Dia Internacional da Mulher: 8 rostos que se destacaram na saúde
Houve quem desafiasse os padrões sociais de outros séculos ao tornar-se na primeira mulher a licenciar-se em Medicina. Outras optaram pela área farmacêutica, bioquímica ou física. Pelo caminho, fizeram descobertas importantes na área da saúde, desde a teoria da radioatividade à importância dos hábitos de higiene em contexto hospitalar.
Neste dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, eis oito rostos que deixaram uma marca na saúde, em várias partes do mundo.
Florence Nightingale, a “Dama da Lamparina”
1820 – 1910

Nascida em Itália em maio de 1820, recebeu o nome da cidade onde nasceu (Florença). Ainda criança, mudou-se com os pais para Reino Unido, país de origem da família, destacando-se enquanto enfermeira nos anos de governação da rainha Vitória.
Durante a Guerra da Crimeia, que se estendeu de 1853 a 1856, foi a principal responsável por tratar dos soldados feridos de dia, à luz do sol, ou de noite, munida de uma lanterna de papel, tendo daí surgido a alcunha de “Dama da Lamparina” ou “Dama da Lâmpada”.
Neste conflito, assumiu ainda as funções de chefe de enfermagem e, tornando-se professora de outras mulheres que o queriam ser, deu a esta profissão uma reputação que na altura não tinha.
Em 1860, fundou aquela que é considerada a primeira escola profissional de enfermagem do mundo, no antigo Hospital St. Thomas (atual King’s College), em Londres, e implementou hábitos de higiene, como a lavagem das mãos, em alguns dos hospitais onde trabalhou.
Considerada a “mãe da enfermagem”, partilhou todos os conhecimentos sobre saúde nos textos que escreveu.
Em reconhecimento do legado que deixou, o Dia Mundial da Enfermagem, celebrado a 12 de maio, é comemorado no dia do seu aniversário. O Juramento Nightingale, que é feito pelos estudantes de enfermagem de todo o mundo, e a Medalha Florence Nightingale, a mais alta distinção que um enfermeiro pode alcançar, são outras das homenagens que lhe foram prestadas.
Marie Curie e a radioatividade
1867 – 1934

Natural de Varsóvia, na Polónia, Marie Curie é, provavelmente, a cientista mais conhecida do mundo e mais destacada nos livros de ciências não só pela descoberta de dois elementos químicos – o polónio e o rádio -, mas também por se tornar na primeira mulher do mundo a receber o Prémio Nobel e a primeira a ser distinguida duas vezes com este galardão, em áreas distintas da ciência.
Em 1903, recebeu o Nobel da Física com Pierre Curie, o marido. Metade do prémio foi atribuído ao casal Curie e a outra metade ao físico Henri Becquerel. Tal como se explica na página do Prémio Nobel, enquanto Henri Becquerel descobriu a radioatividade espontânea, o casal Curie realizou investigações essenciais e forneceu provas sobre os raios que o físico havia descoberto.
Em 1911, Curie foi distinguida com o Nobel da Química pela descoberta do polónio e do rádio.
O trajeto de Marie Curie ficou igualmente marcado pela fundação do Instituto Curie, em Paris, e, durante a Primeira Guerra Mundial, por ter equipado os hospitais de campanha com unidades de radiografia móvel.
A exposição à radiação durante o desenvolvimento dos seus trabalhos provocou-lhe uma morte precoce aos 66 anos, vítima de uma anemia aplástica.
Gerty Cori, a primeira a receber o Nobel da Medicina
1896 – 1957

Nasceu na República Checa, numa família de bioquímicos, e foi, desde cedo, encorajada pela família a estudar, contrariando as regras e costumes da época que limitavam o percurso profissional das mulheres.
Começou por estudar em casa e, chegado o momento de ingressar no secundário, matriculou-se num liceu feminino. Aos 16 anos, incentivada pelo tio materno, que era pediatra, decidiu que queria ser médica e, em 1914, entrou na faculdade de medicina Karl-Ferdinands-Universitat, em Praga, feito incomum para as mulheres da época.
Terminado o doutoramento, mudou-se para a cidade austríaca de Viena com o marido, Carl Cori, e começou a trabalhar num hospital infantil, focando-se essencialmente em investigações para problemas de tireoide e, já nos Estados Unidos, sobre a absorção dos hidratos de carbono pelo metabolismo e estudo da diabetes.
Em 1947, fez história por se tornar na primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Medicina, galardão que dividiu com o marido, que cooperou na descoberta do Ciclo de Cori, que descreve como o ácido lático produzido pelos músculos durante o exercício é transportado para o fígado, onde é convertido em glicose.
Cesina Bermudes, a pioneira no parto sem dor em Portugal
1908 – 2001

