Dieta cetogénica para tratar epilepsia: Onde acaba a ciência e começa a especulação?
No TikTok, defende-se que a dieta cetogénica ajuda no tratamento da epilepsia. A autora de um dos vídeos alega que “o nosso cérebro normalmente usa glicose como forma de energia”. Essa glicose vem dos hidratos de carbono. Para algumas pessoas com epilepsia essa fonte de energia acaba por ser “elétrica demais para o cérebro” e é aí que, segundo ela, entra a dieta cetogénica.
Este regime alimentar, refere-se no vídeo, “corta quase todos os carboidratos e o corpo entra em cetose”, ou seja, “começa a usar a gordura como fonte de energia”. Isso, sugere a autora, “ajuda a manter a atividade elétrica no cérebro mais estável”, reduzindo a probabilidade de ter uma crise. Será mesmo assim? A dieta cetogénica ajuda a tratar a epilepsia?
O que é a dieta cetogénica?
Em declarações ao Viral, Francisca Sá, neurologista e membro da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), começa por explicar que “a dieta cetogénica consiste num plano dietético específico, com muito baixo teor de hidratos de carbono, moderado em proteína e elevado em gorduras com o objetivo de levar o organismo a um estado metabólico de cetose”.
Tal como se esclarece num texto da Liga Portuguesa Contra a Epilepsia (LPCE), “a palavra ‘cetogénica’ significa ‘produtora de cetonas’” (ou corpos cetónicos), que são substâncias “formadas quando o organismo utiliza a gordura como fonte de energia, imitando uma situação de jejum prolongado” (cetose).
Isto acontece porque, “quando a glicose é insuficiente, o fígado converte gordura em corpos cetónicos, que passam a ser a principal fonte de energia do organismo”, sublinha Francisca Sá.
A dieta cetogénica ajuda no tratamento da epilepsia?
Sim, em casos específicos, a dieta cetogénica pode ajudar no tratamento da epilepsia (ver aqui, aqui, aqui e aqui).
Apesar de a alimentação não ser “o fator mais relevante” em contexto da doença, “pode influenciar o controlo da epilepsia”, adianta Francisca Sá.
Por exemplo, “o consumo de álcool aumenta o risco de crises por reduzir os mecanismos inibitórios da atividade neuronal e pode também interferir com os fármacos anti-crises epiléticas”.
Além disso, “períodos de jejum prolongado”, “picos de glicemia” e “alguns défices vitamínicos” podem “facilitar a ocorrência de crises em alguns doentes”, acrescenta.
Em relação à dieta cetogénica no tratamento da epilepsia, a evidência científica “é bastante sólida, sobretudo na população pediátrica e para algumas síndromes específicas”.
Em estudos randomizados, “cerca de 30 a 60% dos doentes obtiveram uma redução de crises maior ou igual a 50%”. Cerca de 10 a 20% das pessoas “podem ficar livres de crises enquanto mantêm a dieta”.
A dieta cetogénica parece atuar de forma positiva no controlo das crises por diversos mecanismos. Em primeiro lugar, parte dos potenciais benefícios virão da cetose. “Ao fornecer uma grande quantidade de lípidos [gorduras] obriga o organismo a alterar o seu metabolismo, o que leva à produção de cetonas”, substâncias com “propriedades anticonvulsivantes”, explica-se no texto da LPCE.
Também modifica os neurotransmissores predominantes, contribui para a estabilização da membrana neuronal, “melhora a função mitocondrial e até parece também ter efeitos na inflamação e na microbiota intestinal”, esclarece Francisca Sá.
Apesar disso, esta dieta é muito restritiva, pelo que só deve ser utilizada em casos específicos, quando os benefícios se sobrepõem aos riscos.
A dieta cetogénica é recomendada, sobretudo, “no contexto de epilepsias farmacorresistentes, isto é, em que o doente mantém crises apesar de ter testado pelo menos dois medicamentos anti-crises epiléticas adequados para a sua epilepsia e em doses adequadas”.
