PUB

Deixar as redes sociais, as compras e os doces. O “detox de dopamina” funciona mesmo?

29 Ago 2026 - 08:15

Deixar as redes sociais, as compras e os doces. O “detox de dopamina” funciona mesmo?

Fazer uma pausa nas redes sociais, não ver séries e filmes e evitar fazer compras ou comer doces são algumas das ações que, segundo vários vídeos no TikTok, permitem fazer um “detox de dopamina”, um neurotransmissor que desempenha um papel central nos mecanismos de prazer, recompensa e motivação.

Uma utilizadora do TikTok decidiu levar esta ideia ao limite e fez aquilo a que chamou um “detox de dopamina extremo”. Durante um fim de semana, isolou-se num quarto de hotel e abdicou de filmes, música, redes sociais e bebidas alcoólicas.

Esta prática, popularizada online, assenta na ideia de que certas atividades estimulam a produção de dopamina e, por isso, alimentam comportamentos compulsivos e uma espécie de dependência psicológica do prazer que proporcionam. Mas o detox de dopamina funciona mesmo? É uma prática recomendável para todos? E que riscos pode implicar? Em declarações ao Viral, dois psiquiatras e um psicólogo respondem a todas estas questões.

O que é a dopamina e como é produzida?

“A dopamina é um neurotransmissor produzido naturalmente no cérebro, que atua como um mensageiro químico em circuitos neuronais fundamentais em vários processos cognitivos – como as emoções, o humor, a aprendizagem, a atenção – e motores”, começa por explicar o psiquiatra Gustavo França.

Para Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), a libertação de dopamina funciona “como uma espécie de condicionamento clássico”.

Ou seja, o cérebro liberta dopamina sempre que “se faz uma atividade qualquer que dá prazer”, mas não apenas nesse momento: “Qualquer estímulo que lembre essa atividade promove essa sensação de prazer, o que dá a vontade de a fazer”, acrescenta.

Este mecanismo, no entanto, não funciona sempre da mesma forma. Como sublinha Pedro Almeida, psiquiatra no Centro de Resposta Integrada (CRI) de Porto Central, “a função da dopamina é altamente variável, dependendo do sítio do cérebro onde atua, dos recetores onde atua e do tipo de libertação”.

PUB

Segundo Gustavo França, a dopamina tem um papel tão relevante no funcionamento do cérebro que, por exemplo, “a doença de Parkinson caracteriza-se por um défice de dopamina em determinadas regiões muito específicas do cérebro” (ver aqui).

Por outro lado, “a esquizofrenia é um excesso de dopamina em determinados sítios do cérebro que provocam alucinações e delírios”, exemplifica.

Além disso, explica Pedro Almeida, existem dois tipos de libertação de dopamina. “Por um lado, há uma libertação muito rápida que passa muito rápido”, ou seja, uma espécie de “explosão de dopamina”.

Este tipo de libertação ocorre “no centro de prazer do cérebro e leva a prazeres imediatos, que todos nós gostamos e precisamos”. São exemplos atividades como ir às redes sociais, ver séries, fazer compras ou jogar.

“Por outro lado”, existem “os prazeres que não são imediatos, mas são mais produtivos a longo prazo, como ler um livro, ter uma carreira, conhecer alguém e amar”. Nestes casos, “o aumento da dopamina é mais lento, mais graduado e mais sustentável”, esclarece Pedro Almeida.

“É mais ou menos a diferença entre a paixão e o amor”, sugere. “A paixão dá uma explosão de dopamina, e faz bem”, até certo ponto.

“O amor já é muito mais complexo”, acrescenta Gustavo França. “Já não é tanta dopamina, é também a serotonina, a oxitocina”, estando ligado a “questões de afiliação e de vinculação, ou seja, não é só aquele prazer da paixão, aquele imediatismo”, conclui.

O detox de dopamina é eficaz?

Miguel Ricou explica que a lógica por detrás do modelo de detox de dopamina que circula nas redes sociais não é propriamente nova. Segundo o psicólogo, a ideia baseia-se em “técnicas da psicoterapia cognitiva e comportamental”, cujo objetivo é “controlar um estímulo”, por exposição ou extinção, em contexto de “comportamentos aditivos”.

