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Efeitos secundários da quimioterapia: Quais são e como geri-los?

23 Jun 2025 - 05:30

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Efeitos secundários da quimioterapia: Quais são e como geri-los?

Existem vários tipos de tratamento para o cancro, como a quimioterapia, a radioterapia, a cirurgia e a imunoterapia. A escolha da terapêutica depende de fatores como a idade do doente, o estado de saúde geral e o tipo, o tamanho, o estadio e a localização do tumor. A quimioterapia é um dos tratamentos mais utilizados, devido ao seu mecanismo de ação e à sua eficácia, mas está associada a alguns efeitos secundários. Quais são e como geri-los? As oncologistas Ana João Pissarra e Cláudia Vieira respondem.

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Quais os efeitos secundários mais comuns da quimioterapia?

Segundo Ana João Pissarra é preciso ter em conta que a quimioterapia, enquanto tratamento, “engloba vários tipos de fármacos” e “os efeitos podem ser um pouco mais específicos” dependendo do grupo de medicamentos utilizado.

Tal como se refere num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), a quimioterapia pode ser administrada “oralmente (comprimidos)” e “por via endovenosa (através de um cateter colocado numa veia)”.

Cláudia Vieira refere que “os efeitos secundários mais frequentes” da quimioterapia são “o cansaço, a perda de apetite, os enjoos, as náuseas e os vómitos” (ver também aqui e aqui).

O tratamento pode também causar “alterações a nível da mucosa oral” e aumentar a probabilidade de o doente “desenvolver aftas na boca”, aponta Ana João Pissarra.

A nível gastrointestinal, a quimioterapia pode ainda “causar diarreia ou obstipação”. 

É comum a ideia de que “a quimioterapia faz cair o cabelo” e, segundo as duas oncologistas, alguns grupos de fármacos podem, de facto, provocar esse efeito secundário.

Outro efeito muito comum neste contexto prende-se com “alterações a nível do sangue”, salienta Ana João Pissarra. É habitual verificar-se “anemia, baixa de plaquetas e baixa de glóbulos brancos”.

A anemia, sobretudo, “pode dar o tal cansaço, um dos sintomas mais frequentes enquanto se faz quimioterapia”.

A alteração no nível de plaquetas “pode provocar hemorragias com mais facilidade”, na gengiva e no nariz, por exemplo.

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Já a diminuição de glóbulos brancos “aumenta a probabilidade de a pessoa desenvolver infeções”, porque “o sistema imunitário fica comprometido”.

Alguns medicamentos utilizados na quimioterapia “também podem ser lesivos para determinados órgãos, como o fígado e os rins”, realça Cláudia Vieira.

A que se devem estes efeitos secundários?

Ana João Pissarra explica que a quimioterapia “atua ao nível da divisão celular”, ou seja, o seu “objetivo é matar as células que se dividem mais rápido” (como as células dos tumores). Contudo, esta é “uma arma cega” que afeta todas as células, mesmo as “boas” que habitualmente se renovam (ver também aqui).

Por esse motivo, sublinha Cláudia Vieira, tudo o que sejam células que se dividem mais rápido são mais afetadas pela quimioterapia, como “as células do interior da boca, do cabelo, do sangue” e do intestino.

Por exemplo, a quimioterapia “altera significativamente a flora intestinal” e afeta também as células da mucosa intestinal, “que revestem o nosso intestino”, levando frequentemente ao aparecimento de diarreia, explica Ana João Pissarra.

Além disso, a quimioterapia pode afetar o organismo através do cérebro. Cláudia Vieira explica que “o cérebro ‘não gosta’ de produtos químicos, como o álcool e os medicamentos, porque interferem na sua função”.

A médica explica que “a barreira hematoencefálica” protege o cérebro “de produtos que estão na circulação sanguínea e que podem causar alteração das funções cerebrais”. No entanto, “este mecanismo não funciona a 100%” e, às vezes, quando há a administração de “doses muito elevadas, há alguma infiltração no tecido cerebral” e isso pode provocar, por exemplo, os vómitos.

