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“Ballerina Capuccina” e  “Bombardino Crocodilo”: Ver conteúdos “brainrot” é prejudicial para o cérebro das crianças?

14 Dez 2025 - 08:45

“Ballerina Capuccina” e  “Bombardino Crocodilo”: Ver conteúdos “brainrot” é prejudicial para o cérebro das crianças?

Uma bailarina com cabeça de cappuccino, um tubarão com pernas e sapatilhas, um frigorífico com cabeça e patas de camelo, ou um macaco com corpo de banana. Para muitos adultos, estas descrições não têm sentido, mas, para as gerações mais novas, são personagens familiares das redes sociais.

Estas imagens geradas por inteligência artificial – com um estilo surrealista, muitas vezes caótico e cheio de estímulos – são conhecidas como “Italian Brainrot”, um nome que deriva do termo “brainrot” (podridão mental, numa tradução direta para o português). Vídeos e imagens triviais, simplistas e de baixa qualidade também são considerados conteúdos de “brainrot”.

A Universidade de Oxford define “brainrot” como “a alegada deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material considerado trivial ou pouco desafiante”. A preocupação com o consumo elevado de conteúdos online de baixa qualidade levou a universidade a considerar o termo “brainrot” como palavra do ano em 2024.

As novas gerações começam a aceder cada vez mais cedo às redes sociais e à internet. Num estudo, publicado em 2019, apenas 25% das 422 crianças (com idades entre um mês e cinco anos) nunca tinham sido expostas a um dispositivo móvel. A idade média para começar a utilizar esta tecnologia ronda os 12 meses – apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselhar ecrãs antes dos dois anos.

Mas assistir frequentemente a conteúdos de “brainrot” prejudica o desenvolvimento cerebral e cognitivo das crianças? Bárbara Ramos Dias, psicóloga que trabalha com crianças e adolescentes e autora de três livros sobre parentalidade, e Tiago Proença dos Santos, neuropediatra no Hospital de Santa Maria e membro da direção da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, explicam ao Viral os malefícios do consumo regular de “brainrot” e sugerem como proteger as crianças.

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Conteúdos “brainrot” têm efeitos negativos no desenvolvimento das crianças?

Apesar de “parecerem inofensivos”, os conteúdos “brainrot” podem “ter consequências significativas no desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças e adolescentes”, afirma Bárbara Ramos Dias. Os malefícios tornam-se maiores quando os conteúdos são “consumidos de forma frequente e sem supervisão” dos pais ou encarregados de educação.

“O consumo constante deste tipo de conteúdos ativa, de forma repetida, o sistema de recompensa, libertando dopamina e criando uma sensação imediata de prazer e satisfação”, explica a psicóloga, lembrando que, com o tempo, “o cérebro passa a procurar estímulos cada vez mais rápidos e intensos”.

No mesmo sentido, Tiago Proença dos Santos refere que a ativação “constante” dos sistemas de recompensa cerebrais leva a “descargas contínuas de dopamina”, o que promove “um consumo automático e pouco controlado” deste tipo de conteúdos – que é semelhante a um comportamento vicioso.

Tendo em conta que o “cérebro da criança está em organização”, o consumo frequente de conteúdos “brainrot” poderá interferir com o desenvolvimento do córtex pré-frontal, afetando os mecanismos de controlo da atenção, da memória e do autocontrole, lembra o neuropediatra.

“O consumo excessivo de conteúdo ‘brainrot’ interfere com estas redes, levando a casos de atenção fragmentada – em que o cérebro se habitua a estímulos rápidos e perde treino para manter foco prolongado, o que pode afetar diretamente o desempenho escolar”, esclarece Tiago Proença dos Santos.

Os dois especialistas referem que o consumo frequente deste tipo de conteúdos reduz a tolerância à frustração e ao tédio, diminui a capacidade de atenção em tarefas prolongadas ou menos estimulantes e leva a criança a procurar estímulos imediatos em detrimento de atividades que exijam esforço mental (como ler, estudar ou brincar).

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“O consumo excessivo de conteúdos ‘brainrot’ pode prejudicar o desenvolvimento das funções executivas, essenciais para a aprendizagem – como a atenção sustentada, a memória de trabalho e a autorregulação”, afirma Bárbara Ramos Dias. 

