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Desinformação pode dificultar resposta a uma nova pandemia? Especialistas alertam para riscos e defendem aposta na prevenção

29 Set 2026 - 08:15

Desinformação pode dificultar resposta a uma nova pandemia? Especialistas alertam para riscos e defendem aposta na prevenção

A desinformação em saúde pode dificultar a resposta a uma futura pandemia, porque afeta a confiança da população nas instituições e nas autoridades de saúde. O alerta foi deixado por Margarida Tavares, diretora do Conselho Diretivo da Unidade Autónoma de Gestão da Urgência e Medicina Intensiva da Unidade Local de Saúde de São João e ex-secretária de Estado da Promoção da Saúde, durante a primeira sessão das “Conversas ao Microscópio”, um ciclo de webinars promovido pelo Viral.

“O risco pode ser enorme, porque podemos colocar em causa a resposta àquela crise, porque as pessoas deixam de confiar, em última análise, nas autoridades de saúde ou até no governo”, afirmou a especialista.

Apesar de considerar que, durante a Covid-19, a população portuguesa respondeu, “genericamente”, de forma adequada às recomendações das autoridades de saúde, a especialista lembrou que o contexto informativo mudou desde então. “Se todos nós pensássemos como é que reagiríamos hoje a uma nova Covid-19, a uma nova pandemia, se calhar, íamos ter muito mais dificuldades”, afirmou.

Por isso, defende Margarida Tavares, “a resposta à infodemia ou à desinformação tem um papel quase tão importante como, por exemplo, a vigilância epidemiológica” e deve ser “profissionalizada”.

A importância de “comunicar a incerteza” e de antecipar problemas

Para Margarida Tavares, é fundamental comunicar com clareza e assumir o que não se sabe. “Ser capaz de transmitir em cada momento aquilo que sabemos, mas sobretudo aquilo que não sabemos, é muito importante, mesmo que pareça que estamos a fazer uma comunicação menos forte, menos assertiva”, defendeu. A especialista admitiu que esta abordagem pode reduzir a curto prazo a adesão a uma medida, como a vacinação, mas acredita que, a longo prazo, “mantém a credibilidade” da instituição em causa.

No mesmo sentido, Gisela Leiras, especialista em saúde pública e chefe da Divisão de Literacia, Saúde e Bem-Estar da Direção-Geral da Saúde, No mesmo sentido, sublinhou que “um dos princípios-chave da comunicação de risco  – e que toda a evidência mostra que tem de ser feito – é comunicar a incerteza”.

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Segundo a especialista, esse princípio deve estar presente nas estratégias e planos de resposta, bem como nas ações de formação e capacitação dos profissionais, para que as equipas estejam preparadas para o aplicar quando necessário.

A comunicação deve, além disso, partir das próprias instituições, mesmo quando ainda não existem respostas para todas as questões: “Institucionalmente temos de ser os primeiros a comunicar”.

Esta preparação deve começar antes de uma crise, mas não se limita à forma como as autoridades comunicam. Para Gisela Leiras, é também importante antecipar as dúvidas e as narrativas que podem surgir e preparar as pessoas para reconhecer informação enganadora.

“Compensa muito mais fazer prebunking do que debunking, ou seja, [é melhor] vacinar as pessoas com a informação certa à partida e mantê-la disponível do que ter de depois andar a desconstruir e a responder a notícias falsas ou enganadoras”, explicou.

No mesmo plano, Gisela Leiras defendeu que é fundamental “preencher os vazios de informação” e esclarecer as dúvidas que podem alimentar a desinformação. Durante a vacinação contra a Covid-19, por exemplo uma das dúvidas mais comuns foi a rapidez com que as vacinas foram desenvolvidas: “Como é que de repente encurtamos o tempo de produção e ela se mantém segura, o que é que foi feito, o que é que foi comprometido, o que é que não foi comprometido?”.

Pela mesma ordem de ideias, Hugo Rodrigues, diretor do Serviço de Pediatria da Unidade Local de Saúde do Alto Minho e autor da página “Pediatria para Todos”, destacou também a importância de não ostracizar os pacientes que têm questões. “Ter dúvidas é legítimo. Nós temos de as legitimar”, afirmou. O pediatra considerou que é necessário “validar essas dúvidas, escutar, perceber o porquê das dúvidas e depois dar respostas”.

Essas respostas, acrescentou, não devem limitar-se à apresentação de factos, mas devem ser construídas de forma a fazer sentido para quem as recebe. “Hoje em dia, com tanta informação disponível, as pessoas não vão muito à procura dos factos. É verdade, as pessoas escolhem mais narrativas do que factos e, portanto, nós temos, para termos uma narrativa que interesse às pessoas, temos que as ouvir primeiro”, explicou.

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João Frutuoso, médico intensivista na Unidade Local de Saúde de Lisboa Ocidental e membro do Gabinete de Literacia em Saúde da Ordem dos Médicos, chamou a atenção para outro problema: a dificuldade em interpretar informação científica fora do seu contexto. O acesso a estudos científicos tornou-se muito mais fácil, mas a informação pode ser enganadora quando é analisada isoladamente.

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O médico defendeu, por isso, que os profissionais de saúde devem traduzir o conhecimento científico para uma linguagem que as pessoas consigam compreender, sem recorrer desnecessariamente “ao jargão técnico”. O objetivo, acrescentou, não é simplificar o conhecimento, mas apresentá-lo de forma acessível: “Não é propriamente simplificar o conhecimento, mas é dar o conhecimento de forma que o recetor, de facto, consiga perceber aquilo que nós queremos transmitir.”

Veja a conversa completa aqui:

29 Set 2026 - 08:15

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