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Ao saber que tinha cancro do estômago, Maria das Dores Brito ficou “confusa”. Depois, focou-se em “resolver”

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Ao saber que tinha cancro do estômago, Maria das Dores Brito ficou “confusa”. Depois, focou-se em “resolver”

Maria das Dores Brito tem 78 anos e trabalha numa clínica dentária — pela forma como fala não parece pensar em deixar de trabalhar tão cedo, apesar de a idade da reforma já ter passado há uns anos.

Em 2023, foi a uma consulta de rotina no centro de saúde e a médica de família, como era comum de tempos a tempos, passou-lhe uma colonoscopia. Marcou e “começaram a suspeitar de alguma coisa”, conta, em conversa com o Viral e com o Polígrafo. Não percebeu imediatamente o que era, mas teve de fazer outra colonoscopia e mais exames. Depois, chegou a confirmação: tinha cancro do estômago.

“Quando fui à consulta disseram-me que eu tinha de ser operada rapidamente”, recorda. Isto porque o cancro estava mesmo no antro gástrico, a parte final do estômago, e havia risco de metastização no intestino. Se isso acontecesse, dificilmente a cirurgia seria o único tratamento necessário. 

Havendo o diagnóstico de um cancro gástrico em fase precoce, “a cirurgia deve ser feita com brevidade”, adianta José Filipe Cunha, cirurgião digestivo da unidade multidisciplinar de cancro digestivo do Centro Clínico da Fundação Champalimaud.

Tal como explica o médico, se o cancro for detetado numa fase precoce, “a cirurgia é o tratamento com maior capacidade de cura”. 

Por outro lado, numa fase mais avançada, mas em que o tumor continua localizado no estômago e, eventualmente, nos gânglios regionais do órgão, muitas vezes, “há necessidade de associar à cirurgia o tratamento sistémicoquimioterapia e/ou imunoterapia -, feito por administração endovenosa”.

Se o tumor for detetado numa fase muito mais avançada em que já há metastização distante – por exemplo, no fígado, nos pulmões ou no peritoneu -, o tratamento terá de ser feito apenas com recurso a “terapêuticas sistémicas”. 

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Maria das Dores Brito, ao ouvir a palavra “cancro” ficou “confusa, baralhada”, sem saber o que fazer. Não contava com aquilo, o único sintoma que tinha era um sabor azedo na boca que ia surgindo. Mas nunca suspeitou que pudesse ser uma doença oncológica. Foi através daquele exame de rotina que a médica de família sugeriu que fizesse que foi possível ser diagnosticada numa fase inicial.

José Filipe Cunha diz que este é um cenário comum. “Muitas vezes, o cancro gástrico não se deteta numa fase assintomática” e, mesmo quando existem, os sintomas são inespecíficos, tais como “um desconforto abdominal vago, falta de apetite, uma ligeira dificuldade a engolir (no caso dos tumores da junção esófago-gástrica), ou apenas uma anemia por o tumor sangrar lentamente”.

Para o cancro gástrico ser detetado numa fase inicial, em que ainda não existem sintomas, “é necessário fazer um exame endoscópico de rastreio no doente assintomático, algo que ainda não está bem definido se se deve fazer ou não”. 

Isto é, “enquanto no cancro do cólon e reto já se sabe que justifica fazer exames de rastreio (as colonoscopias) a partir de determinada idade”, no cancro gástrico, em Portugal, não existe propriamente um programa de rastreio, a não ser em casos de “pessoas com fatores de risco para o desenvolvimento” desse tipo de cancro.

Aquilo que acontece cada vez mais é “doentes que vão fazer a colonoscopia de rastreio fazerem também uma endoscopia alta, o que tem permitido detetar mais casos de cancro gástrico numa fase relativamente precoce da doença”, refere o especialista.

O patrão, depois de saber o que se passava, aconselhou-a a ouvir uma segunda opinião na Fundação Champalimaud — e Maria das Dores assim o fez. Levou os exames e disseram-lhe o mesmo: “Tem de ser operada imediatamente”. 

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Não quis ouvir mais nada, fez uma gastrectomia e desde então tem apenas consultas de vigilância, não foi necessário fazer mais nenhum tratamento.

Quando o cancro gástrico é diagnosticado numa fase precoce, muitas vezes, não é necessário fazer outro tratamento além da cirurgia. José Filipe Cunha explica que “a escolha do tratamento vai depender do estadio em que o tumor se encontra quando é diagnosticado”.

Na prática, isto implica “fazer uma série de exames que vão determinar se o tumor está só na parede do estômago ou não, se já está localizado em gânglios linfáticos, ou se já está noutras localizações” (metastização).

É com base no estadiamento que se determina o tipo de tratamento. De modo geral, “o tumor localizado apenas na camada superficial do estômago é tratado só com cirurgia”.

“Se houver uma penetração maior na parede do estômago e/ou se houver gânglios linfáticos que estão afetados por células do tumor, aí já é importante, para além da cirurgia, fazer tratamento sistémico”, explica o médico.

A fase inicial, logo após o diagnóstico, foi vivida de forma quase automática, queria “resolver os problemas” que iam surgindo: “Fui marcando os exames, fui lidando um bocado com isto, se tem que ser já é para ser já e é melhor agora do que arranjar mais algum problema”.

Claro que ficou “assustada”, diz, mas rapidamente percebeu que primeiro tinha de “resolver” — usa essa palavra várias vezes ao longo da conversa — e depois “logo se via”. Destaca a importância da relação com as equipas médicas desde o primeiro momento. “Embora seja uma coisa que para eles é normal, para nós é que não, fui sempre muito bem tratada, nunca ninguém me assustou”.

Depois da gastrectomia emagreceu muito porque “o estômago ficou reduzido a quase nada” e “a alimentação é fraca”, não consegue comer da mesma forma que fazia antes, fica satisfeita muito rápido.

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Segundo José Filipe Cunha, “o facto de se reduzir o reservatório gástrico, no caso de se poupar uma parte do estômago ou mesmo de já não haver estômago” quando a cirurgia implica a remoção total do órgão, “condiciona a forma como o doente se alimenta”.

Por esse motivo, na fase pós-cirurgia, o acompanhamento nutricional é fundamental. “O doente vai ter de aprender a ter uma alimentação equilibrada” com algumas adaptações, como “fazer mais refeições ao longo do dia”, comendo “pequenas quantidades de cada vez”, esclarece.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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14 Fev 2026 - 08:15

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