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Dia da Mãe: O que é o esgotamento parental? Como prevenir?

3 Mai 2026 - 08:35

Dia da Mãe: O que é o esgotamento parental? Como prevenir?

Para muitos filhos e filhas, o Dia da Mãe é uma oportunidade para homenagear as suas mães, através de demonstrações de amor, carinho e apreciação. Nesta data, que, em Portugal se assinala todos os anos no primeiro domingo de maio, é comum agradecer-se às mães por todo o esforço, empenho e dedicação. Embora a ideia de que “quem corre por gosto não cansa” esteja muito associada à maternidade, nem sempre é assim.

Em declarações ao Viral, Miguel Coutinho, presidente da delegação regional sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), explica o que é o esgotamento parental, quais os sinais de alerta e como prevenir um quadro de exaustão associado à maternidade.

O que é o esgotamento parental? É um tipo de burnout?

O conceito burnout ganhou uma grande popularidade nos últimos anos. Já não é só associado ao trabalho, mas também a outras questões, como a parentalidade. Contudo, Miguel Coutinho começa por explicar que “burnout parental” não é um conceito utilizado nem aprovado pelas instituições nacionais e internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O burnout é uma síndrome ligada ao contexto laboral”, sublinha. No caso de quadros semelhantes, mas ligados a outros contextos, fala-se, “eventualmente, em esgotamento ou sensação de exaustão associada a um conjunto de tarefas e a um conjunto de características ou a um conjunto de contextos”. E é aqui que surge o esgotamento parental.

O esgotamento, enquanto conceito, “é a falência da nossa capacidade face à dureza ou à dificuldade da tarefa realizada”, é quando “se perde o equilíbrio entre a demanda e a capacidade de respostas, que é sempre finita”, explica o psicólogo.

Na perspetiva de Miguel Coutinho, é importante salientar que o esgotamento é uma questão estrutural, por isso, nunca se deve culpabilizar a pessoa pelo diagnóstico. Existem, sim, alguns “fatores que estão presentes” e que ajudam a “co-responsabilizar no processo de mudança, mas nunca culpar”.

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No caso da mulher, em específico, a realidade atual é que, “além da profissão, a mulher acumula exigências familiares”. Essas exigências têm que ver não só “com a questão dos filhos”, mas também, muitas vezes, com o apoio aos mais velhos, como os pais. No fundo, têm que ver “com as dinâmicas e necessidade de dar suporte em função da faixa etária que têm os familiares”.

“No plano do discurso”, caminhamos no sentido da igualdade de género, mas, “na prática, em muitos lares, isso não existe”, adianta o psicólogo.

Atualmente, “a mulher ainda está sujeita à dupla jornada de trabalho, a parte remunerada e a não remunerada”. E é aí que pode surgir uma associação ou uma coexistência entre um burnout e um esgotamento parental.

“Os dados mostram que Portugal, de uma forma global, está bastante suscetível” a situações de burnout. Além disso, “dentro da dinâmica do burnout, têm existido alguns trabalhos que mostram que há mais casos em mulheres”. 

Outros estudos “não mostram isso, mas mostram uma expressão diferente” entre homens e mulheres. No homem, “aparecem mais características associadas ao irritamento, à despersonalização, à descrença”. Enquanto na mulher há uma maior “expressão de exaustão emocional”. 

Em teoria, nas mulheres, o esgotamento parental pode ser potenciado por um burnout, bem como associado ou coexistir com um. 

Por exemplo, “um dos sintomas que aparecem mais vezes em casos de burnout é a irritabilidade”. Partindo deste pressuposto, a pessoa “não está nas suas melhores condições” para estar num contexto familiar, por exemplo, “a tentar resolver um problema – que às vezes já é um problema desafiante – e encontrar as melhores estratégias, com uma irritabilidade aumentada”.

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A parentalidade “assume um peso” em contexto de burnout, tal como o burnout pode ter um impacto significativo na parentalidade, sobretudo no caso das mulheres.

Miguel Coutinho relembra que esta é “uma situação estrutural e não especificamente da culpa daquela pessoa”, mas, “depois, todos somos responsáveis por criar a mudança: a mudança a nível das políticas públicas, o papel da mulher, a igualdade de género, a questão da jornada laboral, a questão da conciliação da vida profissional”. 

