VITAL
Cristina Pereirinha veste-se para a quimioterapia como se fosse para uma festa. “Vou levar isto à minha maneira”
Era verão e Cristina Pereirinha estava de férias no Algarve. Tinha acabado de almoçar e na televisão estava a passar um programa em que a locutora Joana Cruz e a apresentadora Bárbara Guimarães falavam sobre o tratamento e diagnóstico de cancro da mama. Por algum motivo, Cristina ficou atenta. Naquele momento, deitada no sofá, lembrou-se de que, devido à pandemia de Covid-19, não tinha feito a habitual mamografia no início do ano e decidiu fazer o autoexame. O que descobriu não passava de uma “borbulha minúscula”, “desvalorizável”. “Mas houve alguma coisa que me disse que tinha de ligar ao meu médico”, conta, em conversa com o Viral.
No dia seguinte, uma segunda-feira, em 2021, apareceu no consultório e, depois de a ver, o médico aconselhou-a a fazer uma ressonância magnética, foi detetada uma irregularidade, fez uma biópsia e o diagnóstico chegou: cancro da mama triplo negativo. “Foi um balde de água gelada, eu não tinha histórico familiar, nada”.
“Eu quase nem sequer pedia saúde no Natal e no aniversário”, diz, entre risos, “achava que era muito saudável e nunca teria uma doença dessas”.
O cancro da mama triplo negativo “é um subtipo mais agressivo do ponto de vista biológico”, explica Daniela Macedo, médica oncologista que acompanha Cristina no Hospital Lusíadas, e, “mesmo num estadio precoce, tem alto risco de recidiva”. Muitas vezes está ligado a mutações nos genes BRCA e é “frequente em idades mais jovens”, como no caso de Cristina, que tinha 42 anos quando foi diagnosticada.
Cristina é designer de formação e tem uma gráfica. Quando começou a fazer quimioterapia levava nas roupas, nos brincos e nos lenços a criatividade que sempre a caracterizara e que tinha de canalizar para algum lado. “Vestia-me como se fosse para uma festa”, descreve, “fiquei ainda mais vaidosa e arranjei maneira de que quem olhasse para mim nunca soubesse que eu tinha cancro e estava a passar por um tratamento”.
“Vou passar por este tratamento como uma madame”

A forma como encarava aqueles dias levou várias pessoas que a rodeavam — desde amigas a profissionais de saúde — a incentivá-la a criar um sítio para partilhar não só as roupas que vestia, mas também o olhar sobre a doença. E assim nasceu a Madame Pereirinha, a página de Instagram onde começou a partilhar o dia-a-dia. O termo “madame” não foi escolhido por acaso: “Eu vou passar por este tratamento como uma madame, como uma senhora”, pensava.
Rapidamente começou a receber mensagens de outras mulheres, muitas falavam sobre autoestima, estilo de vida e “outros temas considerados fúteis”. “Essa palavra [fútil] não existe no meu dicionário”, avisa: “Nós usamos todas as armas, sejam elas quais forem, para nos sentirmos melhores e para nos reconhecermos ao espelho”. O reconhecimento é essencial e serve de motor para a energia de Cristina, que “sempre disse”: “Enquanto me reconhecer, vou levar isto à minha maneira”.
Até ao momento da criação daquela página, era uma pessoa muito afastada das redes sociais e não via interesse em “expor a vida”, mas ali encontrou uma comunidade. “Comecei a perceber que mulheres jovens, com cargos importantes no trabalho, que têm uma família, amigos e querem manter a sua rotina, não querem ser rotuladas com uma mulher doente”. Por outras palavras: estava acompanhada, havia mais pessoas na mesma situação e podia ajudá-las e ser ajudada.
Quando terminou as 16 sessões de quimioterapia, foi para Cabo Verde porque “precisava muito de ir à praia”. Os médicos “acharam louco” num momento inicial, conta, mas acabaram por aceitar e até incentivar, desde que tudo fosse feito com o maior cuidado. Cristina segue todas as indicações dos profissionais de saúde, mas afirma que sempre “inventou” e levou os médicos “ao limite”. Também porque tem uma boa relação com todos: “Sempre me apoiaram muito”. “A base da relação entre o médico e o seu doente é a confiança, desde o início”, diz a oncologista Daniela Macedo.
