Criar laços emocionais com bebés reborn: Saudável ou preocupante?
Os bonecos hiper-realistas conhecidos como bebés reborn estão a ganhar cada vez mais visibilidade, através das redes sociais, entre colecionadores e até em contextos terapêuticos.
Embora existam desde o final dos anos 80, os bebés reborn só recentemente ganharam uma maior projeção mediática, impulsionados sobretudo pelas redes sociais, onde o seu realismo provoca “reações fortes” e “amplia a atenção pública”.
O Viral Check entrevistou Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos, para perceber o que acontece quando uma pessoa cria um laço emocional com um destes bonecos e até onde vai o limite entre o conforto emocional e a perturbação mental.
O que pode levar uma pessoa a criar vínculo afetivo com um bebé reborn?
Do ponto de vista psicológico, o vínculo com um bebé reborn pode surgir como resposta a perdas, solidão, infertilidade, ou até como uma forma de “a pessoa se projetar afetivamente através de um objeto que é estático e, por isso, não desafiante”, explica, em declarações ao Viral, Miguel Ricou.
“Em sociedades como as nossas, cada vez mais marcadas pela individualização excessiva e pela sensação de fragilidade das relações interpessoais, é mais fácil que os objetos possam adquirir funções de substituição dos outros, preenchendo lacunas emocionais”, salienta o psicólogo.
Sendo esta uma relação unidirecional, o vínculo com um boneco contrasta com a complexidade das relações humanas, evitando assim as frustrações e os desafios emocionais que estas envolvem.
O vínculo afetivo com um bebé reborn é saudável?
Para Miguel Ricou, a ligação com um boneco reborn “dificilmente pode ser saudável”. No entanto, há exceções.
Quando usados como “objeto que pode ajudar na regulação emocional”, sobretudo em contextos terapêuticos, os bebés reborn podem ter, de facto, um efeito benéfico.
Vários estudos documentam a sua utilidade destes bonecos junto de idosos, pessoas com demência, ou em casos de luto perinatal e infertilidade. No entanto, é essencial que exista acompanhamento clínico e que a pessoa mantenha a consciência de que se trata de um objeto simbólico.
Um estudo publicado na revista Aging & Mental Health avaliou os efeitos terapêuticos de bonecos hiper-realistas em idosos com demência, residentes em lares de cuidados continuados, na Austrália.
Embora não tenha sido observada uma redução significativa nos níveis de ansiedade, agitação ou agressividade dos doentes, os investigadores notaram um aumento significativo no prazer emocional daqueles que interagiram com os bonecos, bem como conforto emocional, efeito calmante e sensação de propósito.
Porém, tal como explica Miguel Ricou ao Viral, quando o vínculo efetivo com o boneco começa a prolongar-se no tempo e a substituir vínculos reais, pode, eventualmente, aumentar o isolamento, a negação da realidade ou mesmo levar a perceções delirantes.
“A fronteira clínica surge quando há sofrimento, prejuízo funcional e algum tipo de infantilização da pessoa”, alerta o especialista.
Por outro lado, as relações saudáveis com estes bonecos são, geralmente, aquelas associadas ao colecionismo, ao uso lúdico ou ao entretenimento, desde que não interfiram com o dia a dia da pessoa, nem comprometam o seu bem-estar.
Em casos de luto ou infertilidade, os bebés reborn podem ajudar?
Em contextos de perdas gestacionais, infertilidade ou solidão, estes bonecos hiper-realistas “poderão funcionar como substitutos simbólicos” ao permitir a expressão de sentimentos reprimidos ou lutos não resolvidos, desde que seja feito com acompanhamento profissional.
Contudo, isso implica riscos, como, por exemplo, o “desenvolvimento de vínculos, tratando-os como filhos reais, o que pode ser indicador de lutos complicados ou de doenças mentais”, ou a recusa da realidade.
Outro dos riscos “está ligado a uma persistência do vínculo com o boneco como forma de evitar viver a dor emocional”, acrescenta o psicólogo.
Ainda assim, Miguel Ricou explica que a evidência científica sobre esta prática é limitada.
O estigma pode agravar o sofrimento?
O presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos reconhece que existe um estigma social em relação aos adultos que criam vínculos com bebés reborn, associando-os a “imaturidade, patologia ou excentricidade”.
“Sendo as crianças, e logo à partida os bebés, muito valorizados na nossa sociedade, este tipo de comportamentos aumenta o nível de reatividade das pessoas, mais do que em relação a outros comportamentos que poderiam ser considerados estranhos ou incomuns”, ressalta.
Esse julgamento social, alerta o psicólogo, pode agravar o sofrimento de quem se conecta emocionalmente com os bebés reborn, aumentando a vergonha, o isolamento e levando à ocultação do comportamento, o que torna “ainda mais difícil a motivação em procurar apoio profissional adequado”.
“Por isso mesmo é importante que se tente evitar a rotulagem fácil das pessoas e compreender o contexto da relação. A resposta social não deve ser de censura, mas de escuta empática e eventual encaminhamento clínico”, aconselha.
O que fazer se alguém próximo estiver muito apegado a um bebé reborn?
O mais importante é evitar julgamentos precipitados e tentar perceber a função que o boneco desempenha na vida da pessoa, destaca Miguel Ricou.
Após avaliar o nível de sofrimento associado, é importante também identificar se há “prejuízos nas relações interpessoais”, no âmbito profissional ou em qualquer outra área da vida da pessoa.
“Existindo sinais de dependência emocional, de negação da realidade ou de isolamento social, será importante sugerir a consulta de um profissional de saúde mental, da forma mais empática e menos intrusiva possível”, conclui o psicólogo.