Calças e boxers apertados podem prejudicar produção de espermatozoides? O que sabe a ciência
Boxers largos, boxers apertados, cuecas, slips ou ceroulas: as opções de roupa interior masculina são muitas. O mesmo acontece com as calças, com modelos mais justos ou mais largos, de ganga ou de tecido. Mas mais do que o conforto e o gosto pessoal, há quem diga que a escolha da roupa interior e das calças pode ter consequências para a saúde.
A questão não é nova, mas surge muitas vezes em consultas de urologia: utilizar roupa interior apertada ou calças justas prejudica a produção de espermatozoides? Dois especialistas explicam ao Viral o que se sabe sobre este tema.
Roupa apertada interfere na produção de espermatozoides?
É verdade que usar frequentemente roupa apertada na zona das virilhas – roupa interior, calças ou calções justos – pode prejudicar a produção de espermatozoides. No entanto, este impacto parece estar relacionado com aumento da temperatura nos testículos e não com a pressão exercida sobre os genitais.
Apesar de a evidência científica sobre este tema ser limitada, o urologista Mário Pereira-Lourenço, especialista no IPO de Coimbra e na clínica Montes Claros e creditado pela Sociedade Europeia de Medicina Sexual, explica ao Viral que a “roupa mais apertada é, provavelmente, mais quente” e esse aumento de temperatura pode prejudicar “a produção de espermatozoides”.
“Um ligeiro aumento de temperatura a nível testicular pode levar a danos nos espermatozoides”, sublinha o especialista, acrescentando que existem estudos in vitro que analisam o impacto do calor nas células responsáveis pela produção dos gâmetas masculinos.
No mesmo sentido, Ana Meirinha, diretora do serviço de urologia do Hospital de Cascais e médica no Hospital Lusíadas, refere que “a roupa mais apertada leva ao aquecimento dos testículos”, o que está relacionado com uma “diminuição de produção de espermatozoides”.
“Sabemos que os testículos têm uma temperatura mais baixa do que o interior do corpo humano, por isso, estão no exterior. Essa temperatura influencia a formação de espermatozoides”, sublinha.
Um estudo, publicado em 2018, analisou a contagem de espermatozoides de 656 homens que procuraram tratamento para a infertilidade numa clínica especializada em fertilidade. A equipa de investigadores da Universidade de Harvard identificou uma diferença “significativa” ao comparar os diferentes tipos de roupa interior utilizados nos três meses anteriores à análise.
Entre os homens que frequentavam um centro de fertilidade, aqueles que relataram usar modelos mais largos com mais frequência “tinham concentração de espermatozoides e contagem total de espermatozoides significativamente mais elevadas, e níveis séricos [quantidade] mais baixos de FSH [hormona folículo-estimulante]”, em comparação com homens que normalmente não usavam modelos mais apertados.
O artigo científico refere ainda que os homens que “reportaram usar principalmente boxers [largos] tinham uma concentração de espermatozoides 25% superior, uma contagem total 17% acima e níveis de FSH 14% inferiores”. Os investigadores não encontraram diferença noutras funções testiculares, tais como os níveis de hormonas reprodutivas ou os parâmetros de integridade do ADN nos espermatozoides.
Estas conclusões levantam a outra questão: será que a roupa interior apertada prejudica a fertilidade dos homens? Um estudo, publicado em 2016, não encontrou associação entre o tipo de roupa interior usada e o tempo até à gravidez.
Durante 12 meses, os investigadores acompanharam 501 casais para despistar potenciais atrasos na conceção ou casos de infertilidade. Aos homens, foi pedido para fornecer amostras regulares de sémen e responder a um questionário sobre o tipo de roupa interior que utilizam durante o dia e a noite.
Concluíram que “a escolha de roupa interior masculina está associada a algumas diferenças nos parâmetros do sémen”, contudo, “não é observada qualquer associação com o tempo até à gravidez, proporcionando segurança aos casais que estão a tentar engravidar”.
Mário Pereira-Lourenço lembra que os estudos realizados sobre este assunto apresentam limitações, nomeadamente o recurso à memória dos participantes para identificar os tipos de roupa interior usados mais vezes. “A evidência existe, mas é muito limitada”, reforça.
Apesar do potencial impacto que a temperatura tem na produção de espermatozoides, esta situação poderá ser reversível. Ao optar por roupa mais larga, o fator “agressor” desaparece e as alterações são “teoricamente reversíveis”, afirma o Mário Pereira-Lourenço.
“A espermatogénese é um processo renovável ao longo do tempo”, lembra o especialista, sublinhando que “alguns médicos que trabalham na área de fertilidade recomendam aos homens evitar fontes de aquecimento na zona dos genitais”.
No mesmo sentido, Ana Meirinha também diz que a situação “é reversível”, caso não existam danos nas células dos testículos.
“Podemos esperar algumas melhorias, mas pode demorar até três meses para termos alguma mudança”, acrescenta, fazendo referência ao tempo produção de espermatozoides que demora, em média, 74 dias.
A especialista lembra ainda que a “qualidade dos espermatozoides vai diminuindo” à medida que o homem envelhece, pelo que a recuperação poderá não ser total.
Em suma, as roupas apertadas na região das virilhas podem aumentar a temperatura nos testículos e prejudicar a produção de espermatozoides. Apesar de esta situação ser reversível, não existe evidência robusta que comprove uma alteração na fertilidade masculina.