PUB

Demolição de barracas em Loures e na Amadora. Quais as consequências emocionais para os moradores?

17 Jul 2025 - 10:38

Demolição de barracas em Loures e na Amadora. Quais as consequências emocionais para os moradores?

Mais de 100 pessoas ficaram sem teto após as demolições de barracas que começaram esta segunda-feira, 14 de julho, em Loures e na Amadora. No bairro do Talude Militar, em Loures, foram abaixo 55 casas, antes de as demolições serem suspensas por ordem do Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa. 

O despacho do tribunal data de segunda-feira à noite mas, na manhã do dia seguinte, as autoridades ainda estavam no bairro e quatro casas foram demolidas. A suspensão ocorreu após um grupo de 14 moradores das casas autoconstruídas ter interposto uma providência cautelar à Câmara de Loures. 62 crianças ficaram sem casa.

Na Estrada Militar (antigo bairro de Santa Filomena), na Amadora, “serão demolidas a totalidade das 22 construções ilegais”, segundo disse à Lusa Vitor Ferreira, presidente da Câmara Municipal da Amadora. Nessas casas vivem “cerca de 30 adultos e 14 crianças/jovens“. Para já, duas habitações terão sido destruídas.

PUB

Na primeira noite, as famílias desalojadas ficaram em tendas e numa igreja. Na segunda, foram aconselhadas a deslocarem-se aos serviços sociais na Casa da Cultura, em Sacavém, e a solicitar apoios.

Alguns moradores desmontaram a casa e guardam os materiais, outros viram máquinas destruir a casa onde viviam. “O que me parece mesmo grave e que é um potenciador de uma destabilização mental global, é a desumanização” vivida pelos moradores, afirma Patrícia Câmara, psicóloga e presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática. 

“Penso que devem ter existido equipas [de apoio psicológico imediato] no local”, diz a psicóloga. Algum tempo depois, Gonçalo Filipe, do movimento Vida Justa, que esteve em Loures aquando das demolições, confirmou ao Viral que não foi dado qualquer apoio psicológico às famílias desalojadas.

Quais as consequências emocionais para os moradores?

A casa “é o sítio onde chegamos ao final do dia, onde nos encontramos, muitas vezes, com as pessoas que nos são mais próximas”, diz a psicóloga. Serve como um “organizador mental”, um sítio onde há privacidade. E não é por ser uma casa com menos condições que esse sentimento deixa de existir, ainda que uma casa mais confortável garanta uma qualidade de vida superior. 

É um sítio onde há “espaço” e “amparo”. Por isso mesmo, ficar sem casa — e neste caso com pouco tempo de aviso e sem alternativas imediatas — pode ser “brutal”. As reações variam muito, desde a apatia causada pelo choque, até ao “desespero e sensação de catástrofe que daí podem surgir.

Para uma pessoa que tenha uma “predisposição depressiva, uma situação destas é arrasadora” e pode levar ao desenvolvimento de doença mental. Outra das possíveis consequências é uma desconfiança perante o mundo, que se pode tornar “paranoica”. “Se eu começar a sentir que posso ser, de repente, completamente arrasada na minha identidade e existência, vou ficar desconfiada de tudo”, observa Patrícia Câmara. E se isso “no princípio até tem razão de ser”, a longo prazo pode “alojar-se” e ser uma ideia persistente que deve ser desconstruída.

PUB

Para a psicóloga, a sensação de “desumanização” e a “crueldade do momento” pode potenciar não só consequências psicológicas, mas também físicas. “Há um impacto psicossomático brutal” que se pode ressentir de várias formas. As condições precárias de habitação em que estes moradores viviam antes da demolição das barracas representam, por si só, um fator de “vulnerabilidade”, diz a psicóloga, que considera que ser “atacado numa situação de vulnerabilidade é um fator que pode provocar adoecimento” por falta de “regulação”.

“Estas pessoas estão a ser expostas em praça pública, com a intimidade devassada, e isso tem um potencial maligno”, constata Patrícia Câmara, sublinhando que se trata de um grupo de pessoas “muitas vezes estigmatizado”. É “uma grande humilhação” e um “rasgar de um espaço de privacidade, estas pessoas ficam descascadas perante o mundo”, até porque “por trás disto não há uma catástrofe natural, há uma intencionalidade” sentida por quem vê as casas destruídas.

Há uma “deceção imensa com a humanidade”, acompanhada de sensações que “serão diferentes para todos”, mas sempre “bastante desconfortáveis”. E a situação tem “claramente potencial traumático” porque “quebra a continuidade da vida das pessoas” e há uma enorme sensação de “desamparo”. 

Para de alguma forma assegurar o mínimo bem-estar destas pessoas importa haver uma “rede de suporte”, como a que está a ser criada para reunir bens para os moradores. “Se tudo isto acontecesse e não houvesse uma mobilização das pessoas na tentativa de minimizar estes danos, então o impacto era ainda mais brutal”. 

A ação de associações que se mobilizam para a defesa destes moradores, “e de movimentos e pessoas que não se esquecem e contribuem para que não se repita a mesma situação”, faz com que possa haver uma “diminuição do potencial traumático”.

Como falar com as crianças sobre o tema?

Só no bairro do Talude Militar, em Loures, 62 crianças ficaram sem casa. Num comunicado, o Instituto do Apoio à Criança pediu que fossem urgentemente realojadas e sublinhou que “as situações que envolvem retiradas forçadas de crianças e famílias das suas habitações, sem soluções prévias de realojamento dignas, levantam sérias questões em matéria de direitos fundamentais e do superior interesse da criança, consagrado na Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada por Portugal”.

PUB

É uma forma de abuso, é sentido como um abuso, é uma violação do espaço privado”, explica Patrícia Câmara. “Para uma criança é assustador e pode criar a sensação de que os adultos não são confiáveis” e que esta é uma situação que se pode repetir. Os mais novos podem sentir-se tristes e amedrontados, mas um dos fatores que tem um grande impacto na gestão emocional é a forma como os adultos apresentam a situação.

“O mais importante é transmitir confiança, as soluções ficam para os adultos”. Isto não quer dizer que se deva “amenizar ou tornar benigna a maldade” ou não dizer a verdade, ressalva a psicóloga. O importante “é dar a entender que, de alguma forma, os mais velhos vão arranjar uma solução”.

Categorias:

Saúde mental

Etiquetas:

Saúde Mental

17 Jul 2025 - 10:38

Partilhar:

PUB