Dores de crescimento existem mesmo? São motivo de preocupação?
Segundo a sabedoria popular, sobretudo entre os 10 e os 12 anos, é comum algumas crianças queixarem-se de dores de crescimento, ou seja, dores nos membros inferiores, principalmente na zona dos joelhos. São dores transitórias, mas incomodativas, o que pode alarmar alguns pais. Mas será que as dores de crescimento existem mesmo ou estas dores têm outra causa? Podem ser motivo de preocupação?
O que são as dores de crescimento?
Em declarações ao Viral, Fernando Chaves, médico pediatra no Hospital Lusíadas Lisboa, explica que não há consenso em torno das dores de crescimento. Aliás, o médico diz que o nome deste tipo de dores acaba até por ser um pouco enganador, já que não se sabe ao certo o que as desencadeia.
Segundo o pediatra, estas dores assemelham-se às cólicas fisiológicas nos bebés, na medida que “a dor realmente existe, porque a criança queixa-se e, muitas vezes, de forma importante”, mas não se sabe ao certo as causas dessas dores benignas e transitórias e porque é que algumas crianças as sentem e outras não.
Fernando Chaves adianta que a explicação mais aceite na comunidade médica é que “o crescimento ósseo” provoca “uma proliferação medular”, que “poderá dar dor”.
Além disso, sabe-se que as dores de crescimento são muito típicas, ou seja, têm uma localização, duração e um horário específicos.
Em primeiro lugar, refere-se num documento da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), as dores de crescimento são comuns. “Uma em cada 10 crianças saudáveis, com idades compreendidas entre os 3 e os 12 anos, queixa-se por vezes de dores nos membros inferiores”, típicas das dores de crescimento.
Segundo Fernando Chaves, este tipo de dor “aparece normalmente na zona dos joelhos ou das canelas”.
Tal como se esclarece num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), as dores de crescimento também costumam surgir ao fim da tarde ou à noite e desaparecem de manhã.
Em termos de intensidade, “podem ser ligeiras, moderadas e, muitas vezes, intensas”, salienta Fernando Chaves.
Em contexto de dores ligeiras, “uma massagem no local da dor e um pouco de mimo dos pais é suficiente para melhorar o processo”, defende o pediatra.
Quando as queixas são mais intensas pode-se lidar da mesma forma que se lida com qualquer outra dor, através da “toma de analgésicos, como o paracetamol”, refere.
No documento da SPP, explica-se que as crises de dores de crescimento têm intervalos muito variáveis. “Podem ocorrer uma vez por dia ou uma vez por noite, durante vários dias ou várias noites seguidas numa semana (mas menos de 7 dias seguidos) e durante várias semanas”.
Depois, “desaparecem durante algum tempo, para reaparecerem com as mesmas características, passadas algumas semanas”. De forma progressiva, “as crianças deixam de se queixar por longos períodos, e na maioria dos casos estas dores acabam por desaparecer dentro de um período de 2 anos”, acrescenta-se.
Quando é que as dores são motivo de preocupação?
As dores de crescimento têm características muito típicas, por isso, é importante perceber se o que a criança sente são mesmo dores de crescimento ou se são outro tipo de dores com “uma conotação patológica” e “não fisiológica”, sublinha Fernando Chaves.
É motivo de preocupação se a criança tiver uma dor junto aos ossos, nomeadamente nos joelhos, “que persiste ao longo do dia, leva a coxear, agrava com o tempo” e que provoca “uma quebra do estado geral da criança”, explica o médico.
As dores de crescimento “não estão associadas a febre, perda de peso ou de apetite, fraqueza ou cansaço”, refere-se noutro texto da SPP.
Além disso, “a aparência da perna é normal, sem vermelhidão ou inchaço, sem limitação do movimento ou da marcha, ou seja, sem coxear associado”, acrescenta-se (ver também aqui).
Por isso, na perspetiva de Fernando Chaves, quando as dores vêm associadas a sintomas não típicos de dores de crescimento, é importante que os pais consultem um pediatra.