Pode também “reduzir a capacidade de reflexão, pensamento crítico e empatia”, competências que são “fundamentais na formação da personalidade e no sucesso académico e social das crianças”.

Além disso, o consumo excessivo deste tipo de conteúdos pode também estar associado ao aparecimento de “sintomas de ansiedade, irritabilidade e impulsividade”, afirma Tiago Proença dos Santos. Bárbara Ramos Dias lembra ainda que esta prática pode colocar as crianças em contacto com “conteúdos desadequados ou de desinformação”.

O termo brainrot pode também definir “a alegada deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material (agora particularmente conteúdo online) considerado trivial ou pouco desafiante”, segundo um relatório publicado pelo Centro para a Psicologia dos Media e Investigação Comportamental (ZeMV, na sigla alemã).

Numa revisão, publicada em 2025, refere-se que o “brainrot” pode levar a “dessensibilização emocional, sobrecarga cognitiva e autoconceito negativo”. Está também associado a “comportamentos negativos como ‘doomscrolling’, ‘zombie scrolling’ e vício de redes sociais”, o que pode também levar a “stress psicológico, ansiedade e depressão”.

Os investigadores referem ainda que estes fatores “prejudicam as capacidades de funcionamento executivo, incluindo a memória, o planeamento e a tomada de decisões”. Contudo, é importante ressalvar que, sendo um tema recente, a literatura científica é reduzida e não existem estudos longitudinais que permitam avaliar os efeitos a longo prazo.

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Como proteger as crianças dos malefícios do “brainrot”?

Ambos os especialistas defendem que se deve limitar a exposição das crianças a este tipo de conteúdos. “Os pais devem pôr limites ao consumo destes conteúdos a partir da adolescência. Até lá, só é possível controlar evitando a exposição em absoluto”, afirma Tiago Proença dos Santos.

Para o neuropediatra, “a educação é fundamental”. Os pais devem “definir tempos de ecrã claros” (por exemplo, uma hora por dia em idade escolar ou não usar ecrãs à noite), “incentivar o uso criativo ou educativo da tecnologia” e promover a “co-visualização”, comentando o que veem para ajudar a “desenvolver espírito crítico”.

“O essencial é ensinar a criança a perceber o impacto do que consome, em vez de apenas impor restrições”, remata Tiago Proença dos Santos, lembrando que “o exemplo dos pais na utilização responsável é fundamental”.

Também Bárbara Ramos Dias considera que a proteção das criançasnão passa apenas pela proibição”, mas resulta da “educação para o uso consciente da tecnologia”. Para tal, a psicóloga aconselha os encarregados de educação a “acompanharem o tipo de conteúdos que a criança consome e conversarem sobre o que se vê”.

Os pais devem “estabelecer limites de tempo de ecrã”, promover “alternativas de lazer não digitais” e falar abertamente com a criança “sobre o funcionamento do cérebro e os efeitos dos estímulos digitais”, promovendo “uma maior consciência e autocontrolo sobre os hábitos”. Além disso, devem também “dar o exemplo”, limitando a sua própria utilização das tecnologias.

“É importante valorizar o tédio como uma oportunidade para a criatividade e o pensamento autónomo”, afirma Bárbara Ramos Dias, sublinhando a importância de “reintroduzir momentos de pausa e foco prolongado no quotidiano das crianças”.

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Atividades que exigem maior concentração e paciência (como tocar um instrumento, desenhar, montar puzzles ou praticar desporto) podem ajudar a criança “a reforçar as ligações neuronais associadas à atenção e à autorregulação emocional”, contrariando os efeitos do consumo prolongado de imagens “brainrot”.

Um estudo, publicado em 2019, analisou o uso de dispositivos móveis em 422 crianças entre um mês e cinco anos. Menos de 25% dos participantes nunca tinha tido sido exposta a esta tecnologia. Entre as crianças que usavam os aparelhos, a idade média para o primeiro uso foi os 12 meses – apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) desaconselhar o uso de ecrãs antes dos dois anos.

14 Dez 2025 - 08:45

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