“Não é normal” as crianças ressonarem? Quando procurar ajuda?
Nas redes sociais, sugere-se que “não é normal” as crianças ressonarem, sobretudo se for persistente. De acordo com algumas publicações, o ressonar nas crianças pode indicar problemas de saúde. Será mesmo assim? Quais as causas do ressonar nas crianças? Quando procurar ajuda?
O ressonar das crianças “não é normal”? Quais as causas?
Em declarações ao Viral, Catarina Ferraz, pediatra e professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), explica que “a roncopatia persistente (termo médico para ressonar) nunca é normal”.
Quando as crianças ressonam, pode haver várias possíveis justificações que devem ser tidas em conta, sendo esta uma questão “multifatorial”, com influência “genética” e de outras doenças (ver também aqui e aqui).
Uma das situações mais banais, e que à partida não é motivo para preocupação, é quando “a criança só ressona porque está constipada e tem o nariz entupido, obstruído”, aponta.
Na perspetiva da pediatra, “os pais não devem ficar demasiado alarmados nessas alturas, porque é normal ressonar por causa de uma obstrução nasal, desde que seja transitório, ou seja, passando o período agudo, a criança deixa de ressonar”.
Por exemplo, acrescenta, “as crianças com rinite alérgica têm mais predisposição para ter roncopatia, porque têm muito mais vezes obstrução nasal”.
Por outro lado, crianças com determinadas “anomalias no crânio, na face, e a nível neuromuscular têm menos capacidade de inspiração durante os ciclos respiratórios”, fazendo com que sejam mais propícias a desenvolver “roncopatia e síndrome de apneia obstrutiva do sono” (que provoca interrupções da respiração durante o sono).
É comum, também, tanto nas crianças como nos adultos, que quem tem apneia do sono também tenha roncopatia, já que o ressonar é um dos sintomas da doença.
Além disso, o ressonar nas crianças também pode ser causado por “amígdalas e adenóides grandes”. Muitas vezes, são crianças com “otites e amigdalites de repetição e têm uma voz mais anasalada, precisamente porque respiram mais pela boca”, esclarece Catarina Ferraz.
Quando procurar ajuda?
“Sempre que uma criança ressona de forma recorrente, consistente e com paragens respiratórias”, deve-se consultar um médico, “para poderem ser pesquisados outros sinais e avaliar o grau de perturbação respiratória do sono”, recomenda-se num guia explicativo do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
Ainda se destacam como sinais de alerta, durante o sono: “esforço respiratório”, “sono agitado”, “transpiração excessiva”, “enurese (urinar na cama)”, “sonambulismo”, “pesadelos” e “dormir em posições estranhas e/ou queixas de insónia”.
Durante o dia é importante tentar perceber se a criança tem: “dificuldade em acordar”, “queixas de dor de cabeça”; “falta de apetite de manhã”, “sonolência excessiva”, “alterações de comportamento (como irritabilidade, hiperatividade ou agressividade)” e “dificuldades de aprendizagem”, refere-se no mesmo texto.
Qual o tratamento?
Segundo Catarina Ferraz, o tratamento da roncopatia na criança depende das causas. Por exemplo, quando a criança é saudável e “só tem amígdalas e/ou adenoides grandes, basta ser operada”.
Dependendo dos casos, “podem ser retirados apenas os adenóides ou só as amígdalas, ou os dois”, ou apenas parte deles.
Em crianças com problemas respiratórios, como asma e rinite, é importante que a doença esteja controlada, através de medicação oral ou nasal adequada, refere-se no site do SNS 24.
Quando a roncopatia é causada pela síndrome da apneia obstrutiva de sono, é fundamental tratar esta condição. Tal como explica Catarina Ferraz, em casos onde se verifica obesidade, o tratamento passa por perder peso e adotar hábitos de sono saudáveis (ver também aqui e aqui).
“Em situações muito específicas pode estar recomendada a ventilação não invasiva, que ajuda as crianças a respirar à noite com ajuda de um ventilador, através de uma máscara”, refere-se no guia do SNS 24.
Catarina Ferraz sublinha a importância de se tratar as condições associadas à roncopatia, porque têm um grande impacto na qualidade do sono e, por consequência, na qualidade de vida.
As crianças que ressonam de forma persistente “vão despertando durante a noite e acabam por não ter um sono reparador”. Por esse motivo, “durante o dia, não estão completamente funcionais, ou estão muito irritadas, agitadas, e, por norma, na escola, estão muito menos atentas e menos concentradas”, sublinha a médica.