Com a mãe aprendeu francês e, com o pai, que homens e mulheres deveriam ter os mesmos direitos. Aos dez anos, contou um sobrinho numa entrevista, decidiu que seria médica, inspirada na profissão do tio Álvaro de Lacerda Melo, que visitava pacientes pobres das aldeias portuguesas sem cobrar nada. E assim foi.
Aos 24 anos, tornou-se na primeira mulher a doutorar-se em Medicina em Portugal, na Faculdade de Medicina de Lisboa, e, terminada a especialização em obstetrícia, no ano de 1938, resolveu ir até Paris para conhecer os benefícios de um medicamento que, diziam os médicos, provocava contrações às grávidas, facilitado o nascimento dos bebés.
Depois, começou a administrar este fármaco às pacientes na Maternidade de Cascais e na Clínica Bensaúde (para mães solteiras), introduzindo o método do parto sem dor no país e acabando com a crença de que as mulheres deveriam sofrer para terem filhos.
As convicções políticas anti-salazaristas proibiram-na de lecionar Medicina na Faculdade de Lisboa e exercer a profissão em hospitais públicos.
Em 1945, integrou as listas do Movimento de Unidade Democrática (MUD), organização política contra a ditadura de Salazar, e chegou até a ser presa, em 1949, por integrar a Comissão Central do Movimento Nacional Democrático Feminino, associação feminista que valoriza o legado das mulheres.
Jane Cooke Wright e a investigação sobre o tratamento do cancro
1919 – 2013

Filha de uma professora e do primeiro médico afro-americano a trabalhar num hospital público de Nova Iorque, Jane Cooke Wright acabaria por seguir as pisadas do pai, em 1945, ao formar-se médica e destacar-se na área do cancro.
Jane Cooke Wright formou-se “com distinção” na Faculdade de Medicina de Nova Iorque, lê-se neste artigo disponível na Biblioteca Nacional de Medicina do “National Institute of Health” (NIH). Destacou-se pela investigação na área do cancro, tendo analisado uma vasta gama de agentes anti-cancerígenos e desenvolvido novas técnicas para a administração da quimioterapia.
Em 1960, por exemplo, liderou uma investigação em que se verificou que a “quimioterapia com metotrexato levou a regressões temporárias objetivas do tumor em 10 de 36 doentes com cancro da mama incurável e disseminado”.
Foi co-fundadora da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Era a única mulher entre os sete membros fundadores desta organização criada em 1964.
Em 1971, tornou-se na primeira mulher presidente da “New York Cancer Society”.
Adelaide Cabete, a analfabeta que se fez médica
1867 – 1935

Nascida em Elvas, contrariou o destino que teimava em empurrar as mulheres que nasciam em famílias humildes para longe dos estudos, em parte, por iniciativa do marido, um militante republicano, que a incentivou a estudar.
Aprendeu a ler e a escrever sozinha, mudou-se para Lisboa, foi a terceira mulher portuguesa a formar-se em Medicina e, anos depois, reivindicou a construção de uma maternidade pública no país — a Maternidade Alfredo da Costa.
Feminista, reivindicou o que atualmente é conhecido como licença de maternidade, defendendo o direito de as mulheres ficarem um mês em casa após o parto.
Está também nas páginas da História por ter sido a primeira e única mulher a votar, em Luanda, no plebiscito à nova Constituição Política da República Portuguesa, em 1933.
Odette Ferreira, investigadora destacada no estudo do HIV
1925 – 2018

Farmacêutica como o avô e investigadora por paixão, Odette Ferreira dedicou-se ao estudo do vírus responsável pela SIDA, doença que afeta o sistema imunitário dos doentes, descoberta nos anos 80.
Diagnosticou os primeiros casos de sida em Portugal, e, após o 25 de Abril, foi docente da Faculdade de Farmácia de Lisboa, bem como membro do Conselho Pedagógico e do Conselho Diretivo.
Em 1985, dois anos depois da identificação do primeiro caso de SIDA, recebe amostras de sangue doentes seropositivos da Guiné-Bissau com HIV e, com uma amostra do que era então desconhecido dentro da mala, viajou até Paris para estudar mais sobre este vírus no Instituto Pasteur, juntando-se à equipa luso-francesa que isolou o segundo tipo de vírus da sida (VIH-2), em 1986.
A investigação acontece numa altura em que ainda era professora na universidade e, recorda na sua biografia, nem sempre foi bem-recebida pelo diretor da instituição, que não queria que ali trabalhasse, temendo que pudesse infetar alguém.
Entre 1992 e 2000, foi coordenadora da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA, tendo sido responsável pela criação por projetos com impacto na prevenção e propagação da doença, incluindo a troca de seringas usadas por novas nas farmácias para reduzir o foco de contágio do HIV e de outras doenças transmissíveis, como as hepatites C e D, em toxicodependentes.
Em 2012, recebeu a Medalha de Ouro da Ordem dos Farmacêuticos, além de ter sido condecorada pelos governos francês e português.
Margareth Chan, o rosto da OMS
1947
Natural de Hong Kong, foi no centro da Europa que Margareth Chan se destacou na área da saúde, deixando para trás o sonho de ser professora.
Foi Diretora da Saúde da cidade de Hong Kong, tendo sido pioneira na criação de novos serviços para prevenir a disseminação de doenças transmissíveis, deu-se a conhecer nas mais variadas funções na Organização Mundial da Saúde (OMS).
Em 2003, foi nomeada Diretora do Departamento de Proteção do Meio Ambiente Humano da Organização Mundial da Saúde (OMS) e, dois anos depois, responsável de Vigilância e Resposta a Doenças Transmissíveis e pandemias, focando-se maioritariamente no controlo dos surtos de gripe das aves e de casos de síndrome respiratória aguda grave (SARS), epidemia que, sublinha esta publicação do Politico, matou 800 pessoas em todo o mundo.
Entre 2007 e 2017, foi Diretora da OMS, anos marcados por epidemias de gripe das aves, gripe suína e surtos de cólera e ébola. Ainda assim, foi, muitas vezes, portadora de boas notícias, incluindo a declaração do fim da pandemia de gripe A, no dia 10 de agosto de 2010.