Café em cápsulas faz mal? Tem alumínio? 3 perguntas e respostas com base na ciência
Numa publicação partilhada nas redes sociais alerta-se para os supostos perigos do café em cápsulas relacionado com a existência de alumínio nos materiais que compõem as cápsulas do café.
“Andamos todos muito intoxicados com alumínio”, afirma a interveniente do vídeo, defendendo que existe “uma correlação direta” entre “intoxicação de alumínio e casos de Alzheimer”.
O alumínio é um metal que existe na natureza e pode ser encontrado em diversos alimentos, incluindo no café. Mas será verdade que o café em cápsulas tem uma maior concentração de alumínio? E é perigoso para a saúde?
Duarte Torres, docente na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP) e investigador no Instituto de Saúde Pública da mesma universidade, explica ao Viral o que diz a ciência sobre este assunto.
Café em cápsulas tem mais alumínio do que outros cafés?
Além de os grãos de café poderem conter alumínio, também a forma como o café é “tirado” pode aumentar a concentração deste metal na bebida. “Nas cápsulas de alumínio ou de plásticos com folha de alumínio pode ocorrer migração [deste metal] para a bebida”, afirma Duarte Torres, ressalvando que alguns tipos de cápsulas já têm “barreiras que impedem a migração”.
Vários estudos analisaram a quantidade de alumínio em diferentes métodos de extração de café – cápsula, cafeteira ou filtro. Num artigo, publicado em 2020, afirma-se que “o café extraído das cápsulas de alumínio não apresenta uma concentração de alumínio significativamente maior do que outros aparelhos de extração”.
Também num estudo de 2021, refere-se que, “embora os selos das cápsulas sejam uma importante fonte de alumínio”, a migração “do alumínio [presente] no selo para o café é apenas marginal”. Os investigadores garantem que um consumo diário de café de cápsula (até cinco expressos por dia), “não representa um risco sério de saúde por contaminação de alumínio”.
Num outro artigo – em que se compararam diferentes extrações de café e descafeinado -, os investigadores concluíram que a concentração de alumínio no descafeinado era consideravelmente superior à do café. Referem ainda que “a quantidade de alumínio identificada no café é pelo menos duas vezes inferior à quantidade de alumínio descrita no chá de infusão ou no vinho”.
Duarte Torres esclarece também que, ao preparar café moído (utilizando cápsula, cafeteira ou filtro), “extrai-se uma pequena parte do alumínio que existe naturalmente no café”. Outras formas de produzir café (como o café solúvel ou instantâneo) podem implicar a ingestão de concentrações maiores de alumínio devido ao processamento e preparação da bebida.
A exposição ao alumínio através do café é perigosa para a saúde?
Duarte Torres lembra “não é possível eliminar a exposição ao alumínio”, principalmente no contexto da alimentação. “Nós estamos expostos ao alumínio de várias formas – frutas, vegetais, pão, etc.”, afirma, sublinhando que “o que interessa é que, globalmente, não se exceda o limite de segurança”.
Em 2008, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, na sigla inglesa) fez uma revisão do valor-limite para uma exposição segura ao alumínio: baixou para 1 miligrama por quilo por semana. Quer isso dizer que um indivíduo com 70 quilos poderá ingerir até 70 miligramas de alumínio por semana.
O painel de investigadores envolvido neste processo reconhece que este novo limite “é provável de ser excedido numa parte significativa da população europeia”. Em média, a exposição ao alumínio através da dieta varia entre 0,2 e 1,5 miligramas por quilo por semana. Nas crianças e jovens a exposição média é mais alta – entre 0,7 e 2,3 miligramas por quilo por semana.
A EFSA reconhece que a “maior fonte de exposição ao alumínio para a população geral é a dieta”. Os alimentos que contribuem para uma maior ingestão deste metal são “os cereais e produtos com cereais (como pão, bolos, biscoitos ou produtos de pastelaria), os vegetais (cogumelos, espinafres, rabanete e alface), as bebidas (chá ou cacau) ou algumas fórmulas para crianças”.
Duarte Torres afirma que “o café é um contribuidor relativamente baixo para a exposição a alumínio, mesmo num cenário de consumo elevado de café”. O especialista dá como exemplo um caso “extremo”: se um indivíduo de 50 quilos (peso abaixo da média para um adulto) ingerir cinco cafés por dia (um número considerado elevado), nos sete dias da semana, a concentração de alumínio “representará aproximadamente 1,5% do valor máximo a que o indivíduo pode estar exposto”.
Ingestão de alumínio aumenta o risco de Alzheimer?
De facto, sabe-se que o alumínio poderá ter efeitos neurotóxicos, mas ainda não existem evidências suficientes para provar uma relação causal entre a exposição a este metal e o aumento do risco de doença de Alzheimer. Duarte Torres reconhece que existe uma “plausibilidade biológica”, mas ressalva que “não parece existir evidência robusta”.
“Em termos epidemiológicos, é preciso saber se nas populações mais expostas a alumínio há mais casos de Alzheimer”, afirma, sublinhando que são precisos “mais dados para perceber se essa associação é uma relação causal”.
Num artigo publicado em 2017, as investigadoras consideram plausível que o alumínio possa contribuir para o aumento do risco de Alzheimer, mas ressalvam que “não foi ainda estabelecido que níveis de alumínio são necessários, quais os fatores essenciais ou quanto tempo de exposição é necessária para induzir défice funcional no cérebro”.
No parecer dos investigadores para a EFSA, refere-se que a ligação entre o alumínio e a doença de Alzheimer “permanece controversa”: “Com base nos dados científicos disponíveis, o painel não considera que a exposição ao alumínio através dos alimentos constitua um risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer”, pode ler-se no documento de 2008.
Em ambos os artigos, os respetivos grupos de investigadores reconhecem que o alumínio é um elemento neurotóxico e que já foram identificados efeitos negativos em doentes submetidos a diálise (que são cronicamente expostos a elevadas concentrações de alumínio).
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