Antidepressivos e pesadelos: Qual a relação?
No TikTok, sugere-se que os antidepressivos podem causar pesadelos. Segundo os vídeos partilhados, estes medicamentos têm a capacidade de “alterar a estrutura do sono”, causando, muitas vezes, pesadelos vívidos e intensos. Será mesmo assim? Qual a relação entre os antidepressivos e os pesadelos?
Alguns antidepressivos podem causar pesadelos?
Sim, há pessoas que reportam sonhos vívidos e intensos ou pesadelos como efeitos secundários de alguns antidepressivos. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Daniel Martins, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e investigador do RISE-Health.
Segundo o professor, estes efeitos são mais frequentemente reportados com ISRS (inibidores seletivos da recaptação da serotonina), como a sertralina, a fluoxetina e a paroxetina, e com IRSN (inibidores da recaptação da serotonina e noradrenalina), como a venlafaxina, e também podem ocorrer com a bupropiona em alguns casos.
Apesar disso, os pesadelos e os sonhos vívidos e intensos não se verificam em todas as pessoas que tomam antidepressivos. Aliás, “a maioria das pessoas não desenvolve estes efeitos de forma clinicamente relevante”, aponta.
No RCM (resumo das características do medicamento) da sertralina, por exemplo, refere-se que os pesadelos são efeitos secundários frequentes, ou seja, ocorrem entre 1 a 10 em cada 100 doentes. Aplica-se o mesmo à venlafaxina.
Já no caso da bupropiona são reportados “sonhos anormais” pouco frequentemente. Os pesadelos acontecem com frequência desconhecida, ou seja, que “não pode ser calculada a partir dos dados disponíveis” (ver aqui).
Daniel Martins refere ainda que estes efeitos secundários “tendem a surgir sobretudo no início do tratamento ou após alterações de dose”.
O que explica esta situação?
Os pesadelos e os sonhos “anormais” podem ocorrer devido à toma de antidepressivos, porque estes fármacos “podem interferir com a arquitetura do sono, ou seja, com a forma como as diferentes fases do sono se organizam ao longo da noite”, explica o investigador (ver também aqui, aqui e aqui).
De modo geral, “muitos destes fármacos reduzem o sono REM, que é a fase mais associada aos sonhos vívidos, e aumentam o tempo necessário para entrar nessa fase”.
Dependendo do medicamento, também podem “fragmentar o sono ou, pelo contrário, torná-lo mais contínuo”.
O professor da FMUP esclarece que “estes efeitos estão relacionados com a ação sobre neurotransmissores como a serotonina e a noradrenalina, que regulam o ciclo sono-vigília”.
Importa salientar que os efeitos no sono não se aplicam a todos os antidepressivos da mesma forma. “Os efeitos no sono variam consoante o mecanismo de ação de cada fármaco”, refere Daniel Martins.
Por exemplo, “os ISRS, como sertralina ou fluoxetina, e os IRSN tendem a suprimir o sono REM” e “os antidepressivos tricíclicos também o fazem, frequentemente de forma mais marcada”.
Por outro lado, “medicamentos como a mirtazapina ou a trazodona têm propriedades mais sedativas e podem melhorar a continuidade do sono”, prossegue.
Já o bupropiona “tende a ter um impacto menor no sono REM”, acrescenta.
Quem corre maior risco de ter pesadelos? O que fazer?
Além do tipo de antidepressivo, “a ocorrência de sonhos vívidos ou pesadelos depende de vários fatores individuais, incluindo a sensibilidade neurobiológica, a presença de ansiedade, depressão ou experiências traumáticas, e a qualidade do sono antes do início da medicação”, explica Daniel Martins.
“O metabolismo, a presença de outras doenças ou a utilização de medicação concomitante” também são fatores que “desempenham um papel importante” neste contexto.
O risco também tende a ser maior “durante fases iniciais do tratamento ou após aumentos de dose”, lembra.
Quando os pesadelos têm um impacto significativo na qualidade de vida do doente, alterar o horário da toma, para de manhã ao acordar (ver aqui e aqui), pode resolver o problema, já que “o horário da toma também pode influenciar a perceção dos sonhos”.
Em alguns casos, pode, também, ser necessário alterar a dose ou mudar o fármaco. Além disso, é fundamental implementar uma higiene do sono adequada e evitar o álcool, o tabaco e a cafeína, sobretudo à noite.
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