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Da Black Friday aos saldos de natal. Estarei “viciado” em compras impulsivas?

27 Nov 2024 - 10:05

Da Black Friday aos saldos de natal. Estarei “viciado” em compras impulsivas?

É provável que já tenha dado por si a comprar um produto de que não precisava só porque estava com um desconto “imperdível”. Nesta altura, com a chegada dos saldos de natal e da Black Friday pode tornar-se ainda mais difícil resistir à tentação de fazer compras impulsivas. Costuma ceder e arrepender-se ou consegue manter-se firme perante os saldos e comprar apenas aquilo de que precisa mesmo? Sente que está “viciado” em compras impulsivas

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Em declarações ao Viral, Pedro Hubert, psicólogo na área das dependências e membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), explica que sinais podem indicar a presença de uma perturbação de compras compulsivas e expõe estratégias que podem ajudar a evitar este padrão de comportamento.

Que sinais indicam que pode estar viciado em compras?

“Todos nós já fizemos compras impulsivas” ou “comprámos mais em meses em que tínhamos mais dinheiro”, admite Pedro Hubert. O problema, defende, surge “quando este comportamento se mantém” ao longo do tempo.

O psicólogo expõe uma série de sinais que podem indicar que uma pessoa tem “oniomania ou perturbação de compras compulsivas”. 

De modo geral, quando as pessoas têm este tipo de perturbação de adição, “vão comprando mais vezes e coisas com preços mais elevados ao longo do tempo”, explica.

Inicialmente, “só compravam coisas para elas”, mas, depois, “começam a comprar para elas e para as outras pessoas”, prossegue.

“Quando este padrão se torna repetitivo e ao longo de, pelo menos, um ano, já se começa a incluir na perturbação das compras”, salienta o psicólogo.

Outro sinal a ter em conta é “a pessoa ficar irritada, muito zangada ou muito triste, porque quer comprar e não pode”.

Quando as pessoas “não conseguem resistir ao impulso de comprar” já se trata de “um sinal agravado”, informa Pedro Hubert.

À “perda de controlo no momento da compra” alia-se, muitas vezes, “o arrependimento a seguir à compra”, refere.

No momento, fazer uma compra “dá uma sensação de prazer, de euforia, de excitação e de recompensa muito grande”, devido à “libertação de dopamina”. 

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No entanto, “logo a seguir, uns minutos ou umas horas depois”, a pessoa sente “um arrependimento e um sentimento de culpa muito grande”, realça (ver também aqui e aqui).

Na perspetiva de Pedro Hubert, “o sinal mais grave e mais claro é quando a pessoa começa a criar dívidas para poder comprar”.

O psicólogo dá o exemplo de uma paciente que só procurou ajuda e “começou o tratamento depois de ter dívidas de milhares de euros”. Nesta fase, a pessoa já tinha chegado ao ponto de “vender a casa que tinha para pagar essas dívidas”.

Quem corre maior risco de desenvolver uma perturbação de compras compulsivas?

Segundo um texto informativo do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), o risco de uma pessoa criar uma adição “é, em parte, genético, mas pensa-se que os fatores ambientais, como estar perto de outras pessoas com dependências, também aumentam o risco”.

Fatores como “o stress” e “a pressão emocional ou profissional” podem contribuir para o desenvolvimento de uma dependência, seja ela qual for.

Além disso, pessoas que nunca tiveram “uma boa gestão do dinheiro e habituaram-se a comprar tudo e a não olhar os preços são mais suscetíveis”, refere Pedro Hubert.

Existe ainda um conjunto de comorbilidades individuais. Por exemplo, sabe-se que “as mulheres” têm maior probabilidade de desenvolver uma perturbação de compras compulsivas (ver também aqui e aqui).

Pessoas com outras dependências, com “ansiedade”, “depressão” ou “perturbação bipolar” correm um maior risco.

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Também há evidência que indica que pessoas com perturbações alimentares e de personalidade e com perturbação de hiperatividade e défice de atenção estão mais propensas a desenvolver oniomania.

Qual o tratamento da oniomania (ou perturbação de compras compulsivas)?

Caso esteja na dúvida se tem um problema relacionado com compras impulsivas ou compulsivas “o ideal é pedir ajuda profissional”, defende Pedro Hubert. 

Se a perturbação se verificar, o tratamento passa por “fazer psicoterapia cognitivo-comportamental” aliada ou não à toma de medicação.

Ao longo do acompanhamento procura-se perceber “os pensamentos associados ao comportamento de compra”, quando surgem esses pensamentos e o que está na sua origem.

Em primeiro lugar, define-se, quase de imediato, “uma série de regras” com intuito de “agir” no combate ao sintoma.

Segundo o psicólogo, “nos primeiros meses, pode ser sugerido não andar com cartões de multibanco, não ter dinheiro ou ter muito pouco dinheiro” na carteira.

Além disso, pode sugerir-se à pessoa que “só compre itens de absoluta necessidade” ou que “só gaste x quantidade de euros por dia”, por exemplo.

Também é comum recomendar que a pessoa só vá às compras “acompanhada por alguém” e que se encontre formas significativas de passar o tempo sem ser ir às compras (ver aqui).

Estas regras, quando implementadas e cumpridas ao longo do tempo, vão permitir que “a pessoa aprenda a gerir, por si, o impulso de comprar”, conclui.

Como evitar compras impulsivas na altura dos saldos?

Mesmo para quem não tem uma perturbação de compras compulsivas, a tentação para gastar dinheiro desnecessariamente em coisas de que não precisa em alturas de grandes descontos pode ser grande. Pedro Hubert explica que, em alturas de saldos, como a Black Friday, é possível adotar estratégias que ajudam a evitar compras impulsivas.

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Em primeiro lugar, avança, é fundamental “estar consciente do marketing que é feito nesta altura”. Tal como esclarece o psicólogo, além das “promoções”, “existe uma série de características conjunturais no meio ambiente das lojas – a música, o calor e as luzes – que favorecem o momento da compra”.

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Após esta tomada de consciência, é igualmente importante recorrer a estratégias práticas. Umas das mais simples e eficazes é “fazer uma lista quando se vai ao supermercado”.

Na perspetiva de Pedro Hubert, a lista permite que se tenha consciência do que é, de facto, essencial comprar.

Mesmo tendo estes cuidados, é possível que se cruze com produtos específicos que não estão na sua lista, mas, aparentemente, estão com descontos “imperdíveis”. Nesse caso, é importante que não ceda à tentação de “comprar no momento”, refere o psicólogo. 

Pode, por exemplo, “ir dar uma volta primeiro”, decidir “comprar no dia seguinte” ou “pedir a opinião a alguém”. Este tempo vai permitir que consiga ponderar se realmente necessita daquele produto.

27 Nov 2024 - 10:05

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