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“É preciso repensar as questões das comunicações em situação de emergência”, alerta presidente do INEM

3 Out 2026 - 08:00

“É preciso repensar as questões das comunicações em situação de emergência”, alerta presidente do INEM

“É preciso repensar as questões das comunicações em situação de emergência.” Este é o alerta deixado por Luís Cabral, presidente do Conselho Diretivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), esta sexta-feira, durante a mesa-redonda “Resposta e recuperação de catástrofes”, integrada no VII Congresso Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

Luís Cabral deu como exemplo o que aconteceu durante a tempestade Kristin na região de Leiria, onde o INEM deixou de receber chamadas provenientes da região durante cerca de duas horas, o que levou a perceber que existia um problema nas comunicações. “As pessoas não conseguiam chegar ao 112 a partir de Leiria. Tivemos cerca de duas horas em que não houve chamadas da região de Leiria, embora as pessoas pudessem estar a precisar de socorro”, afirmou.

Nesse sentido, sublinhou, “é preciso repensar as questões das comunicações em situação de emergência, porque, hoje em dia, estamos todos muito pendurados em sistemas tecnológicos muito avançados, mas que falham”.

O presidente do INEM defendeu também a importância de manter estruturas locais capazes de ativar rapidamente os mecanismos de emergência. “As estruturas locais, os rádios locais, os bombeiros locais, as formas locais de ativar todo o sistema de emergência são fundamentais”, afirmou.

Para Luís Cabral, recuperar rapidamente as comunicações deve ser uma prioridade após uma catástrofe. “Numa primeira instância, aquilo que tem de ser recuperado são as componentes da comunicação. Não só para garantir as chamadas de emergência, mas para garantir o conforto das pessoas”, explicou. Atualmente, vincou, esse “conforto” passa também pelo acesso à internet e à informação nessas situações.

Quanto à reconstrução das infraestruturas e dos edifícios afetados, Luís Cabral defendeu que é preciso ter em conta os fenómenos extremos a que poderão voltar a estar sujeitos. “Não vale a pena construir exatamente igual. Se nós construirmos exatamente igual, vamos ter exatamente o mesmo”, afirmou. O presidente do INEM deu como exemplo a necessidade de preparar as estruturas para suportarem ventos de maior intensidade.

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Bartolomeu Rasteiro Alves: “Não vi nada substancialmente feito” desde a tempestade Leslie

A necessidade de reforçar a preparação para fenómenos extremos foi também destacada por Bartolomeu Rasteiro Alves, médico de Saúde Pública na Unidade Local de Saúde da Região de Leiria e coordenador da Unidade de Epidemiologia Clínica e Saúde Pública Hospitalar.

A partir da experiência da tempestade Kristin, o médico distinguiu a impossibilidade de prever exatamente um fenómeno meteorológico da possibilidade de prevenir algumas das suas consequências. “Não se consegue prever aquilo que é o fenómeno climático, mas consegue-se prevenir aquilo que são os acontecimentos decorrentes destes fenómenos”, afirmou.

Apesar de considerar que a resposta das diferentes entidades em Leiria permitiu evitar consequências mais graves, Bartolomeu Rasteiro Alves criticou a falta de medidas de prevenção entre episódios extremos. “Não vi nada substancialmente feito na prevenção destes fenómenos desde a ocorrência da tempestade Leslie até à tempestade Kristin”, afirmou.

O médico destacou ainda a importância da proximidade entre a Saúde Pública e as estruturas de decisão. Sobre a resposta da ULS da Região de Leiria, afirmou: “Não tenho absolutamente dúvidas de que foi decisiva a proximidade que a Saúde Pública em Leiria tem com o Conselho de Administração”.

Clarisse Campos: “Não tivemos tempo de nos prepararmos”

A experiência das inundações em Alcácer do Sal, registadas no final de janeiro e início de fevereiro de 2026, mostrou também como é difícil antecipar a dimensão que uma situação de emergência pode atingir. 

Clarisse Campos, presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, explicou que a população da zona da Avenida dos Aviadores estava habituada a episódios de inundação associados a períodos de maré alta, mas não esperava que a situação assumisse aquela dimensão. Em algumas habitações, a água chegou a atingir cerca de três metros de altura.

“Todas as pessoas que viviam naquela zona acharam que era uma situação normal”, afirmou.

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Quando a situação se agravou, a autarquia teve de mobilizar rapidamente os meios disponíveis. “Não tivemos tempo de nos prepararmos. Nessa primeira inundação, não tivemos tempo”, relatou.

Entre as medidas adotadas na resposta inicial esteve o apoio a pessoas que permaneceram nas suas casas sem eletricidade e a articulação com os serviços de saúde para garantir o acesso a medicamentos.

“As nossas duas únicas farmácias do concelho ficaram inundadas”, contou Clarisse Campos. Segundo a autarca, os serviços municipais de ação social e o Centro de Saúde de Alcácer do Sal identificaram a medicação habitual das pessoas afetadas, e a Câmara Municipal assegurou a compra dos medicamentos durante três semanas.

Maria José Roxo: “Os fenómenos naturais não se compadecem com limites administrativos”

Maria José Roxo, professora catedrática aposentada do Departamento de Geografia e Planeamento Regional e investigadora do CICS.NOVA, defendeu que a resposta aos fenómenos naturais não pode ficar limitada às fronteiras administrativas.

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“Os limites administrativos são muitíssimo interessantes quando eu tenho de fazer gestão e tenho de planear, mas os fenómenos naturais não se compadecem com limites administrativos”, afirmou.

Para a geógrafa, é necessário passar de uma gestão fragmentada para uma abordagem integrada do território. “Esta visão sistémica do território ainda não está posta em prática e é aqui que nós temos de trabalhar”, sublinhou.

Maria José Roxo considerou ainda que a preparação deve envolver as próprias comunidades. “Eu preciso de territórios resilientes, eu preciso de um planeamento adaptativo. Todos temos de participar neste processo”, afirmou.

3 Out 2026 - 08:00

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