Bruma íntima de Cristina Ferreira: É necessária? E tem riscos?
O lançamento de um novo produto pela apresentadora Cristina Ferreira está a dar que falar nas redes sociais. A Diretora de Entretenimento e Ficção da TVI anunciou, no Instagram, que iria lançar uma bruma íntima chamada “Pipy”, que, segundo a informação divulgada pela marca, “oferece uma sensação de frescura imediata” (com um aroma ainda não revelado) e “favorece a hidratação da pele junto da zona íntima”.
O “Pipy” foi “desenvolvido com uma fórmula sem álcool, com pH equilibrado compatível com a zona íntima externa que respeita o equilíbrio natural da pele”, pode ler-se na página oficial do projeto “Eu Sou Gira”. O produto foi “testado dermatologicamente e ginecologicamente”.
Segundo as indicações disponíveis no site, este produto deve ser aplicado “diretamente na zona íntima externa, mantendo uma distância segura”. Recomenda-se que o produto seja usado “diariamente, especialmente após o banho ou sempre que precisar de uma sensação extra de frescura”.
Mas que é uma bruma íntima e para que serve? Será necessário incluir este produto na rotina de higiene íntima? Existem riscos?
Em declarações ao Viral, Fernando Cirurgião, diretor do serviço de ginecologia e obstetrícia do Hospital Francisco Xavier, e Pedro Viana Pinto, assistente de ginecologia na Unidade Local de Saúde (ULS) de São João e professor assistente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), analisam os ingredientes deste produto e explicam os impactos que pode ter na saúde genital.
Qual o papel de uma bruma íntima na higiene genital da mulher? É necessária?
Na campanha publicitária, apresenta-se o “Pipy” como um produto que refresca, hidrata e perfuma a zona genital feminina, mas ambos os ginecologistas contactados pelo Viral garantem que não existe necessidade de usar uma bruma íntima para realizar uma higiene correta.
Fernando Cirurgião considera que este tipo de artigos “é dispensável” e “nada traz de benéfico”. Também Pedro Viana Pinto afirma que “a utilização não é, de todo, necessária”, mas ressalva que o produto, por si só, não é perigoso.
“Fundamentalmente, a bruma íntima é um hidratante com um odor que foi considerado agradável”, descreve o professor da FMUP.
Analisando a lista de ingredientes do “Pipy”, os dois especialistas consideram que a aplicação do produto, à partida, não representa um risco para a saúde quando aplicado esporadicamente numa vagina que esteja saudável. O pH neutro e a presença de ácido láctico podem ser elementos positivos para evitar desequilíbrios da flora vaginal.
“Esta bruma íntima tem essencialmente água e extratos de plantas (que também são utilizados em produtos de higiene íntima) com algum aroma, mas, à partida, não têm efeitos agressivos”, afirma Fernando Cirurgião.
Também Pedro Viana Pinto afirma que esta bruma íntima “parece não ser problemática, quando se usa ocasionalmente”. Contudo, o professor sublinha que este produto é novo no mercado e, por isso, não se conhecem os verdadeiros efeitos que terá na saúde da mulher – tanto positivos, como negativos.
Quais os riscos de utilizar uma bruma íntima? E os sintomas a ter em atenção?
Apesar de o produto parecer ser seguro, sabe-se que a utilização prolongada de brumas íntimas está associada a um aumento risco de desenvolver infeções vaginais. Esta consequência está relaciona com a forma como o produto se usa e não com os ingredientes que contém.
Por ser um produto líquido, a utilização excessiva do “Pipy” poderá tornar a zona da vulva mais húmida e, assim, criar um ambiente propício à “proliferação de microrganismos [fungos ou bactérias] ofensivos para a vagina”, alerta Pedro Viana Pinto.
Também Fernando Cirurgião reconhece que o aumento da humidade provocado por uma utilização exagerada destes cosméticos “poderá facilitar o desequilíbrio da flora vaginal” e levar ao aparecimento de infeções.
O ginecologista dá como exemplo o fungo Candida albicans, que “se dá muito bem num ambiente húmido e quente” e pode causar uma candidíase vaginal.
Uma infeção vaginal pode ter vários sintomas, tais como alterações do corrimento e do odor, aparecimento de prurido ou vermelhidão na região genital e ocorrência de ardor na vagina e na vulva.
A aplicação da bruma íntima pode também “mascarar” sintomas de infeção vaginal, alerta Pedro Viana Pinto. O especialista explica que “a alteração do odor do corrimento vaginal pode estar associada à proliferação de microrganismos patogénicos” e que a aplicação de um produto perfumado poderá estar a “mascarar” o sintoma, em vez de tratar a doença associada.
A aplicação do “Pipy” na vulva pode ainda desencadear reações alérgicas, à semelhança de outros cosméticos de aplicação tópica. O aparecimento de prurido ou fissuras na pele da região genital pode ser sinal de uma dermatite, explicam os especialistas.
“Se a aplicação do produto provocar comichão, deve parar de usar”, aconselha Pedro Viana Pinto, alertando que a alergia pode levar a um círculo vicioso, em que “o prurido faz coçar, o ato de coçar cria lesões e algumas perpetuam-se de forma crónica, obrigando a tratamentos mais difíceis”.
Caso sinta algum ardor no momento em que aplica a bruma íntima, deve parar de aplicar o produto e lavar a vulva de imediato, utilizando água abundante.