Cirurgia com implante de um dente no olho faz recuperar a visão? O que se sabe até agora
Em várias publicações partilhadas nas redes sociais fala-se de uma suposta cirurgia inovadora que permite recuperar a visão chamada osteo-odonto-queratoprótese. Segundo os posts, este procedimento consiste no implante de um dente no olho e é indicado para doentes com cegueira devido a problemas na córnea.
Em termos práticos, refere-se num dos vídeos partilhados no TikTok, é extraído um dente, “geralmente um canino superior ou inferior”, que “é cortado longitudinalmente e polido para criar uma lâmina com um orifício no meio”, onde será colocada “uma lente ótica”.
Esse “conjunto será implantado inicialmente na bochecha do paciente”, durante três meses, para permitir a “formação de tecido conjuntivo e de vasos sanguíneos”. Após esse período, “o dente é transferido para o olho, substituindo a córnea danificada”, sugere-se no mesmo vídeo. Esta cirurgia existe mesmo? Um implante no olho faz recuperar a visão?
O que é a cirurgia com implante de um dente no olho? Faz recuperar a visão?
Em declarações ao Viral, Eugénio Leite, oftalmologista das Clínicas Leite, adiante que a técnica referida nas redes sociais existe e trata-se de “um procedimento raro e inovador chamado osteo-odonto-queratoprótese” (OOKP – osteo-odonto-keratoprosthesis, em inglês), “muitas vezes descrito popularmente como ‘colocar um dente no olho para recuperar a visão’”.
Segundo o médico, esta técnica “destina-se a pessoas que perderam a visão devido a lesões graves na córnea – muitas vezes provocadas por queimaduras químicas, doenças autoimunes ou cicatrizes severas – e que não respondem a tratamentos convencionais, como os transplantes de córnea”.
É um procedimento “complexo”, “feito em duas fases” e que “requer uma equipa multidisciplinar”, com “oftalmologistas, cirurgiões maxilofaciais e anestesistas”.
Numa primeira fase, explica Eugénio Leite, “os médicos retiram um dente do próprio paciente, geralmente um canino, e moldam-no em forma de pequeno bloco”.
No centro, “abrem um orifício para encaixar uma lente de acrílico” e esse dente, agora “transformado em suporte de lente”, é “implantado temporariamente na bochecha, onde fica algumas semanas a ganhar vascularização”, prossegue o especialista.
A segunda fase consiste em preparar “o olho cego” e em colocar o implante no olho doente. “Removem-se as estruturas danificadas e reveste-se a superfície ocular com mucosa retirada do interior da boca”, refere Eugénio Leite.
Depois, o implante “é colocado no olho, com a lente a funcionar como nova janela para a entrada da luz”.
Apesar de ser “uma técnica considerada revolucionária” e promissora, ainda é um procedimento “em fase experimental”, sublinha o oftalmologista (ver também aqui, aqui e aqui).
De facto, os “estudos indicam acuidade visual recuperada em até 80-90% dos doentes durante os primeiros anos após a cirurgia”.
Refere-se que o procedimento, nos casos de sucesso, “devolve a perceção de formas, cores e leitura em doentes que estavam cegos”, esclarece.
No entanto, são necessários mais estudos robustos, pois ainda não é possível confirmar que esta técnica é segura e eficaz.
Assim, até ao momento, trata-se de “uma cirurgia rara, realizada apenas em centros altamente especializados, e considerada um último recurso, quando todas as outras terapias falharam”, salienta Eugénio Leite.
São várias as questões de eficácia e de segurança que ainda se impõem. Por um lado, em termos de eficácia, a dúvida é até que ponto todas as pessoas submetidas a este procedimento vão recuperar a visão.
Isto porque, sugere o médico, antes da cirurgia, “a córnea tem de estar transparente”, caso contrário, depois do implante do dente, a pessoa vai continuar a ver “como se tivesse um vidro sujo” no olho.
Além disso, é importante salientar os potenciais riscos e complicações associados ao procedimento. Para já, é uma cirurgia que, “a longo prazo, exige acompanhamento contínuo”, refere.
“Como é uma cirurgia muito invasiva, pode haver infeções, necrose do implante, descolamento da retina ou glaucoma”, sublinha o oftalmologista. Em casos potencialmente muito graves, pode “ser necessário retirar o olho”, acrescenta.