PUB

Ainda assim, salienta, embora estas técnicas possam ter resultados em alguns casos, “é evidente que não devemos enquadrar isto como algo isolado, que resulta por si só”, uma vez que “isto faz-se, por norma, no contexto de outras intervenções”, frisa.

Além disso, mesmo que a tendência tenha sido inspirada nestas técnicas, o detox de dopamina promovido nas redes sociais está longe de ser uma forma correta e eficaz de agir, por várias razões.

Em primeiro lugar, destaca Gustavo França, o próprio nome da prática é problemático. Ao chamar-lhe “detox de dopamina”, “no fundo, estamos a reduzir a complexidade do cérebro a um nível demasiado simples”.

O psiquiatra explica que, “quando há estas alterações de comportamento, propostas por esta desintoxicação – seja deixar de consumir substâncias, deixar de ter o jogo online, menos videojogos -, de facto, estamos a alterar o nosso cérebro, mas não é apenas pela questão da dopamina”.

Pedro Almeida reforça esta ideia: “A dopamina é só um dos fatores intervenientes” nestas questões. Aliás, defende, “até seria estranho o nosso cérebro estar perante qualquer atividade e só contar com uma substância para a executar”.

Por isso, tentar eliminar a dopamina, como sugere esta tendência, seria, na visão do psiquiatra, tornar-se “apático e não se mover”. Afinal, este neurotransmissor “é fundamental para comportamentos dirigidos a objetivos, para motivação”, sustenta.

O problema está também na forma como a prática é interpretada. Como não se percebe bem o conceito e a importância da dopamina, aponta Miguel Ricou, na maioria dos casos, as pessoas estão a fazer “uma desintoxicação do prazer”, de uma forma geral, quando esse não é o objetivo.

“Até, se for preciso, nem exercício físico vão fazer, ou nem vão estar com pessoas”, refere. Segundo o psicólogo, “isto não faz nenhum sentido”.

PUB

Isto porque, no contexto clínico, as técnicas que estão na base deste tipo de intervenção “são sempre personalizadas” e procuram “conseguir tentar mudar a nossa relação com um determinado comportamento abusivo”, recorrendo também a “comportamentos alternativos” mais saudáveis.

Assim, refere Gustavo França, “a ideia do detox de dopamina é interessante”, mas apenas “se for na perspetiva de substituir comportamentos que podem levar à adição”. Ou seja, se o objetivo “for substituir comportamentos mais disfuncionais, como o consumo de drogas, uma alimentação compulsiva, o jogo, a pornografia”.

Ainda assim, os três especialistas concordam num ponto: não se pode encarar esta prática como um verdadeiro detox de dopamina, porque é impossível haver um detox no sentido da palavra. Não é possível impedir totalmente a produção de dopamina.

Aliás, mesmo quando as pessoas “interrompem esses hábitos durante certos dias”, salienta Pedro Almeida, continuam “motivadas pelo entusiasmo” da própria ideia de fazer o detox, e esta motivação também é mediada pela dopamina.

Restringir certos hábitos pode ser benéfico?

Gustavo França esclarece que, “se a pessoa deixar de consumir internet, deixar de consumir social media, deixar de consumir pornografia, no fundo, está quase a fazer uma terapia comportamental, em que deixa estes comportamentos disfuncionais”.

Assim, limitar alguns comportamentos associados ao prazer imediato pode ser benéfico para a saúde física e mental. “Agora, é preciso substituí-los por outros comportamentos mais saudáveis e adaptativos”, frisa.

Miguel Ricou dá um exemplo concreto. Hoje em dia, o telefone e as redes sociais ocupam uma parte significativa do nosso dia. “De vez em quando, conseguir limitar isto e fazer outras coisas, estar com pessoas, acho que só faz bem, com certeza”, defende.

Por exemplo, se alguém decidir passar um dia em família e disser “hoje não há telefones para ninguém”, “não há nenhum problema nisso e até deve fazer bem, porque nos obriga a ser mais criativos e a procurar alternativas”, considera o psicólogo.

PUB

Contudo, “não estamos a fazer nenhum tratamento”. Trata-se de “algo intuitivo, de senso comum”, uma vez que “todos sabemos que é importante que se faça isso”, salienta.

