VITAL
Dia Mundial do Cancro do Pulmão. Número de mortes é o mais alto dos últimos 20 anos
Todos os dias, 14 pessoas em Portugal são diagnosticadas com cancro do pulmão, brônquios e traqueia. São os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos a 2023. O número de mortes atingiu o máximo dos últimos 20 anos e 36% aconteceram na região Norte. Não há uma explicação geográfica para a questão, mas Daniela Madama, pneumologista e membro da Comissão Científica do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão (GECP), diz que provavelmente existe uma relação com o número de fumadores, “que na região Norte ainda é um bocado superior”.
Esta sexta-feira, 1 de agosto, assinala-se o Dia Mundial do Cancro do Pulmão. Em conversa com o Viral, a pneumologista do GECP faz um retrato da doença em Portugal e fala sobre a importância do programa de rastreio piloto que deve entrar em vigor entre o final deste ano e o início de 2026.
Os rastreios serão feitos no Porto, em parceria com a Unidade Local de Saúde (ULS) de Santo António, e em Cascais, em pareceria com a Câmara Municipal de Cascais, segundo avançaram fontes oficiais das duas entidades à Lusa.
“Vão permitir diagnosticar mais cedo, numa fase precoce em que é possível os doentes serem tratados”, afirmou a pneumologista.
Cancro do pulmão em números
12 mortes por dia
“Mesmo com todas as campanhas de sensibilização, tanto o número de mortes por cancro do pulmão como o número de diagnósticos tem aumentado nos últimos anos”, nota Daniela Madama. Os dados do INE mostram que, nesse ano, diariamente, morreram 12 pessoas devido a cancro do pulmão, brônquios e traqueia — o número mais elevado dos últimos 20 anos.
O número de óbitos de mulheres duplicou desde 2003, passando de 576 para 1160. A pneumologista associa esse número ao “aumento do tabagismo entre as mulheres”, mas para os números gerais há outras justificações. As “novas formas de tabaco”, como os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido, podem ser motivadoras deste números, já que ainda não há dados concretos sobre o risco de cancro que aportam.
“Para além disso, o cancro do pulmão é diagnosticado em estadios muito avançados”, porque normalmente só provoca sintomas quando “há evasão de estruturas adjacentes” (ou seja, metástases). Antes desse momento, os sintomas registados — como tosse ou falta de ar — não parecem muito preocupantes para os doentes, que na maioria são fumadores que experienciam essas manifestações da doença mesmo antes de a terem.
Daniela Madama nota ainda que se tem verificado um aumento de diagnósticos de cancro do pulmão entre não-fumadores. Para esse fenómeno não há uma explicação comprovada, “não está totalmente esclarecido”, mas a pneumologista aponta para o tabagismo passivo como uma das possíveis causas. “Não temos nenhum fator genético identificado, sabemos que os doentes são portadores de algumas mutações, mas não há nenhum caráter hereditário”, afirma.
Tabaco causa entre 80 a 85% dos casos de cancro do pulmão
O tabaco continua a ser o principal fator de risco para o cancro do pulmão, e está associado a 80 a 85% dos diagnósticos. Para Daniela Madama é preciso haver mais consultas de cessação tabágica: “Os programas de cessação tabágica são difíceis de implementar”, “o número de consultas que existem pelo país não são suficientes para a quantidade de fumadores”. E o facto de “nenhuma da medicação disponível ser comparticipada (a 100%) acaba por levar muitos fumadores a não seguir ajuda especializada porque é muito dispendioso”.
“As novas formas de tabagismo são muito apelativas, principalmente para os mais jovens”, diz a pneumologista, sublinhado que “não se sabe os efeitos que têm a longo prazo”. O que é certo é que o tabaco continua lá, mas “é chamativo para os mais novos porque existem vários sabores, pelas formas de apresentação e por não deixar aquele cheiro característico”.
“Não há aquele estigma do indivíduo fumador, com a roupa a cheirar a tabaco, os dentes amarelados e o cheiro nos dedos. Isso acaba por ser um problema para a cessação tabágica”, acrescenta.
Mortalidade prematura diminuiu 10% em 20 anos
A mortalidade prematura (de pessoas com menos de 65 anos) associada ao cancro do pulmão passou de 37,3%, em 2003, para 27,7%, em 2023. “O diagnóstico pode estar a ser feito de uma forma cada vez mais precoce” devido a uma maior “conscientização e sensibilização de todos os médicos, como os médicos de família”. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais eficaz será o tratamento, explica a médica.
“A alteração da estratégia de tratamento de doentes com cancro do pulmão” pode ser outro dos fatores que explicam esta diminuição. “Neste momento, aquilo que fazemos é uma terapêutica mais personalizável e dirigida a cada doente”, diz Daniela Madama.
Quando há um diagnóstico, os médicos procuram certos marcadores tumorais para perceberem se os doentes são portadores de alguma mutação conhecida. Se sim, há casos em que é possível prescrever uma terapia mais direcionada, “mais eficaz e com menos efeitos secundários, que permitem que os doentes tenham uma melhor qualidade de vida”.
Isso é feito através de terapias alvo ou imunoterapia e permite que os doentes “façam uma vida quase completamente normal”. E apesar de isto não ser possível para todos os casos, traz um aumento da esperança média de vida para vários doentes com mutações genéticas já identificadas e para as quais existe tratamento específico. “Permitem que o doente, mesmo sendo diagnosticado num estadio avançado, possa passar para um estado de cronicidade da doença”, que permanece lá, mas de forma controlada.
Alguns dos medicamentos utilizados nestas terapias são “muito dispendiosos” e implicam “pedidos de autorização hospitalar, mas normalmente com a justificação e com a aplicação a estas mutações não há qualquer tipo de entrave a estas terapêuticas”.
Programa piloto de rastreio deve arrancar este ano
“Os estudos internacionais mostram que os rastreios para cancro do pulmão permitem uma diminuição da mortalidade na ordem dos 20 a 25%”, destaca a médica. No final de 2022, o então ministro da Saúde Manuel Pizarro anunciou que esse rastreio passaria a acontecer em Portugal, e em maio a Direção-Geral da Saúde (DGS) afirmou que os primeiros projetos piloto deveriam arrancar ainda este ano.
Os programas, no Porto e em Cascais, devem arrancar ao início de 2026 e abrangem pessoas entre os 55 e os 74 anos, que sejam fumadoras ou tenham deixado de fumar há menos de 10 anos e que tenham fumado, em média, um maço de tabaco por dia, durante pelo menos 20 anos.
Ainda não se sabe onde serão implementados estes projetos, diz Daniela Madama, mas sabe-se o perfil de pessoa que poderá ser testado: alguém entre os 50 e os 75 anos, que seja fumador ou tenha deixado de fumar há menos de 15 anos e que fume (ou tenha fumado) mais de 20 maços de tabaco por ano.
Serão feitas “tomografias computadorizadas (TAC) torácicas de baixa dose, ou seja, TACs em que o doente é submetido a uma dose de radiação mais baixa que as convencionais, e que permitem identificar suspeitas de malignidade”.
“Estes programas são extremamente importantes: Vão permitir diagnosticar mais cedo, numa fase precoce em que é possível os doentes serem operados, tratados, e não desenvolverem a doença metastizada que a maioria dos doentes desenvolve”, conclui a médica.
*artigo atualizado no dia 1 de agosto de 2025 às 11h41 com a localização dos rastreios piloto.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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