Calor extremo pode ser mais perigoso para idosos do que se pensava. O que revela um novo estudo
Um estudo publicado recentemente na revista científica The Lancet Planetary Health sugere que o calor extremo pode ser mais perigoso para as pessoas com 60 ou mais anos do que até agora se sabia. Segundo o trabalho, um aquecimento global de apenas 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais já é suficiente para expor esta faixa etária a stress térmico prejudicial.
O problema tende a agravar-se, sendo que, segundo a investigação, a população mundial com 60 ou mais anos deverá duplicar, passando de mil milhões em 2020 para 2,1 mil milhões em 2050. Ou seja, mais pessoas vão entrar precisamente no grupo que o estudo identifica como mais vulnerável ao calor.
Em declarações ao Viral, Matilde Ourique, médica de saúde pública na Unidade Local de Saúde de Santa Maria e membro suplente da direção da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), explica o que este trabalho traz de novo e o que significa para a saúde dos mais velhos.
O que há de novo neste estudo
Segundo a especialista, a principal novidade não é a existência do problema, pois a ligação entre calor e mortalidade já era conhecida, mas o facto de o estudo se centrar também nos mais velhos, em vez de usar jovens adultos como referência universal, como é habitual.
“Em vez de olhar só para uma população de jovens adultos como padrão, [o estudo] traz pela primeira vez a preocupação de estudar uma população vulnerável, que são as pessoas a partir dos 60 anos”, explica Matilde Ourique.
A médica refere que se trata de um estudo de projeção em que os investigadores simularam, em ambiente laboratorial controlado, diferentes grupos etários expostos a condições de calor e humidade crescentes, para identificar o ponto a partir do qual o organismo deixa de conseguir compensar o aumento de temperatura.
Esses limiares foram depois cruzados com projeções climáticas e demográficas para diferentes regiões do mundo e diferentes cenários de aquecimento – 1,5 °C ou 4 °C, por exemplo – para estimar quantas pessoas poderão vir a estar expostas a níveis de calor perigosos.
Porque é que o corpo de uma pessoa mais velha reage de forma diferente?
A idade é, por si só, um fator de risco identificado no estudo. Com o envelhecimento, o organismo perde parte da capacidade de mobilizar os mecanismos que ajudam a regular a temperatura corporal, como a produção de suor, o aumento da frequência cardíaca ou o redirecionamento do fluxo sanguíneo para a pele.
“Um indivíduo mais velho precisará de maiores esforços do seu organismo para reagir [ao calor] em comparação com um indivíduo mais jovem”, sublinha a médica. Matilde Ourique explica que em condições de calor e humidade extremos, essa menor reserva fisiológica exige mais dos órgãos, sobretudo coração, pulmões e rins, para manter o equilíbrio.
Segundo os dados do estudo, com um aquecimento de apenas 1,5 °C, cerca de 22% da população mundial com mais de 60 anos, perto de 290 milhões de pessoas, ficará exposta a calor perigoso durante, pelo menos, um mês por ano.
A médica adverte, no entanto, que estes números não são uma certeza sobre o que vai acontecer, mas um aviso: “Não querendo dizer que vai ser esse o cenário futuro (…) isto dá-nos espaço para implementar medidas preventivas, e é sempre aí que, em saúde pública, queremos atuar”.
Sinais a que idosos e cuidadores devem estar atentos
Um dos aspetos mais destacados pela especialista é a dificuldade que muitas pessoas mais velhas têm em reconhecer os próprios sinais de desidratação, como a sensação de sede ou boca seca, o que torna essencial o papel de quem as rodeia.
“Há uma perda de capacidade de identificar alguns sinais suscetíveis de desidratação (…) aqui o apoio social à volta é muito importante”, reitera. Matilde Ourique alerta em particular para o isolamento social como um fator que agrava o risco e defende redes de vizinhança e comunidades capazes de identificar sinais como a desorientação ou uma maior irritabilidade.
Entre as recomendações práticas que deixa está a monitorização do débito urinário – uma estratégia já usada em crianças, mas que a médica considera igualmente útil em idosos ou pessoas dependentes. Isto implica observar a cor da urina (uma urina muito concentrada é sinal de hidratação insuficiente) ou contabilizar o número de fraldas trocadas ao longo do dia, no caso de quem as utiliza.
Medidas de prevenção: do copo de água ao ordenamento do território
Matilde Ourique diz que as recomendações mais conhecidas mantêm-se válidas: beber água regularmente (a médica menciona a referência de um litro e meio por dia, sempre ajustada com aconselhamento médico, sobretudo em pessoas com doença cardiovascular), procurar ambientes frescos e evitar exposição direta ao sol nas horas mais quentes.
Mas a especialista insiste que a resposta não pode ficar apenas ao nível individual. Aponta a criação de sombra nas cidades, a preparação dos serviços de saúde para picos de procura durante ondas de calor e a garantia de acesso a ambientes com refrigeração como medidas coletivas indispensáveis, ligadas ao ordenamento do território e à organização dos serviços públicos.
Quanto a quem ainda duvida que as ondas de calor sejam motivo de preocupação especial para os mais velhos, a médica defende: “Isto não é uma questão de opiniões, é uma questão de ciência e factos (…) existe evidência de que o calor afeta a saúde, e não é só a saúde dos mais velhos”.
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