Viver com diabetes tipo 1: Laura foi diagnosticada aos 6 anos com a doença que “não é uma sentença”
Andava apática, com muita sede e tinha perdido peso “muito rapidamente”. Laura Barroso tinha seis anos quando, inesperadamente, foi internada, “quase em coma diabético”. Cresceu com diabetes tipo 1 e, 25 anos depois do diagnóstico, aprendeu a lidar com a doença e não deixa que lhe condicione a vida. Os especialistas explicam que é possível ter uma vida “normal” com diabetes, que encaram como uma “epidemia silenciosa”, mas alertam que não se pode “baixar a guarda” no controlo.
Laura lembra-se da noite em que, em criança, foi diagnosticada com diabetes tipo 1. Colocaram-lhe um catéter e “doeu muito”. “Disseram-me que algo no meu corpo tinha deixado de funcionar e que tinha de usar as ‘canetinhas’ [as injeções de insulina] para sempre”, conta ao Viral.
As pessoas com diabetes tipo 1 – menos frequente do que a tipo 2 – necessitam sempre de tratamento farmacológico com injeções de insulina, informa a Ordem dos Farmacêuticos.
Na diabetes tipo 1, o problema é a falta de produção de insulina pelo pâncreas, explica Francisco Sousa Santos, médico endocrinologista no Hospital CUF Descobertas e autor da página Hormonas em Bom Português.
“A insulina é como a chave para abrir a porta das células para entrar a glicose. Se não há insulina, a porta não abre e a glicose acumula-se em circulação”, exemplifica o médico.
Neste caso, as células beta do pâncreas produzem “pouca ou nenhuma” insulina, a hormona que permite que a glicose entre nas células do corpo, é explicado no Relatório Anual do Observatório Nacional de Diabetes.
Já nos outros tipos de diabetes – como a diabetes tipo 2 e a gestacional – o principal problema é haver uma resistência à ação da insulina. Ou seja, “existem chaves para abrir a porta para a glicose, mas a fechadura está enferrujada ou perra e por isso há dificuldade em abrir a porta”.
Laura fazia “algum desporto”, comia “bem” e não tinha casos na família. A diabetes tipo 1 apareceu “do nada” quando era criança, conta. Este tipo da doença autoimune aparece “com mais frequência” durante a infância, diz-se no texto da Ordem dos Farmacêuticos, mas pode ser diagnosticada em qualquer idade.
De acordo com o autor da página “Hormonas em Bom Português”, ainda não há forma de prevenir a diabetes tipo 1. Apesar de ainda não serem conhecidas “causas concretas”, acredita-se que “envolvam uma combinação de fatores genéticos e ambientais”, indica a Direção-Geral da Saúde.
A Sociedade Portuguesa Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM) aponta que, ao contrário da diabetes tipo 2, a do tipo 1 “não é desencadeada por comportamentos ou tipo de alimentação, e, como tal, não é possível preveni-la”.
“O sistema de defesa do corpo de alguns indivíduos reconhece erradamente as células produtoras de insulina do pâncreas como suas inimigas e leva à sua destruição (…). Isto resulta numa incapacidade de produzir insulina e consequente necessidade de tratamento com insulina para o resto da vida”, acrescenta o mesmo organismo.
Na escola, os colegas foram “cinco estrelas” com Laura. Foi “tudo muito natural”. Viam-na comer “maçã e tostas a meio da manhã”, ajudavam-na a “picar o dedo e a não saltar refeições”.
“Uma vez senti-me mal e deixaram-me passar à frente na cantina para comer”, lembra.
Francisco Sousa Santos esclarece que, “quando se consegue controlar bem” os níveis de glicose, sintomas como muita sede, urinar muito, cansaço, perda de peso involuntária, aumento da fome ou visão turva “desaparecem e a pessoa pode levar uma vida normal, com adaptações do estilo de vida e, em alguns casos, medicação”.
Ao Viral, Laura confessa que a infância com diabetes tipo 1 foi calma, mas a revolta chegou durante a adolescência. “Que mal fiz para ter isto para sempre?”, pensava. Com o tempo, a revolta passou e foi ganhando consciência de que “tinha de ser”.
Hoje, 25 anos depois de ter sido diagnosticada, olha para a diabetes como uma doença crónica que não é uma “sentença”.
Tem atenção ao que come. Afinal, já sabe o que “resulta melhor” no seu caso. Consome poucos hidratos de carbono e poucos alimentos com gordura.
Mas não se priva de comer pipocas quando vai ao cinema. Por isso, antes do filme, ajusta a insulina consoante o que vai comer. “Se não o fizer, tenho um pico elevadíssimo”, exemplifica.
Por vezes, ainda tem de picar o dedo, mas o sensor no braço foi uma “mudança de vida enorme”. A ‘chapinha branca’ mede-lhe o açúcar no sangue há sete anos.