Por norma, esta dieta é mais fácil de implementar nas crianças. Costuma ser recomendada em doentes com tipos raros de epilepsia, como a Síndrome de Dravet ou Síndrome de Lennox-Gastaut.
“Numa doença específica, a encefalopatia por défice da GLUT-1, que também inclui crises epiléticas nas suas manifestações clinicas”, a dieta cetogénica “é o tratamento de eleição” (ver também aqui).
Isto porque nesta doença genética “o transportador responsável por levar glicose para o cérebro está defeituoso condicionando atraso intelectual, epilepsia e outras manifestações neurológicas”. Nestes casos, “a dieta cetogénica permite uma fonte de energia alternativa para o cérebro, contornando parcialmente o defeito no transporte de glicose”, explica a médica.
Existem contraindicações?
Sim. Segundo Francisca Sá, a dieta cetogénica “não pode ser usada em pessoas com doenças metabólicas que não permitem a transformação das gorduras e da sua utilização como fonte de energia”.
Este tipo de alimentação também não é adequado para pessoas com: “doenças hepáticas ou pancreáticas significativas”; “hiperlipidemia grave não controlada”; “nefrolitíase [pedras nos rins] recorrente ou doença renal relevante”; e “distúrbios alimentares” (como anorexia ou bulimia).
Como é feito o acompanhamento dos doentes?
“O acompanhamento é sempre multidisciplinar” e deve ser “realizado em centros especializados de referência”, defende Francisca Sá.
Antes de iniciar a dieta deve haver sempre uma avaliação “da indicação clínica, avaliação de parâmetros físicos nutricionais (peso, índice da massa corporal) e análises laboratoriais (hemograma, função hepática e renal, perfil lipídico, glicemia, eletrólitos, cálcio, magnésio, fósforo, vitamina D)”, adianta a neurologista.
Além disso, na perspetiva da especialista, “deve ser sempre avaliada a capacidade da família e do doente para cumprir uma dieta extremamente exigente”.
No início da dieta, pode ser recomendado “o internamento de curta duração (1 a 3 dias), para monitorizar glicemias e cetose e avaliar as dificuldades ou efeitos secundários como os vómitos”.
Depois desta fase, “o seguimento faz-se em ambulatório, com consultas regulares, com periodicidade mensal” (e depois trimestral), “com controlo de crises (diário de crises), peso, crescimento (em crianças), e avaliação da tolerância à dieta”.
Ao longo do acompanhamento, “são realizadas análises periódicas do perfil lipídico, função hepática/renal, eletrólitos e vitaminas”, sublinha a médica.
Os efeitos secundários mais frequentes numa fase inicial são “sintomas de fadiga, cefaleias, irritabilidade, náuseas, vómitos, dor abdominal, obstipação, e episódios de hipoglicemia”. A maioria destes efeitos, contudo, “pode ser colmatada com ajustes e suplementação na dieta, desde que haja a monitorização adequada”.
Com a manutenção da dieta “é importante vigiar o risco de dislipidemia (aumento do colesterol total e LDL), de pancreatite (apesar de raro), de cálculos renais, de défice de vitaminas e minerais (se não forem usados suplementos adequados) e desnutrição (se a dieta for mal calibrada energeticamente)”, explica.
A longo prazo, também é essencial “avaliar a densidade mineral óssea”, acrescenta Francisca Sá.
A duração da dieta cetogénica em contexto de epilepsia “depende da resposta clínica”, adianta a neurologista. “Se ao fim de 3 a 6 meses não houver benefício no controlo de crises, a dieta é descontinuada”.
Caso haja uma boa resposta, “a dieta é habitualmente mantida durante 2 anos” – quando é comum verificar-se uma redução significativa das crises (ver aqui) -, “a menos que surja outra alternativa mais definitiva, como uma proposta de cirurgia (em casos específicos)”, refere.
“Se houver uma boa resposta, mas a presença de efeitos secundários relevantes, podem ser consideradas dietas adaptadas”, conclui.