Sente-se mais cansado e irritadiço? Como “sobreviver” à astenia da primavera
Já deu por si, num dia de plena primavera, a sentir-se exausto sem razão aparente? Também notou alguma dificuldade em concentrar-se e alterações no sono assim que a estação mudou? Pode estar a passar pela astenia da primavera.
Mas o que é a astenia da primavera? E como ultrapassá-la? É necessário ajuda médica? O Viral foi à procura de respostas.
O que é a astenia da primavera?
A astenia da primavera “não é uma doença, mas sim um conjunto de sintomas que surgem com frequência nesta altura do ano”, começa por explicar, em declarações ao Viral, Deolinda Chaves Beça, especialista em Medicina Geral e Familiar e membro do Grupo de Estudos de Gestão em Saúde (GEST) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF).
Este conjunto de sintomas, adianta a médica, é um fenómeno temporário, que geralmente não necessita de intervenção médica específica, e que ocorre quando o corpo precisa de se adaptar às novas condições ambientais da estação.
Este ajuste do organismo pode causar uma espécie de “curto-circuito”, provocando “fadiga sem causa aparente, dificuldades de concentração, alterações no sono, irritabilidade, apatia, dores de cabeça ou musculares, quebra de libido e até sentimentos de tristeza”, descreve a médica.
Para algumas pessoas, a mudança da hora intensifica ainda mais o desequilíbrio. O relógio adianta-se, mas o corpo demora a acompanhar.
“Essa mudança de uma hora pode não parecer muito, mas pode afetar a curto prazo o bem-estar mental e físico das pessoas”, sublinha Charles Czeisler, professor de medicina do sono na Divisão de Medicina do Sono da Harvard Medical School, num artigo publicado no site da universidade.
Além disso, com o pólen no ar (que desencadeia alergias), a pressão social para “aproveitar os dias mais longos” e o regresso a rotinas mais exigentes, forma-se, nesta altura, “o cocktail perfeito para o cansaço primaveril”, aponta Deolinda Chaves Beça.
“Com a chegada da primavera, os dias tornam-se maiores, a luz solar aumenta, e com isso há uma alteração na produção de melatonina (hormona do sono)”, sustenta. Este reequilíbrio hormonal “pode causar instabilidade nos ritmos biológicos, afetando o sono e os níveis de energia”, salienta ainda.
Também do ponto de vista psicológico, a transição do inverno para a primavera pode desencadear uma necessidade de adaptação da mente.
“Se, no inverno, os dias são caracterizados por uma menor exposição à luz solar, que pode afetar a produção de serotonina (um neurotransmissor essencial para a regulação do humor), a chegada da primavera leva a uma maior exposição solar e ao aumento das temperaturas, que podem causar sentimentos de ansiedade, irritabilidade ou desconforto, especialmente em pessoas sensíveis a mudanças sazonais”, explica ao Viral o psicólogo clínico Fernando Mesquita.
Apesar de existir uma explicação para o que o corpo está a sentir, a astenia primaveril não se encontra nos catálogos oficiais de doenças.
Quem tem maior probabilidade de ser afetado?
Nem todas as pessoas são afetadas pela chegada da primavera e as que são não têm todas os mesmos sintomas.
No entanto, quem tem quadro prévio de ansiedade ou depressão, hábitos sedentários ou quem sofre de alergias sazonais tende a ser mais suscetíveis a serem afetadas pela astenia primaveril.
Quem também pode ser mais vulnerável, em termos de faixas etárias, são os adolescentes e idosos, cujos ritmos biológicos são mais frágeis, refere a médica de clínica geral e familiar.
Como distinguir entre astenia e depressão?
A principal diferença entre a astenia da primavera e a depressão está na duração e na intensidade dos sintomas.
Enquanto a astenia primaveril é, geralmente, temporária, “com sintomas que duram apenas dias ou semanas“, a depressão manifesta-se através de sintomas mais severos, que se mantêm de forma persistente e que interferem significativamente nas atividades do dia a dia, distingue o psicólogo consultado pelo Viral.
O que fazer para combater a astenia da primavera?
É certo que não existem fórmulas mágicas, mas é fundamental perceber que a astenia da primavera não é uma doença e é superável, alerta Deolinda Chaves Beça.
No entanto, há rotinas que pode adotar para ajudar a sintonizar o corpo com a nova estação:
- Faça exercício físico ao ar livre: o exercício físico moderado, preferencialmente ao ar livre e à luz do dia, pode ser um excelente aliado. Uma caminhada matinal tem efeitos poderosos no ritmo circadiano;
- Alimente-se com inteligência: opte por frutas e vegetais frescos, frutos secos, legumes, cereais integrais e evite excessos de açúcar, álcool e alimentos processados;
- Respeite o sono: mantenha horários regulares para dormir e acordar, tente evitar ecrãs antes de dormir e garanta um ambiente calmo para descansar;
- Hidrate-se e respire: beba água suficiente e pratique respiração profunda para acalmar o sistema nervoso;
- Simplifique a agenda: não sobrecarregue os dias com tarefas. A transição de estação pede suavidade e não aceleração;
- Interaja com outras pessoas: como por exemplo, amigos ou familiares;
- Pratique técnicas de relaxamento e meditação mindfulness.
Quando procurar ajuda médica?
Se o cansaço não passar ao fim de algumas semanas, ou se se intensificar, interferindo com a vida pessoal ou profissional, é fundamental consultar um profissional de saúde.
Ainda assim, deve ficar alerta se a fadiga vier acompanhada de sintomas como perda de peso inexplicada, dificuldade em adormecer ou em manter o sono, desinteresse por atividades que antes davam prazer, ou exaustão contínua mesmo após dormir.
Como lembra Deolinda Chaves Beça, “se o corpo está a sussurrar que precisa de abrandar, escute-o”.