Ainda assim, mudar estes hábitos pode não ser fácil. Pedro Almeida lembra que “mesmo para as pessoas sem adições, não é fácil mudar de hábitos”.

Isto porque, explica Gustavo França, “somos um animal que, por definição, cria hábitos, rotinas, rituais, repete os mesmos gestos e as mesmas palavras”.

Quais os riscos de fazer um detox de dopamina?

Os três especialistas concordam que o principal problema do detox de dopamina surge quando esta prática é seguida por pessoas que têm, de facto, um problema de adição. Nestes casos, é pouco provável que a tendência resolva o problema e pode até agravá-lo.

Do ponto de vista de Pedro Almeida, o detox de dopamina “é uma solução com o mesmo tom do problema”.

Miguel Ricou partilha da mesma opinião: “É quase como se fosse uma técnica que por si só funciona, a técnica milagrosa. Ponho isto um bocadinho ao nível das modas das dietas restritivas”.

De facto, reconhece Pedro Almeida, as pessoas que não têm uma adição podem beneficiar de limitar determinados comportamentos, “como deixar de ir tanto às redes sociais”.

O problema surge quando estão em causa pessoas com uma adição. “Os casos que seguimos em psiquiatria são pessoas que não conseguem fazer esta transição, sozinhas”, destaca o médico.

Nesses casos, o detox de um comportamento abusivo “não se faz em dias”. Dependendo da situação, “a pessoa pode necessitar de meses ou anos para fazer esta mudança cerebral, que não depende só da dopamina”, acrescenta Pedro Almeida.

PUB

Uma pessoa muito viciada “pode ser dependente de qualquer prazer imediato, e uma pessoa que é dependente de um prazer pode ser de vários”. Essa pessoa “está no modo dopamina de explosão, viciada”, aponta.

O objetivo do tratamento passa, então, por ajudar o doente a “passar para um modo de libertação de dopamina mais lento e mais sustentável, mais saudável”.

Por isso, destaca o psiquiatra, “mais importante do que restrição é a substituição”. Ou seja, “se nós tirarmos uma droga a uma pessoa – esse aumento enorme da dopamina – temos de dar outra coisa, outras formas de obter dopamina”, reforça.

Na visão do médico, “o problema destas ideias é elas não serem percebidas e o impacto que podem ter”. Segundo Pedro Almeida, “não se pode dizer a alguém com um vício para não ter mais prazer rápido, porque a pessoa quer o prazer rápido, não se pode ser tão pouco empático”.

PUB

O tratamento de uma adição é um processo lento, marcado por “melhoras e recaídas, que podem acontecer muitas vezes e durante muito tempo”, uma vez que estas “dependem da gravidade”, esclarece.

Para Pedro Almeida, “toda esta subtileza não está explicada neste detox de dopamina”.

Além disso, seguir este tipo de práticas quando existe um problema de adição pode, na perspetiva de Miguel Ricou, contribuir para “um acréscimo da desconfiança nas intervenções clínicas”. As pessoas “não procuram ajuda” e acabam por ficar “mais vulneráveis”, conclui.

Quando é necessário recorrer a ajuda especializada?

Segundo Gustavo França, pode-se estar perante uma adição “quando, de repente, a única forma de termos prazer e bem-estar é estarmos refém desse efeito dopaminérgico”. No fundo, acrescenta, o vício provoca “uma perda de liberdade”.

O problema, frisa Pedro Almeida, surge quando há “um défice de dopamina em relação a tudo o resto que não seja um comportamento viciante”. Torna-se particularmente preocupante quando “a libertação da dopamina só acontece num contexto – se for às redes sociais, se for ver pornografia, se consumir uma droga – e não acontecer em relação a mais nada”.

Além desta dependência de um determinado comportamento, aponta Miguel Ricou, há outro fator central a ter em conta: quando este “está a trazer prejuízo” à vida da pessoa. Isto pode acontecer, por exemplo, quando “pede o contacto com pessoas, chega atrasada ao trabalho, dorme menos do que queria”, ou quando surgem outros problemas associados a esse comportamento, remata.

29 Ago 2026 - 08:15

Partilhar:

PUB