PUB

Do ómega 3 à creatina. Há alimentos e suplementos que protegem o cérebro da doença de Alzheimer?

23 Set 2026 - 08:15

Do ómega 3 à creatina. Há alimentos e suplementos que protegem o cérebro da doença de Alzheimer?

Ómega 3, creatina, chá verde e Ginkgo biloba são alguns dos alimentos e suplementos apontados como possíveis aliados da saúde cerebral. Mas será que o que comemos ou tomamos pode realmente prevenir a doença de Alzheimer? Qual o papel da alimentação na prevenção da demência?

PUB

Em declarações ao Viral, Bárbara Pinto Martins, neurologista na Unidade Local de Saúde (ULS) Médio Ave e membro da Unidade da Memória do Hospital CUF Porto, explica o que diz a evidência científica sobre a relação entre alimentação e risco de doença de Alzheimer.

Não há alimentos ou suplementos que, por si só, previnam a doença de Alzheimer

Alimentos

Bárbara Pinto Martins começa por explicar que “dietas ricas em alimentos de origem vegetal e gorduras insaturadas, como a dieta mediterrânica, têm sido associadas a uma melhor saúde cognitiva”. Entre os alimentos presentes neste padrão alimentar encontram-se: hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos oleaginosos, azeite e peixe.

Apesar de haver alimentos e padrões alimentares que favorecem a saúde do cérebro, não existe nenhum alimento ou dieta que, por si só, previna a doença de Alzheimer ou qualquer outro tipo de demência (ver também aqui).

Chás

O consumo de chá, “nomeadamente chá verde ou preto, tem sido associado, em estudos observacionais, a um menor risco de declínio cognitivo e demência” (ver aqui, aqui e aqui). 

No entanto, “a certeza desta evidência é baixa e estes estudos não permitem demonstrar que seja o chá, por si só, a prevenir a doença”, explica Bárbara Pinto Martins.

Ómega 3

Apesar de alguns estudos observacionais “associarem um maior consumo de peixe ou níveis mais elevados de ómega 3 a uma melhor saúde cognitiva, os ensaios clínicos com suplementos não demonstraram de forma consistente que estes previnam o declínio cognitivo ou a demência”, aponta a médica. 

PUB

Por esse motivo, até à data, “não existe evidência suficiente para recomendar suplementos de ómega 3 especificamente com o objetivo de prevenir a doença de Alzheimer”.

Vitaminas do complexo B

A vitamina B12 e o ácido fólico são particularmente importantes quando existe uma deficiência documentada, “uma vez que estas carências podem causar ou contribuir para alterações cognitivas”, adianta Bárbara Pinto Martins.

Nestas situações, “a suplementação está indicada para corrigir o défice”, mas, em pessoas com níveis adequados destas vitaminas, “não existe evidência consistente de que a suplementação previna o declínio cognitivo ou a doença de Alzheimer”.

Vitamina E

Embora alguns ensaios “em pessoas com doença de Alzheimer já estabelecida tenham encontrado menor perda de capacidade funcional com a suplementação de vitamina E, esses resultados não demonstram prevenção nem justificam a utilização por rotina”, refere.

Neste caso, deve-se ter especial atenção na toma, pois “doses elevadas podem aumentar o risco de hemorragia” (ver aqui).

Curcumina

“Alguns estudos pequenos sugerem possíveis benefícios da curcumina, um dos principais componentes da curcuma, em determinados aspetos da memória e da cognição”, mas não existe evidência de que previna a doença de Alzheimer”, explica Bárbara Pinto Martins. 

Creatina

A creatina é conhecida sobretudo “pelos seus benefícios na função muscular e tem sido também estudada pelos seus possíveis efeitos na cognição”, esclarece a médica. Apesar disso, “a evidência permanece limitada e os resultados não são uniformes”. 

Assim – e tal como Viral já tinha esclarecido neste artigo –, “não está demonstrado que a creatina previna a doença de Alzheimer ou outras formas de demência, nem existe evidência suficiente para recomendar a sua utilização por rotina no tratamento do défice cognitivo ou da demência”.

PUB

Ginkgo biloba

O Ginkgo biloba é um dos suplementos mais estudados para a memória e a cognição. “Embora alguns estudos tenham sugerido possíveis benefícios sintomáticos de determinados extratos em pessoas que já têm demência, não existe evidência de que previna a doença”, sublinha.

É importante referir que o Ginkgo biloba “pode interferir com alguns medicamentos e existe preocupação com um possível aumento do risco de hemorragia, particularmente em pessoas medicadas com anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários” (ver também aqui).

Qual o papel da alimentação na prevenção da doença de Alzheimer?

De acordo com um artigo recente publicado na revista The Lancet e com as novas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a redução do risco de declínio cognitivo e demência, “até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados” através da intervenção em 14 fatores de risco modificáveis.

Esses fatores são “baixa escolaridade desde a infância, sedentarismo, perda auditiva, colesterol LDL (‘colesterol mau’) elevado, hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, depressão, história de traumatismo cranioencefálico, isolamento social, poluição atmosférica e perda visual não tratada”, adianta Bárbara Pinto Martins. 

A alimentação não surge, por si só, nesta lista como um fator de risco independente. Contudo, é importante salientar que “uma alimentação equilibrada, ao contribuir para o controlo de alguns destes fatores, nomeadamente da hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado e obesidade, pode contribuir para um envelhecimento cerebral mais saudável”, sublinha a médica.

Entre os padrões alimentares mais estudados encontra-se a dieta mediterrânica (ver aqui e aqui). Segundo a neurologista, “vários estudos associam uma maior adesão a este padrão alimentar a uma melhor saúde cognitiva, embora a evidência seja menos consistente quanto à redução do risco de desenvolver demência”. 

PUB

Assim, os estudos disponíveis não permitem afirmar que “seguir uma dieta mediterrânica, isoladamente, ‘previne a doença de Alzheimer’”, sublinha. Isto é, “não existe uma ‘dieta anti-demência’ ou ‘anti-Alzheimer’”. 

A prevenção da demência “deve combinar uma alimentação saudável e equilibrada com atividade física, controlo dos fatores de risco vasculares, ausência de tabagismo, moderação no consumo de álcool e intervenção sobre os restantes fatores de risco modificáveis ao longo da vida”.

Em relação à toma de suplementos, “a Direção-Geral da Saúde não recomenda a utilização de vitaminas ou extratos de plantas como tratamento específico do declínio cognitivo ou da demência”, refere Bárbara Pinto Martins (ver também aqui).

PUB

Também não existe evidência suficiente “para recomendar suplementos alimentares por rotina com o objetivo de prevenir a doença de Alzheimer”.

Num texto publicado no site da OMS, sublinha-se que as diretrizes não recomendam – como intervenção para reduzir o risco de declínio cognitivo e/ou de demência – “a suplementação com vitaminas B e E, ácidos gordos polinsaturados ómega 3 e multivitaminas/minerais na ausência de uma deficiência diagnosticada”.

Assim, explica Bárbara Pinto Martins, “a suplementação deve responder a uma necessidade identificada: deficiência, risco elevado de deficiência, ingestão insuficiente, problemas de absorção ou outra indicação clínica”. 

Quando identificadas, “estas carências devem ser corrigidas, pois podem causar ou agravar alterações cognitivas”. Contudo, reforça, “corrigir uma deficiência nutricional não equivale a prevenir a doença de Alzheimer”.

Categorias:

Neurologia

23 Set 2026 - 08:15

Partilhar:

PUB