Por último, “há um terceiro mecanismo, que é a lesão direta de um órgão específico”. Segundo a oncologista, “o coração é sensível a alguns medicamentos de quimioterapia, o rim a outros e o fígado a outros” fármacos. Nesses casos, dependendo do medicamento, as funções de um órgão específico podem ficar comprometidas.

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Além de os efeitos secundários dependerem do tipo de fármaco utilizado na quimioterapia, também existem variações individuais. Isto é, quando uma pessoa tem “comorbilidades” (como outras doenças e hábitos de estilo de vida) isso pode “influenciar de alguma forma os efeitos da quimioterapia” e a intensidade dos mesmos.

Por exemplo, refere Ana João Pissarra, “uma pessoa com uma doença inflamatória intestinal tem uma sensibilidade gastrointestinal muito maior”.

Como se gerem os efeitos secundários da quimioterapia?

Pré-habilitação

Em primeiro lugar, sempre que possível, atua-se de uma forma preventiva, ou seja, aplicam-se estratégias, antes do tratamento, para a pessoa ter menos efeitos secundários (ou menos intensos).

Tal como explica Cláudia Vieira, faz-se “uma pré-habilitação”, isto é, “uma preparação do doente para a quimioterapia”.

Por exemplo, há medicamentos que provocam diarreia e, de forma a tentar evitar-se esse efeito, muitas vezes, receita-se “pré-medicação” que, depois, até pode acabar por “causar obstipação”, refere Ana João Pissarra.

A preparação do doente também é útil quando existem suscetibilidades específicas. “Pode-se indicar o doente para uma consulta de cardiologia ou de nefrologia, se houver alguma fragilidade nesse sentido”, exemplifica Cláudia Vieira.

Isto permite que o doente faça a quimioterapia de forma mais segura. No entanto, nem sempre é possível fazê-lo. Vai depender, sobretudo, do tipo de cancro e do estadio.

“Numa leucemia aguda, em que os glóbulos brancos estão malignos e se dividem em poucas horas, o tratamento de quimioterapia também tem que começar em poucas horas ou poucos dias”, explica a oncologista.

Por outro lado, “em tumores malignos da mama, da próstata ou do intestino, que demoram semanas ou meses a duplicar de tamanho”, é possível “gerir a intervenção” e preparar o doente.

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Estas questões são todas discutidas “em consultas de grupo”, em que vários especialistas de “radioterapia, quimioterapia, cirurgia”  – e, dependendo da doença e do doente, representantes de outras especialidades – discutem qual a melhor abordagem.

Medicação

Durante a quimioterapia, pode ser necessário aumentar as doses de medicamentos que estão a ser tomados ou receitar novos fármacos para gerir efeitos secundários agudos.

Segundo as duas oncologistas consultadas, a maioria dos efeitos comuns, como as náuseas, os vómitos, as diarreias, são geridos com sucesso, porque existe medicação de suporte muito desenvolvida.

Ainda assim, o cansaço, apesar de ser comum, “é mais difícil de colmatar”, sublinha Ana João Pissarra. 

Se for “unicamente justificado pela anemia, pode-se receitar ferro ou fazer uma transfusão e a pessoa consegue melhorar”.

O problema é que, em grande parte dos casos, “há um cansaço generalizado muito frequente, sobretudo nos dias após o ciclo do tratamento, e que é muito difícil de colmatar”, explica.

A quimioterapia é feita por ciclos, com doses que podem ir variando consoante a doença e a resposta do doente.

Há casos em que, se um efeito secundário for demasiado condicionante e debilitante para uma pessoa, pode-se fazer “uma redução da dose” ou “uma pausa no tratamento”, sendo que esta possibilidade varia consoante o caso, refere Cláudia Vieira. 

