VITAL
Depois de um diagnóstico de cancro, a vida ganhou outra dimensão. “Fui muito mais feliz depois de estar doente”, diz Fernando Gonçalves
No dia 11 de março de 2019, Fernando Gonçalves saiu de casa e, de repente, não sabia muito bem onde estava. Tentou marcar números no telemóvel mas não conseguia. Após algum tempo a clicar no ecrã do telemóvel, conseguiu chamar ajuda e foi para o hospital. Não se lembra com grande detalhe do que aconteceu, já passaram muitos anos e, apesar de saber algumas datas, há pormenores que foram sendo esquecidos.
“Tenho alguma experiência em doenças, já tinha passado por um ataque cardíaco e não estava muito preocupado porque achei que estava a ter um AVC [Acidente Vascular Cerebral] e ia recuperar”, contou, em conversa com o Polígrafo e com o Viral.
Mas o diagnóstico foi outro: o que tinha causado aquela desorientação eram metástases que tinha no cérebro. Nessa altura, ainda não se sabia qual a origem, mas mais tarde percebeu-se que era cancro do pulmão.
Fernando Gonçalves tem 55 anos, é professor na Escola Náutica Infante D. Henrique, em Lisboa, e era fumador até ao diagnóstico. Desde então, deixou de fumar e passou a ser “muito mais saudável”.
O cérebro é um local relativamente comum de metastização de cancros do pulmão, acontece “em cerca de 25% dos casos”, diz Nuno Gil, oncologista e diretor da Unidade de Pulmão da Fundação Champalimaud, onde Fernando é acompanhado.
O cancro é, de forma geral, uma doença “silenciosa”, dá poucos sinais em fases precoces. Não se sabe porque é que isso acontece, refere Nuno Gil, mas “é a razão pela qual se propõem para alguns tumores programas de rastreio”.
Está planeado para o início de 2026 o arranque de dois projetos piloto de rastreio de cancro do pulmão em Portugal, mas a implantação nacional não é uma realidade próxima.
Quando Fernando Gonçalves foi diagnosticado tinha sete metástases cerebrais. É difícil recuperar o que sentiu quando recebeu a notícia, o momento em que percebeu que não tinha sido um AVC. “Já não consigo racionalizar muito bem. Deram-me a entender que eu tinha muito pouco tempo de vida, podia ser uma questão de semanas”.
O primeiro impulso foi fazer uma lista de todas as coisas que queria fazer antes de morrer, “para morrer mais feliz”. “É o que se vê nos filmes”, justifica. Mas à medida que ia construindo essa lista percebeu que já tinha feito quase tudo. “Resolvi fazer aquilo que gosto mais de fazer — trabalhar — e ficar um bocadinho à espera da morte porque o que me diziam era que esta doença era incurável e inoperável”.
“Algumas semanas” transformaram-se em anos
Passaram quase sete anos desde essas primeiras semanas. Como é que isto se explica? “É uma boa pergunta, mas não sei responder”, admite Nuno Gil. O máximo que pode fazer é explicar alguns fatores que têm influência na sobrevida: “Uns têm que ver com a doença, outros com o doente”.
As doenças têm “características próprias” que podem justificar o prognóstico e mesmo a eficácia (ou falta dela) dos tratamentos. O “estado físico geral” do doente também é importante.
“Se uma pessoa partiu para uma doença destas com uma série de outras doenças simultâneas, provavelmente será mais difícil gerir”, a existência de comorbilidades pode limitar a possibilidade dos médicos proporem o “tratamento ideal” para um certo cancro por haver contraindicações.
“E há outro lado que me parece importante, que é a motivação”, diz o oncologista. “Creio que é como todas as atividades humanas: se uma pessoa estiver motivada provavelmente os resultados serão melhores”. “E, às tantas, a equipa médica também conta, mas talvez menos”.
Fernando Gonçalves não concorda com esta última afirmação: durante toda a conversa refere repetidamente a importância da equipa que o acompanha — diz mesmo que só está vivo por causa dos médicos que o rodeiam.
