Doença Inflamatória do Intestino: O que é? Que tipos existem? Como tratar?
A designação Doença Inflamatória do Intestino (DII) inclui condições que inflamam os intestinos de forma crónica, impedindo os órgãos afetados de funcionar de forma adequada. Mas que tipos existem? Quem corre maior risco? Como tratar?
A propósito do Dia Mundial da Doença Inflamatória do Intestino, que se assinala todos os anos a 19 de maio, Joana Torres, gastrenterologista no Hospital Beatriz Ângelo e no Hospital da Luz e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), esclarece a principais dúvidas sobre a DII.
O que é a Doença Inflamatória do Intestino (DII)? Que tipos existem?
“A doença inflamatória do intestino (DII) é um grupo de doenças crónicas em que existe inflamação persistente do tubo digestivo”, começa por adiantar Joana Torres (ver também aqui e aqui).
Tal como se explica no site dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa), “a DII ocorre quando o sistema de defesa natural do organismo ataca por engano as células saudáveis do intestino”. Isto provoca “inflamação (inchaço) e outros danos que não desaparecem por si só”, acrescenta-se.
Segundo a vice-presidente da SPG, tipicamente, a doença “evolui por períodos de agudização (‘crises’) e de remissão” e as principais formas de DII “são a doença de Crohn e a colite ulcerosa”.
A doença de Crohn “pode afetar qualquer parte do tubo digestivo, desde a boca até ao ânus, e a inflamação pode afetar todas as camadas do intestino e aparecer em zonas separadas”, sendo que, por norma, “afeta a zona terminal do intestino delgado”, esclarece a médica.
Já a colite ulcerosa “afeta apenas o intestino grosso e o reto, com inflamação mais superficial e contínua” (ver também aqui).
Os sintomas mais comuns da DII são: “diarreia persistente, dor abdominal, sangue nas fezes, urgência em evacuar, cansaço, perda de peso, febre e anemia”.
Também podem “surgir manifestações fora do intestino, como dores articulares, alterações na pele ou inflamação nos olhos”, refere a gastrenterologista.
“O diagnóstico é feito juntando várias peças do puzzle: sintomas, análises, exames de imagem e observação direta do intestino”, explica Joana Torres.
De modo geral, pode recorrer-se a: “análises ao sangue, para procurar sinais de inflamação, anemia ou défices nutricionais”; “análises às fezes, para excluir infeções e medir marcadores de inflamação”; e “colonoscopia com biópsias, um exame central no diagnóstico”, que “permite ver o intestino por dentro e recolher pequenas amostras para análise”.
No caso da doença de Crohn, também é comum fazer-se uma “entero-TAC ou entero-ressonância, para avaliar a extensão da doença no intestino delgado e avaliar a presença de complicações”.
Segundo a informação disponibilizada no site da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino (APDI), “quando não se consegue distinguir por haver registo de características comuns à colite ulcerosa e à doença de Crohn, chamamos colite indeterminada ou colite não classificada a estas DII”.
É importante sublinhar ainda que doenças como a Síndrome do Intestino Irritável (SII) e a doença celíaca não são doenças inflamatórias intestinais. Estas doenças são muitas vezes confundidas com a DII, por partilharem alguns sintomas semelhantes. No entanto, sublinha-se noutro texto dos CDC, “trata-se de doenças totalmente diferentes, com causas e tratamentos distintos”.
Quem corre maior risco de ter uma doença inflamatória intestinal?
As causas da DII não são completamente conhecidas. À luz da evidência atual, tanto a doença de Crohn como a colite ulcerosa parecem dever-se a vários fatores (ver aqui, aqui e aqui).
Segundo Joana Torres, esses fatores incluem “predisposição genética, alterações do sistema imunitário, alterações da microbiota intestinal – ou seja, das bactérias que vivem no intestino – e fatores ambientais, como hábitos de vida, infeções prévias, alimentação ou poluição”.
Na prática, em cada doente, “geralmente, não é possível identificar uma causa concreta”, sublinha a especialista. No entanto, existem “alguns fatores de risco”.
O mais importante “é a história familiar”, ou seja, “ter um familiar com doença de Crohn ou colite ulcerosa aumenta o risco de desenvolver a doença, podendo esse risco ser cerca de 4 a 8 vezes superior ao da população geral”.
O tabagismo também é relevante, “pois aumenta claramente o risco e a gravidade da doença de Crohn” (ver também aqui).
Além disso, “a exposição a antibióticos na infância também tem sido associada, em alguns estudos, a um maior risco futuro de doença inflamatória do intestino, embora esta seja apenas uma associação e não prove, por si só, uma relação direta de causa e efeito”, esclarece.
Como tratar?
“Existem muitos tratamentos disponíveis”, sendo que “a escolha do tratamento depende do tipo de doença, da gravidade, da zona afetada e das características de cada pessoa”, adianta Joana Torres.
O objetivo do tratamento “é controlar a inflamação, aliviar sintomas, prevenir crises e evitar complicações”.
As opções incluem medicamentos, como os “aminossalicilatos, usados sobretudo na colite ulcerosa ligeira a moderada”.
Também estão disponíveis corticosteroides que são “usados para controlar crises”, mas “não são indicados como tratamento prolongado devido aos efeitos secundários”.
Além disso, alguns “imunossupressores ajudam a reduzir a atividade exagerada do sistema imunitário” e há antibióticos que são úteis “em situações particulares, como abcessos, fístulas ou outras complicações”.
Quando há défices nutricionais – por exemplo, de “ferro, vitamina B12 ou vitamina D” – pode ser recomendada a toma de suplementos.
Em contexto de “doença moderada a grave ou quando outros tratamentos não funcionam”, pode recorrer-se a “medicamentos biológicos, ou pequenas moléculas (terapêutica avançada), que atuam sobre moléculas específicas da inflamação”, explica a médica.
Em último caso, pode ser necessário fazer cirurgia, nomeadamente “quando há complicações ou quando a doença não responde ao tratamento”.
Na colite ulcerosa, “implica remover o cólon e o reto na sua totalidade” e, “na doença de Crohn, a cirurgia pode tratar complicações, mas a doença pode recidivar”.
Embora não seja considerado a causa principal da DII, “o estilo de vida pode ter impacto na gestão da doença”.
Recomenda-se, sobretudo, uma alimentação “equilibrada, variada e suficiente em calorias, proteínas, vitaminas e minerais”, bem como gestão do stress, “exercício físico adaptado, sono regular, psicoterapia e técnicas de relaxamento”.
Quais as complicações da DII?
Existem várias complicações associadas à Doença Inflamatória Intestinal (ver aqui, aqui e aqui). “Podem incluir anemia, hemorragia, estreitamentos do intestino, obstrução, fístulas, abcessos, maior risco de cancro colorretal em alguns casos e manifestações fora do intestino, como problemas articulares, oculares, cutâneos ou hepáticos”, aponta Joana Torres.
Apesar disso, salienta, “com diagnóstico e tratamento adequados, muitas pessoas conseguem manter a doença controlada e ter boa qualidade de vida”.
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