Medidas de estilo de vida

Importa salientar que o estilo de vida tem um grande impacto mesmo antes do início da quimioterapia, ou seja, uma pessoa “com um bom estado geral de saúde, com hábitos de vida saudáveis, que não fume, não tenha diabetes e que tenha uma boa função pulmonar”, por exemplo, “de modo geral, vai tolerar melhor o tratamento”, explica Ana João Pissarra.

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Depois, antes e durante a quimioterapia, existem alterações de estilo de vida sugeridas ao doente que atuam de forma favorável no combate à doença e na tolerância aos efeitos secundários.

Segundo as médicas, existe uma abordagem multidisciplinar para a pessoa tolerar melhor o tratamento, do ponto de vista físico e psicológico.

Por exemplo, um fumador é encaminhado “para uma consulta de evicção tabágica para deixar de fumar”, aponta Cláudia Vieira.

A alimentação também é muito importante. Ana João Pissarra explica que “é importante não descurar o aporte de proteína, porque é a proteína que nos dá a massa muscular e, quanto melhor nutrido estiver o doente, melhor tolera os tratamentos”. Nesse sentido, um acompanhamento por parte de um nutricionista é sempre uma mais-valia.

Além disso, “sabemos que é cada vez mais importante os doentes que estão a fazer quimioterapia serem ativos”, salienta. 

“Basta fazer caminhadas com alguma periodicidade”, de intensidade moderada. Esse hábito “é importante porque ajuda a manter a massa muscular” e tem benefícios do ponto de vista cardiovascular.

Apoio psicológico

Na perspetiva das especialistas, o apoio psicológico (e, por vezes, psiquiátrico) é fundamental, não só durante os tratamentos, mas também no pós-tratamento.

Ana João Pissarra defende que “doentes mais fragilizados do ponto de vista emocional, que estão mais abaixo, interpretam os efeitos secundários de forma diferente” e podem mesmo ter efeitos mais intensos.

O apoio psicológico é igualmente importante “nos doentes que já terminaram o tratamento e estão numa fase de vigilância”, sublinha.

Estes doentes não só estão “sujeitos a um stress derivado do tratamento e da doença”, como também podem sentir algum stress associado à possibilidade de a doença poder voltar e ligado a efeitos secundários tardios.

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A quimioterapia acabou. E agora?

Após a quimioterapia, “é feito um acompanhamento”, cuja periodicidade “depende do tipo de tumor” e “do tratamento”, mas, numa fase inicial, os doentes são acompanhados em oncologia “de dois em dois meses ou de três em três meses”, avança Ana João Pissarra.

Este período serve “para perceber se a doença está controlada ou se voltou” e também para entender “se é necessário manter algum tipo de medicação para sintomas que persistem”, explica.

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Depois, caso a caso, são marcadas consultas pontuais. Consoante os efeitos secundários, “pode haver a necessidade de os doentes serem acompanhados por outras especialidades e fazerem algum tipo de tratamento específico”.

Isto é particularmente importante, porque, “além dos efeitos secundários agudos”, que acontecem durante a quimioterapia, há efeitos que “podem manter-se durante meses, anos e até podem nunca desaparecerem” por completo, como a sensibilidade nos dedos.

Outro exemplo, aponta Ana João Pissarra, é quando um medicamento dá “toxicidade cardíaca”. Há casos em que “a função do coração fica alterada” de forma persistente e, por vezes, “não reversível”, esclarece.

Além disso, ainda é possível verificar-se “efeitos secundários tardios”, realça Cláudia Vieira. Uma pessoa pode não ter efeitos secundários significativos durante a quimioterapia e “20 anos depois ter uma insuficiência cardíaca”, exemplifica Cláudia Vieira.

Podem, de facto, existir “queixas que se manifestam muitos anos depois da administração dos medicamentos”, daí a importância do histórico clínico nas consultas posteriores à quimioterapia.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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