Como se distingue o stress “comum” associado à maternidade do esgotamento?

Quando há um esgotamento, inicialmente, surge “um menor bem-estar, uma menor satisfação com a vida em geral e, por vezes, até a deterioração das relações sociais e familiares e menor investimento” nessas relações.

Também é comum surgirem “alguns sintomas físicos, como um maior cansaço sem haver uma tarefa acrescida, dores musculares sem realização de atividade física, enxaquecas, alterações do sono e, eventualmente, até alguns dados mais fisiológicos sem haver uma patologia médica”, adianta Miguel Coutinho.

A certo ponto, chega-se a um estado de “exaustão, esvaziamento emocional, desgaste da empatia, diminuição da compaixão e da preocupação pelas pessoas mais próximas”.

À semelhança do burnout, nos casos de esgotamento parental, a pessoa avalia-se de forma mais negativa, “tem mais dificuldade em realizar as tarefas que antes realizava com um desempenho normal” e sente-se menos motivada e envolvida nas atividades.

Todos estes sinais de alerta “vão aparecendo” e “vão-se tornando crónicos” ao ponto de se verificar um quadro de esgotamento.

Perante estes sinais de alerta, “pode ser necessário pedir ajuda especializada”. Por norma, “na avaliação, importa perceber se se trata de um quadro de esgotamento, cansaço inicial, burnout (quando é relacionado com o contexto do trabalho) e também perceber se é um quadro ansioso ou depressivo de base e que se agrava nestas circunstâncias”, explica.

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Como prevenir um quadro de esgotamento parental?

Hoje em dia, de forma geral, “vendemos nas redes sociais a ideia de que temos de ser ‘super homens’ e ‘super mulheres’” e, especificamente, “a mulher tem de ser uma excelente mãe, tem de ser uma excelente profissional, tem de ser excelente em tudo”.

Este contexto “não dá a oportunidade de integrar as dificuldades, reconhecer os limites, conseguir desligar”. Na perspetiva do psicólogo, “estamos constantemente em plena ativação, à espera de qualquer coisa, ou seja, não estamos a conseguir desligar, desconectar”.

“Temos de aprender a fazer as pazes com o tempo”, defende. É fundamental “sabermos gerir o nosso tempo”, bem como “reconhecer sinais de alerta em fase precoce e criar alguns limites”.

Nesse sentido, é muito importante “conciliar a vida profissional e pessoal, para podermos acompanhar os filhos, ir às reuniões, estar presente na vida deles, criar uma conexão, perceber o que eles gostam, o que eles querem”, exemplifica.

Havendo “esta proximidade, esta possibilidade de criar relações, torna-se mais fácil definir regras, impor limites, ter aquelas pequenas conversas reparadoras, orientadoras e organizadoras”.

“Conseguirmos estar a conversar todos numa mesa, em família, sem as redes sociais, sem as notificações, é muito importante”, defende.

Se arranjarmos tempo para estas questões “não deixamos de ter problemas, mas estamos  mais capazes para lidar com os possíveis problemas”.

O que acontece, muitas vezes, “é que estes tempos não existem e tudo se torna muito difícil”, porque não se reserva tempo para “as pequenas conversas, as pequenas reparações que são muito importantes”.

Além disso, é essencial implementar estratégias de autocuidado. Tal como referia o especialista em medicina geral e familiar Paulo Santos, em declarações anteriores ao Viral, o autocuidado tem não só “um impacto enorme naquilo que é o bem-estar das pessoas”, mas também “na saúde” em si, “no sentido da prevenção e da gestão de doenças”.

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Por isso, defendia a psicóloga Alexandra Antunes, no mesmo artigo, “independentemente de termos de trabalhar ou de termos pessoas que dependem de nós”, é fundamental priorizarmo-nos

Aliás, salientava, “antes de cuidarmos dos outros é essencial que cuidemos de nós próprios”, porque, se não o fizermos, “os outros também não vão estar bem ao nosso lado”.

Estas estratégias passam, por exemplo, por ter uma alimentação equilibrada e saudável, praticar exercício físico regular, ter uma boa higiene do sono, priorizar o autocuidado em contexto de doença, fazer atividades que dão prazer, investir nas relações interpessoais e falar sobre o que sente.

3 Mai 2026 - 08:35

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