“Não me recordo já do enquadramento, mas acabei por ir à Fundação Champalimaud”, conta o professor. Queria perceber se havia alguma coisa a fazer para controlar ou tratar o cancro. Aí, Nuno Gil e a equipa propuseram “um esquema em várias fases”.
A cirurgia “foi feita porque havia uma lesão muito grande [no cérebro] que seria dificilmente tratável com radioterapia”, explica o oncologista. Para as metástases mais pequenas, optou-se por radioterapia. É um procedimento comum já que “o cérebro tem coisas muito nobres” e a cirurgia pode afetar questões cognitivas ou motoras, por exemplo.
Devido a uma operação que fez algum tempo depois, Fernando ficou com algumas sequelas motoras: apoia-se numa bengala para andar e tem o braço esquerdo “ligeiramente afetado”.
Depois da biópsia ao pulmão, foi possível perceber que a lesão primária era mais pequena do que as metástases. Na cirurgia e biópsia, a equipa médica foi procurando e recolhendo “indicadores biológicos” que pudessem ajudar a escolher qual o tratamento mais adequado para aquele caso.
Nesse processo, foi escolhida a imunoterapia que Fernando Gonçalves faz até hoje. “A tendência do tratamento oncológico tem sido prolongar tratamentos mais do que abreviá-los”, diz Nuno Gil. Neste caso, esse prolongamento deve-se às metástases cerebrais, que são um “sítio difícil de tratar” — no resto dos órgãos já não há sinal de neoplasia.
“Tenho a perceção de que tudo o que tenho é mais do que deveria ter”
Os últimos anos não têm sido fáceis, mas o professor admite que aquilo que quer mais dizer é que foi muito mais feliz depois de ser diagnosticado do que era antes.
“Quando percebemos que vamos morrer, que não temos hipóteses, a vida ganha outra dimensão, cada dia ganha outra dimensão”, garante. “A verdade é que tenho a perceção de que tudo o que tenho é mais do que deveria ter, estou há sete anos vivo quando já não deveria estar”.
Sempre trabalhou — aliás, no momento desta entrevista, estava a sair da escola — e fez a vida como a conhecia antes do diagnóstico, com as alterações a que os tratamentos obrigavam. Essa normalidade que manteve, e o facto de ter ultrapassado largamente o prognóstico que lhe tinham dado em 2019, fez com que “criasse a convicção de que era superior à doença” e que ela não o abalava, confessa.
“Só no último ano e meio percebi que sou doente, que não sou a mesma pessoa, que não tenho as mesmas capacidades”. E, por isso, o momento que está a viver agora está a ser o mais “desafiante” desde o início.
O momento em que, após uma das quatro cirurgias que fez, ficou com uma incapacidade motora foi marcante. Os médicos tinham avisado que a possibilidade era alta. Mas só quando percebeu que teria de andar com uma bengala, e seria impossível voltar a andar como até ali andara, é que Fernando Gonçalves percebeu os impactos que teria no quotidiano. “Às vezes não é fácil assumir, mas sou deficiente”.
“Lidei muito bem com o cancro enquanto não tinha a parte motora afetada, e a partir daí, as coisas complicaram um bocado”.
Tem de ter uma banheira adaptada, procurar lugares para pessoas com deficiência — o que raramente é simples — e não consegue correr, por exemplo.
Mas a coisa que mais gosta de fazer é dar aulas, e isso continuará enquanto as avaliações de desempenho forem boas, diz, entre risos, o trabalho é o “projeto de vida”.
Na base de tudo, sempre estiveram os pais, incansáveis desde o primeiro momento. “A minha mãe antes dizia que não chegava aos 60 e, desde que estou doente, vejo-a mais forte todos os dias”. “As famílias vivem destas compensações”, diz, “eles sentem que têm de ser mais fortes para o filho não desanimar”. A mãe reza, acha que é um “milagre”, cada um se agarra ao que tem.
O que Fernando sabe é que no dia 11 de março completam-se sete anos desde aquele dia em que saiu de casa e não sabia bem onde estava. “Nesse dia, ficarei sete anos vivo nesta situação. Penso que não haverá muitas pessoas que tenham resistido tanto tempo”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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