Bebidas energéticas são perigosas para a saúde? O que dizem os especialistas
Num vídeo que circula nas redes sociais, é dito que as bebidas energéticas causam problemas de saúde e são um “risco muito sério”.
O autor do vídeo diz que as bebidas energéticas não dão energia. Pelo contrário, defende que impedem que o corpo “comunique” que está cansado. Diz ainda que provocam “ansiedade extrema e problemas graves de coração”. Mas será mesmo assim? O que diz a ciência?
Bebidas energéticas são muito perigosas para a saúde?
Questionado sobre se as bebidas energéticas são um “risco muito sério” para a saúde, José Pedro Sousa, médico cardiologista, assistente hospitalar no IPO do Porto e coordenador no grupo Luz Saúde, refere que “não empregaria o intensificador ‘muito’”, uma vez que os efeitos das bebidas energéticas acontecem na sequência de “doses excessivas”.
Ainda assim, reconhece ser “verdade” que a ingestão regular de bebidas energéticas pode “potenciar” problemas de saúde, alguns com gravidade.
Por outro lado, o cardiologista admite que o consumo de bebidas energéticas pode “induzir sintomatologia tradicionalmente associada a perturbações do espetro da ansiedade”, sobretudo se em grande quantidade, devido ao efeito estimulante.
“É também verdade” que a ingestão frequente de bebidas energéticas tem sido associada a ”patologia cardiovascular séria, incluindo hipertensão arterial, arritmias, síndrome coronária aguda (o popular “ataque cardíaco”) e insuficiência cardíaca”.
Em suma, José Pedro Sousa refere que o consumo de bebidas energéticas proporciona uma “sensação de reserva energética, aumento do nível de alerta e de produtividade cognitiva”, porém, o hábito de consumo regular “não deve ser considerado para esse fim” devido aos “riscos de saúde envolvidos”.
Um estudo, que envolveu voluntários entre os 18 e os 40 anos, publicado no Journal of the American Heart Association, conclui que as bebidas energéticas aumentam a pressão arterial. Ainda assim, os autores referem que o impacto da ingestão destas bebidas a longo prazo não é conhecido e que é necessária uma investigação “mais aprofundada”.
Uma revisão da literatura diz que a ingestão de bebidas energéticas podem causar palpitações, hipertensão, náuseas, vómitos, convulsões, hipertensão arterial e diabetes tipo 2.
De acordo com o mesmo artigo, a literatura encontrou um “número crescente de problemas” de mudança de comportamentos e capacidades cognitivas em adolescentes que ingerem bebidas energéticas.
Neste sentido, os autores concluem que as preocupações da comunidade científica em relação aos potenciais efeitos adversos para a saúde são “amplamente válidas”.
Os riscos para a saúde “dependem da dose”, sendo “crescentes consoante o consumo”, acrescenta o médico especialista em cardiologia consultado pelo Viral. Doentes cardíacos (fibrilhação auricular, insuficiência cardíaca ou hipertensão arterial) e atletas devem “substituir integralmente” bebidas energéticas artificiais por “outras mais naturais”, como o café e o chá, que contêm “níveis de cafeína e açúcar muito inferiores”.
José Pedro Sousa explica que o cansaço exagerado constitui um “sintoma médico”. Nesse caso, os médicos podem analisar os relatos dos doentes e requisitar uma prova de esforço, um exame complementar de diagnóstico, para avaliar a capacidade funcional do utente.
O “declínio consistente da forma física”, ou da capacidade funcional, tende a associar-se, anos mais tarde, à instalação de insuficiência cardíaca, indica o coordenador no grupo Luz Saúde.
A prática regular de exercício físico, a adoção de uma rotina reparadora de sono noturno e a manutenção de padrões dietéticos e de hidratação saudáveis são formas “sustentáveis e aconselháveis” de aumentar a capacidade física.
Ainda assim, se as pessoas pretenderem um “incremento” de energia “à custa do consumo de uma bebida”, devem preferir o café ou o chá às bebidas energéticas artificiais, aconselha o cardiologista.
Qual a composição das bebidas energéticas?
Em declarações ao Viral, o assistente hospitalar no IPO do Porto explica que a cafeína é o estimulante primário das bebidas energéticas e, por isso, a responsável principal de muitos dos seus efeitos fisiológicos.
A taurina, se combinada com a cafeína, apresenta o potencial de amplificar os efeitos estimulantes das bebidas energéticas.
De acordo com um artigo da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), as bebidas energéticas geralmente contêm “níveis elevados de cafeína, taurina e glucoronolactona, além de hidratos de carbono, vitaminas e minerais”.
Também a guaranina, presente mais caracteristicamente na bebida gaseificada guaraná, popular no Brasil, constitui, grosso modo, uma variante da cafeína, sendo, por isso, também ela, uma molécula tónica, refere José Pedro Sousa.
O médico acrescenta que outros componentes tradicionalmente presentes em bebidas energéticas incluem ginseng, açúcar ou adoçantes artificiais e vitaminas do complexo B.
O consumo generalizado de bebidas energéticas “tem vindo a causar uma crescente preocupação”, é dito no mesmo artigo da ASAE.
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