”, prossegue.

Se os elixires forem utilizados de forma contínua e sem acompanhamento por parte de um profissional de saúde oral, “podem alterar a flora comensal e produzir alterações dessa flora”, podendo ser “geradores de patologia e de desequilíbrio da flora oral”, esclarece o investigador.

A higienista oral Rita Cruz de Sousa também já tinha esclarecido esta questão, em declarações anteriores ao Viral

A utilização de soluções com “concentrações muito altas durante um longo período, acaba por matar efetivamente as ‘bactérias’ prejudiciais, mas também pode comprometer o equilíbrio natural da microbiota oral (o conjunto de microrganismos que existe na cavidade oral e que desempenha um papel fundamental na manutenção da saúde da boca)”, explicava.

Assim, “se houver uma excelente rotina de higiene oral – higienizando bem entre os dentes e junto à gengiva (com o fio dentário ou o escovilhão) e havendo uma escovagem eficaz com a técnica certa, uma pasta de dentes adequada e uma escova de dentes de cerdas suaves, poderá nem existir necessidade de usar elixir ou colutório na rotina diária”, acrescentava Rita Cruz de Sousa.

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Num texto informativo da Associação Dentária Americana (ADA), refere-se que, em alguns casos, “os elixires orais podem oferecer benefícios adicionais”, mas a sua utilização “não substitui a escovagem correta e o uso do fio dentário”.

20 Fev 2025 - 10:01

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