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Comer a placenta após o parto faz bem à mãe? Tem riscos? 

15 Mai 2024 - 09:57

Comer a placenta após o parto faz bem à mãe? Tem riscos? 

A ingestão da placenta após o nascimento do bebé – seja crua, cozinhada, em batidos ou em cápsulas – tem sido apresentada nas redes sociais como uma prática com benefícios para a saúde da mãe. E, nos últimos anos, várias celebridades nacionais (como, por exemplo, Jéssica Athayde e Blaya) e internacionais (como Hillary Duff e Kim Kardashian) admitiram ter adotado esta abordagem.

No Facebook, circulam vários posts sobre os alegados benefícios da placentofagia, nome dado ao ato de comer a placenta (órgão que se forma durante a gravidez que tem a função de transportar oxigénio e nutrientes necessários para o desenvolvimento do bebé). 

Em algumas destas publicações afirma-se que esta é uma prática “natural entre mamíferos” e “muito comum também em aldeias e povos indígenas”, sendo um “ritual espiritual”.

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No que toca aos supostos benefícios para a saúde, alega-se que a ingestão da placenta “ajuda a diminuir a sensação de fadiga no corpo”, “auxilia no tratamento e na prevenção da depressão pós-parto”, estimula “a libido” e contribui ainda para o “processo de aleitamento”, aumentando “a produção de leite”.

Mas o que diz a ciência? A placentofagia é uma prática com benefícios comprovados? E poderá ter riscos para a mãe e para o bebé? Em declarações ao Viral, dois especialistas explicam o que se sabe sobre esta prática.

Comer a placenta tem benefícios para a saúde da mãe?

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As listas de supostos benefícios da ingestão da placenta apresentadas nas redes sociais não têm correspondência com os artigos científicos publicados sobre este assunto. Ou seja, não há evidência robusta que prove os alegados efeitos positivos da placentofagia para a grávida e para o bebé. Pelo contrário, esta prática pode ter riscos.

Em declarações ao Viral, Álvaro Cohen, diretor do Centro de Responsabilidade Integrada de Medicina e Cirurgia Fetal da Maternidade Alfredo da Costa, explica que, “do ponto de vista científico, até aos dias de hoje, não existe uma única prova cabal de que ingerir a placenta possa trazer algum benefício”.

No mesmo sentido, Cláudia Sofia Marques, investigadora e professora na NOVA Medical School, sublinha que os benefícios relacionados com a regulação do humor e a prevenção da depressão pós-parto também “não foram até ao momento provados nos estudos já conduzidos”, pelo que os relatos de melhoria podem dever-se ao “efeito placebo”.

“Quando a placenta é ingerida, as mulheres afirmam sentir-se melhor, mas o mesmo aconteceria se o que estivesse dentro das cápsulas fosse outra coisa em vez da placenta”, esclarece ainda.

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A investigadora lembra que, as “necessidades nutricionais” da mulher – que estão aumentadas na fase da lactação – podem ser garantidas através “de uma alimentação equilibrada” ou recorrendo à suplementação (se necessário, para colmatar o défice de nutrientes). 

Em vários artigos científicos publicados, os investigadores procuram validar os benefícios de ingerir a placenta em humanos, contudo as conclusões seguem o mesmo sentido: não existe evidência robusta que comprove os alegados efeitos positivos.

Num estudo, publicado em 2020, em que foram analisados os benefícios e efeitos adversos da placentofagia em humanos e mamíferos não humanos, concluiu-se que “não existe investigação científica sobre os efeitos benéficos da placentofagia humana e as informações disponíveis são principalmente boatos”.

Anos antes, outro artigo referia que, apesar das alegações de que a ingestão de placenta é benéfica para a saúde física e mental das mães, “faltam evidências robustas para fundamentar muitos desses relatos”.

Também uma revisão publicada em 2018 destaca que “não hã evidência científica de qualquer benefício clínico da placentofagia entre humanos” e que “nenhum nutriente e hormona placentário é retido em quantidades suficientes após o encapsulamento da placenta para ser potencialmente útil para a mãe no pós-parto”.

Quais os riscos associados à placentofagia para a mãe e para o bebé?

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Além de não existirem “provas científicas” que atestem os benefícios da ingestão de placenta, Álvaro Cohen lembra que esta prática “pode ter consequências de extrema gravidade” para a mãe e para o bebé

“A placenta é um ‘filtro’ para proteger o bebé e pode conter partículas virais ou microbianas, transformando-se, quando ingerida, num transmissor de doenças”, esclarece o ginecologista e obstetra com diferenciação em medicina fetal.

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Cláudia Sofia Marques alerta que as bactérias e os vírus “podem não ser destruídos durante a preparação da placenta para consumo”, acrescentando que existem relatos de mulheres que “ingeriram as placentas curas, cozinhadas ou encapsuladas”.

O Centro norte-americano para o Controlo e Prevenção de Doença (CDC, na sigla inglesa) relatou, em 2017, o caso de um bebé que foi contaminado pela bactéria Streptococcus agalactiae do grupo B (GBS) depois de a mãe ter tomado cápsulas de placenta contaminada. 

“Neste caso, o aquecimento [da placenta] durante tempo suficiente a uma temperatura adequada para reduzir a quantidade de bactéria GBS não terá sido alcançado. O consumo de cápsulas de placenta contaminada terá elevado a colonização de GBS intestinal e cutânea da mãe, facilitando a transferência para o infante”, explica o CDC.

A organização de saúde aconselha a “evitar” o consumo destas cápsulas, sublinhando que “não existe um processo estandardizado” que permita eliminar bactérias que possam existir na placenta.

Além das bactérias e vírus, a placenta atua também como “filtro” para toxinas, podendo acumular “compostos tóxicos e metais pesados como chumbo, mercúrio e arsénio”, acrescenta Cláudia Sofia Marques. Em alguns casos, a concentração destes elementos tóxicos pode fazer com que a placenta não seja adequada para consumo.

Também o processo de conservação da placenta até à ingestão é importante para prevenir complicações. “Se não for refrigerada logo após o nascimento, a placenta começa a degradar-se e, tal como a carne crua, precisa de ser refrigerada e armazenada com boas condições de higiene para prevenir uma possível toxinfeção alimentar”, explica a investigadora da NOVA Medical School. 

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Um estudo norte-americano, publicado em 2019, identificou que perto de 25% mulheres puérperas consumiram a placenta, motivadas por “benefícios não provados” sobre a prevenção da depressão pós-parto e anemia. 

Os investigadores alertam que é necessário criar “um processo de preparação seguro e estandardizado” para “minimizar potenciais riscos antes que mais estudos de eficácia sejam realizados”.

Em suma, os benefícios associados à placentofagia não são suportados por evidência científica robusta. Não há provas científicas de que a ingestão de placenta ajude a prevenir e tratar a depressão pós-parto ou a aumentar a produção de leite. Além disso, a placenta tem uma função intrauterina de “filtro”, podendo acumular bactérias, vírus e elementos tóxicos que poderão ser prejudiciais à mãe e ao bebé.

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Gravidez

15 Mai 2024 - 09:57

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