Cancro do pâncreas é um dos mais mortais. Perceba porquê
Esta semana, foi noticiada a morte de Paul Teal, mais conhecido por participar na série “One Tree Hill”. O ator norte-americano tinha 35 anos e tinha um cancro do pâncreas desde abril deste ano.
Tendo em conta o número de novos casos, o cancro do pâncreas é, de facto, um dos mais mortais. De acordo com os dados do Observatório Global do Cancro (GCO, na sigla inglesa) da Organização Mundial da Saúde (OMS), o cancro do pâncreas ocupa o 12º lugar na classificação de número de casos, mas sobe para sexto lugar no que toca à mortalidade. Mas o que justifica este cenário?
Porque é que o cancro do pâncreas é um dos mais mortais?
Existem vários fatores que contribuem para o número de mortes associado ao cancro do pâncreas, sendo que “o diagnóstico tardio” é o principal. Quem o diz, em declarações ao Viral, é a oncologista Ana João Pissara.
A médica começa por explicar que existem vários tipos de cancro do pâncreas, mas “o mais frequente é o adenocarcinoma do pâncreas”, que corresponde a cerca de “75% a 90% dos casos”.
O problema principal, neste contexto, é que “80% dos doentes são diagnosticados em estadios avançados”, refere Ana João Pissarra.
Isto deve-se à dificuldade em fazer um diagnóstico precoce. “Muitas vezes, numa fase inicial, este cancro não dá sintomas” ou, a existirem, “os sintomas são muito inespecíficos”, esclarece.
Por norma, a pessoa sente “cansaço, perda de apetite, perda de peso, náuseas e dor abdominal” (ver também aqui, aqui e aqui).
Como são sintomas comuns a várias doenças e que, aparentemente, podem parecer inofensivos, “as pessoas acabam por desvalorizar”, salienta a oncologista.
Se o cancro “estiver localizado na chamada cabeça do pâncreas, como comprime as vias biliares, às vezes, pode dar sintomas precocemente”. No entanto, na maioria dos casos isso não acontece.
“O pâncreas é uma glândula localizada perto da parte de trás do estômago”, fazendo com que só haja “sintomas quando a doença é já é muito expressiva e está mais avançada”, aponta a especialista.
Aí, já há “uma dor muito marcada” e, quando o doente vai ao médico, normalmente, percebe-se que a doença está “numa fase mais avançada, em estadio 4”.
Os tumores, nesta fase, já não são possíveis de remover através da cirurgia, porque já têm “metástases”, ou seja, espalharam-se para outros órgãos.
É comum isto acontecer quando se tem cancro do pâncreas. Segundo Ana João Pissara, como o pâncreas “está muito próximo de outros órgãos, rapidamente ocorrem metástases hepáticas e peritoneais, ou seja, ele dissemina-se pelo organismo” (ver também aqui).
Além de “terem muitas mutações”, são cancros “muito resistentes aos tratamentos”, prossegue.
Tem sido feita muita investigação na área do cancro do pâncreas, mas ainda não foi encontrada “uma terapêutica eficaz e que mudasse o paradigma da doença, como já aconteceu noutros tumores”, refere a médica.
Atualmente, apenas cerca de 20% dos doentes “são diagnosticados em fases iniciais, que permitem a cirurgia”.
Na maioria dos casos, “o prognóstico é muito reservado” e “o único tratamento é, de facto, a quimioterapia e a imunoterapia”.
A evidência indica que, em estadios avançados, “os doentes que fazem quimioterapia têm uma sobrevivência mediana que ronda mais ou menos os 12 meses”, conclui.
Quais os fatores de risco para o cancro do pâncreas?
Ana João Pissarra explica que o cancro do pâncreas é mais comum em pessoas “acima dos 50 anos”.
No entanto, apesar de não ser o mais frequente, “temos visto – e isto é transversal a outros tumores – um aumento da incidência dos cancros do pâncreas em pessoas mais jovens”, realça.
Ainda que não se saiba as causas diretas do cancro do pâncreas nem como fazer um diagnóstico precoce, “estão identificados alguns fatores de risco” para a doença.
Segundo a especialista, tanto “a obesidade” como “o tabagismo” e “o alcoolismo” são considerados “fatores de risco para o desenvolvimento do cancro do pâncreas”.
Quem tem “pancreatites crónicas” também tem um risco acrescido.
Apesar de ainda não haver “uma associação bem comprovada”, há uma percentagem de doentes com cancro do pâncreas “que tiveram diagnóstico recente de diabetes do tipo 2”, acrescenta.
Outros fatores de risco, apontados num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), são ter “determinado tipo de quistos (mucinosos) do pâncreas” e ter “predisposição familiar”, ou seja, “o risco de desenvolver cancro do pâncreas é superior nos familiares de 1º grau (pais, irmãos ou filhos) que tenham ou tiveram a doença (particularmente quando esta surge antes dos 50 anos)”.
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