Os sensores são “aparelhos pequenos, que se aplicam na parte posterior do braço” e medem os valores de glicose de forma contínua. Estes sistemas substituem a glicemia capilar, permitindo uma vigilância “mais cómoda e abrangente da concentração de glicose”, explica a SPEDM.
Apesar de poder levar uma vida “completamente normal”, um diabético tem de tomar várias decisões diariamente. Estima-se que uma pessoa com diabetes tipo 1 “tenha de tomar 180 a 300 decisões relacionadas com a doença todos os dias”, indica o médico consultado pelo Viral.
Por exemplo, “o que, quanto e quando comer, que dose de medicação tomar, se é seguro fazer exercício ou não, se deve comer mais antes de se deitar, se é seguro começar a conduzir ou não”.
O endocrinologista diz que estas decisões associadas “ao medo de ter complicações da doença podem ser um fardo psicológico e gerar stress e ansiedade”, uma ideia que é corroborada pela diabética.
“Não deixa de ser cansativo receber um alarme no telemóvel constantemente, mas vivo um dia de cada vez. Não posso pensar como estão os meus rins daqui a 30 anos, o que posso pensar é que, neste momento, estão bons”, afirma.
No início do século, Laura foi descobrindo tudo com os pais. Não havia a informação que há hoje na internet nem “rede de apoio”, como grupos e associações, nas redes sociais para tirar dúvidas.
A jovem é, atualmente, acompanhada na Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), que tem como uma das missões apoiar pessoas com diabetes, familiares e cuidadores. O protocolo exige que um doente seja seguido de três em três meses quando a glicemia “não está bem” e de seis em seis “quando está boa”.
“Uma pessoa com diabetes pode viver perfeitamente normal, com um bom controlo da glicemia. A medicina evoluiu imenso”, aponta.
Segundo a SPEDM, há aplicações em smartphones para ajudar no cálculo das doses de insulina e na contagem dos hidratos de carbono, há “muita” informação disponível para consulta na internet e há “vários grupos online de pessoas com diabetes tipo 1, onde é possível tirar dúvidas e partilhar experiências”.
Estes avanços tecnológicos têm permitido às pessoas com diabetes tipo 1 “um estilo de vida mais flexível e com boa qualidade de vida”.
Mas o que é a diabetes?
A diabetes é “uma das doenças crónicas mais prevalentes” e com um crescimento mais rápido em todo o mundo. Segundo o Relatório Anual do Observatório Nacional de Diabetes, em 2021, havia cerca de 1,1 milhões de portugueses entre os 20 e os 79 anos com diabetes.
Estima-se que existam 537 milhões de pessoas adultas com diabetes em todo o mundo. Este número deverá aumentar para 643 milhões até 2030, segundo o mesmo relatório.
“É fundamental termos consciência desta epidemia silenciosa e do que precisamos fazer para prevenir esta doença”, afirma Francisco Sousa Santos.
De acordo com o documento do Observatório Nacional de Diabetes, a prevalência “continua a aumentar”, o que significa, de acordo com os autores, que não se pode “baixar a guarda na luta sem tréguas contra a epidemia de diabetes”.
O endocrinologista explica, em declarações ao Viral, que, apesar de muitas vezes se falar sobre a Diabetes Mellitus – o nome científico da diabetes – como uma única doença, na realidade, “ela é um grupo de diferentes doenças”.
O que têm em comum é que todas elas são “situações em que um tipo de ‘açúcar’ (a glicose) se acumula no sangue em vez de entrar para as células do corpo e, assim, aumenta o risco de vários problemas de saúde, principalmente cardiovasculares.
O que diferencia os vários tipos de diabetes é o mecanismo que provoca esse aumento da glicose no sangue.
O tipo de diabetes mais comum é o diabetes tipo 2, mas existem outros tipos como a diabetes tipo 1 ou a diabetes gestacional.
A doença aparece em qualquer idade, mas, consoante o tipo de diabetes, pode ser mais frequente surgir em idades mais jovens ou avançadas, acrescenta Francisco Sousa Santos.
Por exemplo, a diabetes tipo 1 surge habitualmente antes dos 60. Por outro lado, a idade em que surge é “em grande parte determinada por fatores de risco”, como o excesso de peso no caso da diabetes tipo 2.
Segundo a Direção-Geral da Saúde, o diagnóstico é feito em análises laboratoriais ao sangue, em que são analisados os níveis de glicose. É diagnosticada quando os níveis da glicose estão iguais ou superiores a 126 mg/dl no exame da glicemia em jejum, iguais ou superiores a 200 mg/dl na prova de tolerância à glicose oral ou iguais ou superiores a 6,5% no exame de hemoglobina glicada, é explicado no mesmo artigo.