Quando voltou da viagem, tirou as duas mamas e reconstruiu-as, e começou o processo de radioterapia, que durou três semanas. “Terminou tudo e eu achei-me invencível, consegui ter resposta completa”, recorda. A anatomia patológica da operação também não tinha detetado quaisquer células cancerígenas. “Isto ficou para trás das minhas costas”, pensou.
Na mesma altura, no final dos tratamentos, recebeu um convite. Beatriz de Sousa Viegas (Lady dos Lenços, como se autointitula nas redes sociais) lançou uma proposta: “Temos de fazer uma revista para nós [doentes oncológicas], com a qual nos identifiquemos. Fui ao quiosque comprar uma revista e não há nada de jeito. É o six pack de uma celebridade, os cabelões de outra e o sexo louco na praia”. “Era junho”, diz Cristina, para dar algum contexto sobre a última parte.
Aquela ideia entusiasmou-a e aceitou imediatamente. Entre outubro de 2022 e julho de 2025, lançaram oito edições da Onco Glam, revista de moda e beleza focada em doentes oncológicas. Pensar a revista, desde os textos ao design, é uma forma de “puxar pela criatividade”. Mas é mais do que isso: Cristina voltou a encontrar comunidade naquele grupo de “Onco Glammers” com quem marca “almoços, jantares, viagens, passeios, brunch” para “conversar”, “às vezes sobre oncologia, outras sobre sexo, menopausa, trabalho”.
As metástases no pulmão: “Tirei tudo, vou seguir a minha vida”

Tudo parecia estar a correr bem. “Uma peça importantíssima para a cura é a remoção do tumor ou da área onde o tumor já esteve”, explica Daniela Macedo — essa parte estava feita. Mas num cancro da mama triplo negativo as recidivas são comuns e “a maior parte ocorre nos primeiros três anos”. “A partir dos cinco a probabilidade já é bastante baixa”.
Antes da etapa dos três anos, Cristina percebeu que tinha metástases no pulmão. Não tinha qualquer sintoma, fazia cycling e pilates quatro a cinco vezes por semana e não sentia fadiga, mas um exame de rotina revelou dois nódulos no pulmão esquerdo.
Aquelas células alojadas no pulmão estavam provavelmente “adormecidas”. “Os tumores, numa fase inicial da sua vida, emitem células que entram em circulação através do sistema linfático ou da corrente sanguínea”, diz a oncologista. Só quando as condições no corpo se tornam “favoráveis novamente” vão “fazer o seu circuito, muitas vezes posicionando-se noutros órgãos”.
A partir do momento em que há metástase, não se fala de cura, mas sim de controlo. “Vamos ter de conviver com essa doença e torná-la crónica, ou seja, fazer com que esteja o máximo de tempo possível quieta, sem provocar outras alterações ou problemas para o doente”, descreve Daniela Macedo.
Em novembro de 2023 foi operada, tirou uma parte do pulmão, três dias depois estava em casa “com poucas dores” e “passado uma semana já guiava”.
“Foi só desta vez, tirei tudo, vou seguir a minha vida”. Não foi preciso sequer fazer quimioterapia porque não havia “nenhuma massa”, só os exames passaram a ser mais recorrentes, de três em três meses.
Uma dor de cabeça, uma TAC, um novo diagnóstico
Em fevereiro de 2024 viajou para Agadir com o marido e com o filho — uma “viagem muito curta que foi o suficiente para ter uma dor de cabeça horrível”. Durante a estadia em Marrocos tomou medicação, mas no voo de regresso para Lisboa a dor voltou. “Senti que a minha cabeça ia explodir”, recorda. “Assim que cheguei, fiz uma TAC [tomografia computorizada] e surgiu um tumor no meu cerebelo”.
