Anjos vs Joana Marques: Porque temos mais dificuldade em rir-nos quando a piada somos nós?
Os limites do humor, a liberdade de expressão e o impacto da comédia são alguns dos tópicos que vieram à tona, nas últimas semanas, a propósito do julgamento que opõe os cantores Nelson e Sérgio Rosado à humorista Joana Marques. Os irmãos que compõem o conjunto “Anjos” alegam que um vídeo humorístico publicado pela comediante no Instagram causou-lhes danos profissionais e pessoais e pedem uma indemnização no valor de 1 milhão e 118 mil euros.
A questão legal será tratada em tribunal, mas, nas redes sociais, há posições para todos os gostos: uns defendem Joana Marques, outros estão do lado dos Anjos. Entre os que discordam da posição dos irmãos Rosado, há uma crítica comum: acusam os cantores de falta de sentido de humor e de incapacidade de se rirem de si próprios, perspetiva que Nelson e Sérgio refutaram, por várias vezes, descrevendo-se como pessoas com “fairplay” e admiradoras de outros humoristas, como Herman José.
Legalidades à parte, e não sendo possível aferir em termos quantitativos o sentido de humor de alguém, resta refletir sobre uma questão que pode afetar qualquer um: Porque é que, por vezes, temos tanta dificuldade em rir-nos de nós próprios? E por que razão tendemos, tantas vezes, a achar menos graça quando somos nós o alvo da piada? Em declarações ao Viral, dois psicólogos explicam alguns fatores que podem influenciar a forma como reagimos quando somos alvo de humor.
Características da personalidade, educação e contexto
A forma como vemos e entendemos o mundo e o humor varia consoante as características da nossa personalidade, começa por explicar Tânia Gaspar, psicóloga, investigadora e diretora do Serviço de Psicologia, Inovação e Conhecimento da Universidade Lusófona.
Do mesmo modo que há pessoas “mais ou menos introvertidas, mais ou menos conscienciosas ou com mais ou menos capacidade de adaptação à mudança”, há pessoas “que têm uma maior capacidade de pôr as coisas em causa e de ter outras perspetivas”, enquanto outras têm menor flexibilidade para ler as situações de um ângulo cómico, seja qual for o alvo da piada.
O tipo de educação, assinala a investigadora, também pode ter um papel importante na forma como as pessoas lidam com o humor. Uma educação “mais rigorosa” e com um grande ênfase na distinção entre “o certo e o errado” pode influenciar a avaliação que o indivíduo faz das piadas e moldar o valor moral que lhes atribui.
A mesma piada feita em contextos diferentes também pode motivar uma reação distinta, lembra Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Por exemplo, numa mesa de amigos, “num contexto em que todas as pessoas estão a mandar piadas umas sobre as outras, é mais fácil tolerar” uma piada sobre nós mesmos, enquanto que, num contexto de maior exposição ou quando a piada é lida como tendo uma intenção negativa, a receção pode não ser tão leve.
“Se a pessoa sentir a piada como uma coisa mais agressiva, mais sarcástica, ou como algo que pode pôr em causa a sua imagem pode ter mais dificuldade em recebê-la”, acrescenta o psicólogo.
Miguel Ricou salienta que, enquanto algumas pessoas têm menos capacidade para se rirem de si, outras fazem piadas sobre si próprias, seja como forma de “promoverem a sua imagem”, seja para disfarçar “sentimentos de inferioridade”, utilizando o humor autodepreciativo como uma estratégia de defesa.
Fragilidades pessoais e (falta de) autoconfiança
Na perspetiva de Tânia Gaspar, outro fator que pode influenciar negativamente a forma como reagimos a uma piada é o facto de ela “tocar em algo que é reconhecido por nós como uma fragilidade pessoal” ou beliscar a imagem que queremos projetar.
No caso dos Anjos, teoriza a psicóloga, a piada pode ser particularmente mal recebida por “ir contra a imagem que eles querem produzir”.
A facilidade em receber uma piada pode estar, por isso, dependente do “significado psicológico que tem para a pessoa, ou seja, se efetivamente nos afeta, se há uma ressonância emocional e afetiva daquilo que é dito”.
Ambos os especialistas contactados pelo Viral concordam que o autoconceito e a autoconfiança também podem amortecer ou agravar a forma como alguém recebe uma piada.
“Quando eu estou mais instável, quando eu não gosto de mim, quando o que eu sou está a anos-luz daquilo que quero ser e quando os outros devolvem uma imagem negativa de mim, aquilo que os outros dizem mal de mim vai-me tocar mais”, exemplifica Tânia Gaspar.
Pela mesma ordem de ideias, adianta Miguel Ricou, “as pessoas que têm maiores dificuldades de confiança e de integração social podem ter maior tendência para sentir as dimensões de uma piada como agressivas”, sobretudo quando esta acontece fora de um ambiente controlado e familiar.
Dimensão e passado cultural
Além das características e das histórias individuais, a dimensão e o passado cultural do grupo em que a pessoa se insere também pode levá-la a não achar tanta graça a determinadas piadas.
Miguel Ricou adianta que uma piada ou expressão que, num determinado subgrupo, é vista como inofensiva, noutro subgrupo pode ser encarada como tendo um teor pejorativo.
Por outras palavras, “comunidades que estão habituadas a ser estigmatizadas são mais sensíveis a algumas piadas que, de alguma maneira, vão no sentido deste estigma que elas transportam”.
A proximidade do tema é, nesse sentido, um fator com alguma influência, lembra Tânia Gaspar. “Quando sentimos um problema na pele, pode-nos ser mais difícil rir sobre ele, mesmo que a intenção de quem diz a piada não seja negativa”, conclui.
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