A diabetes é uma doença crónica. Como tal, de acordo com Sousa Santos, “não é correto” dizermos que a diabetes (seja tipo 1 ou tipo 2) tem uma “cura propriamente dita”. Contudo, pode entrar em “remissão” ou ser controlada, com mudança de hábitos e medicação de vários tipos.
“Para percebermos porque a diabetes nunca é propriamente curada pode ajudar pensar nela como uma planta. Quando a tratamos é como se tivéssemos a podar ou a cortar a parte visível (acima do solo) da planta. No entanto, nunca chegamos a conseguir verdadeiramente arrancar todas as raízes – os fatores de risco ou a predisposição genética, por exemplo – e por isso a planta pode sempre voltar a crescer”, explica.
O Dia Mundial da Diabetes, que se celebra a 14 de novembro e coincide com o aniversário de Frederick Banting, um dos responsáveis pela descoberta da insulina, “serve para recordar e celebrar esta descoberta que salvou e continua a salvar milhões de vidas”.
Além disso, serve também para destacar a importância da prevenção da doença, como se lhe estivéssemos a dizer: ‘Vá ao seu médico e faça o rastreio”.
Por outro lado, ressalva Francisco Sousa Santos, importa apelar “à comunidade global para que todos tenham acesso ao tratamento”.
“Infelizmente, hoje em dia ainda milhões de pessoas, especialmente nos países mais pobres, não têm acesso à educação quanto à doença ou a insulina ou outro tipo de medicação. Acesso a cuidados de saúde para tratamento da diabetes não deve ser um luxo, mas sim um direito”, destaca o autor da página Hormonas em Bom Português.
Quais as complicações da doença?
Uma diabetes mal controlada pode, a curto prazo, colocar a pessoa “em risco de coma ou em estado em que o sangue fica muito ácido – cetoacidose diabética”. Qualquer umas das situações pode representar “situações muito perigosas e de risco de vida”, informa o médico da CUF Descobertas.
A longo prazo, as principais complicações da diabetes têm que ver com impacto negativo nos vasos sanguíneos (artérias e veias), principalmente se a doença não for bem controlada.
Consequentemente, como há vasos sanguíneos em todo o corpo, isto pode afetar “vários órgãos e sistemas”, como os olhos, os rins, os nervos, as pernas, os braços e o cérebro, refere Sousa Santos.
De acordo com o médico, nos olhos, pode causar cataratas e danificar os pequenos vasos da retina, sendo uma das principais causas de cegueira nos adultos. Nos rins, pode danificar os filtros renais, levando a perda de proteínas na urina e progressivamente menos capacidade para produzir urina e eliminar os tóxicos do corpo (nefropatia diabética).
A diabetes pode também afetar a sensibilidade, principalmente nos pés, causando dores, ardor, formigueiros e perda de sensibilidade (neuropatia diabética).
“A lesão dos nervos nos pés pode levar à diminuição da sensação de dor, com risco de feridas de difícil cicatrização”, acrescenta a SPEDM.
Acelera a “aterosclerose” (ou seja, a deposição de gordura nas artérias), aumentando o risco de enfartes cardíacos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e entupimento das artérias das pernas (o que pode levar a falta de circulação nos pés), descreve o endocrinologista.
Segundo o texto informativo da Ordem dos Farmacêuticos, além das complicações físicas, a diabetes pode também estar associada a diversas complicações do foro psicológico como depressão, ansiedade e distúrbios alimentares.
É possível prevenir a diabetes?
Na diabetes mais comum – a do tipo 2 – hábitos de vida saudáveis e medidas para a perda de peso em pessoas com excesso de peso são “medidas eficazes” para prevenir a doença.
Por norma, diz Francisco Sousa Santos, a intervenção assenta num “regime alimentar diversificado, sem excessos ou alimentos ultraprocessados e na prática de atividade física regular ao longo da semana, além de uma boa higiene de sono”.
Em alguns casos, principalmente se tiver obesidade ou pré-diabetes, também podem ser considerados alguns medicamentos, aponta o especialista em endocrinologia.
Isto significa que hábitos alimentares pouco saudáveis, com alimentos ultraprocessados e excesso de calorias são “alguns dos principais fatores de risco” para o desenvolvimento de obesidade e resistência à insulina, “que são o que em muitos casos leva ao aparecimento da diabetes tipo 2”.
Pelo contrário, na diabetes tipo 1 “não há forma de prevenir”.
Já em relação ao tratamento da doença, a comida é o que “controla diariamente a glicémia”, explica o endocrinologista consultado pelo Viral.
“Muito do que comemos eventualmente transforma-se em glicose no sangue e, por isso, logicamente que o que é ingerido vai ser um grande determinante dos níveis de glicose”.
É por isso que um plano alimentar é o “tratamento de primeira linha” para pessoas com diabetes tipo 2 e sem ele “provavelmente nenhum medicamento, por melhor que seja, conseguirá ter o efeito desejado e suficiente para controlar bem a doença”.
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