“Foi a primeira vez que me vi realmente nervosa e com muito medo”, esse diagnóstico teve um impacto diferente dos outros: naqueles 20 dias de internamento que antecederam as sete horas de operação teve de se “resguardar”. Foi um “trabalho”, preparou-se para o pior, falou com o marido, com o filho e até o cão foi ao hospital. “Havia mais hipóteses de correr mal do que bem, estive mesmo na corda bamba”.
Desde o início, o marido foi “o rochedo”, a presença e apoio constante. As pessoas mais “difíceis”, a quem não quer causar preocupação, são os pais e o filho. Aos pais, contou tudo o que se passava desde o primeiro diagnóstico — eles iam reparar e não queria “passar pelo processo sozinha” — e são muito importantes na gestão familiar, já que é preciso “muito apoio” com “roupa, comida e para tomar conta” do filho.
A Lucas, de 12 anos, Cristina “foi contando aos bocadinhos”, recorrendo a livros. “Ele ficou muito assustado quando fiquei careca e odiou a minha peruca porque dizia que era um cabelo falso, que não era da mãe”. Hoje, pede para ser Cristina a ir buscá-lo à escola porque “as amigas têm saudades de a ver”, gosta dos turbantes que usa e diz-lhe que é bonita. “Há coisas que não lhe conto para não infernizar o gaiato”, só lhe chega informação filtrada, nada que possa causar alarme.
O tumor no cerebelo foi retirado e no dia seguinte Cristina saiu dos cuidados intensivos. Conseguia andar, ainda que desequilibrada já que aquela zona desempenha um papel essencial no equilíbrio, e quando pediu alguma coisa para comer ou beber ao marido, ele não escondeu o espanto: “Como é que tu consegues estar a falar sobre isto quando acabaste de ser operada à cabeça?”. “Eu não percebia muito bem o que ele estava a dizer, só queria entrar na minha rotina, que andar fosse normal, que ir à casa de banho fosse normal, arranjar-me, pôr os meus cremes”, conta.
Mais um tratamento que “adorava que fizesse efeito”
Aos poucos, a rotina foi entrando nos eixos, mas esta operação deixou Cristina “mais debilitada”. Começou a fazer quimioterapia semanal, voltaram a surgir metástases na cabeça, “mas eram pequeninas e foi possível eliminá-las com radiocirurgia”. Essa quimioterapia não estava a funcionar, trocou, mas em março de 2025 as metástases apareceram na cabeça, no pulso e na omoplata — passaram também para os ossos.
“Estou no terceiro tratamento de quimioterapia e adorava que fizesse efeito para me dar algum descanso destas metastizações chatas”. A cada mês e meio faz uma ressonância magnética à cabeça e um PET: “Estou muito bem vigiada, mas são exames muito duros”. O trabalho na gráfica que criou foi mudando, já não trabalha diretamente com clientes, mas dá “apoio quando é necessário”. “Pensar noutras coisas e ter interesses” é muito útil.
O trabalho que faz na revista afasta aquilo que chama de “pensamento oncológico”, o agigantar da sensação de “finitude”, as “notícias difíceis” que pode ter de dar e aceitar “algumas coisas muito complicadas”, como ter de ficar careca para sempre ou nunca mais poder conduzir uma mota. Este último é um luto em processo, entre tratamentos, ainda voltou a conduzi-la, mas agora os médicos proibiram-na, já não é seguro. “Parece uma coisa superficial, mas faz parte da vida. Eu quero viver muito e vou fazer de tudo para viver o máximo possível, mas tenho de fazer este luto”.
As viagens sempre fizeram parte da vida de Cristina, que já visitou cinco continentes — na altura em que conversou com o Viral, tinha regressado há um mês do Japão. A viagem estava marcada para 2024, mas devido à cirurgia e tratamentos a que foi submetida, acabou por ser adiada. Parou os tratamentos durante três semanas, fez as malas, pegou na “mochila dos medicamentos” e entrou num avião. O filho andava há anos a pedir para visitar o país, “era o sonho da vida dele”, conta. Sonho concretizado e, para Cristina, objetivo cumprido e baterias recarregadas: “Foi um boost enorme”, descreve. “Agora é hora de hospitais, tratamentos, exames, mas quero lá saber”, escreveu numa publicação sobre a viagem.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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