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Alinhadores dentários. Especialistas alertam para os perigos dos aparelhos comprados online

18 Jun 2024 - 10:52

Alinhadores dentários. Especialistas alertam para os perigos dos aparelhos comprados online

A popularidade dos alinhadores dentários transparentes tem aumentado nos últimos anos, por serem aparelhos removíveis e mais discretos e confortáveis do que os convencionais.

No entanto, como o preço destes alinhadores não é para todos os bolsos, há quem compre estes produtos online, sem qualquer diagnóstico e acompanhamento presencial de um médico dentista.

Esta situação preocupa os especialistas em saúde oral que têm alertado para os riscos da utilização de alinhadores dentários comprados online.

Em declarações ao Viral, Francisco do Vale, coordenador do Mestrado Integrado em Medicina Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e diretor do Instituto de Ortodontia da FMUC, explica que perigos são estes.

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Quais os perigos de utilizar alinhadores dentários comprados online?

Francisco de Vale adianta que utilizar alinhadores dentários comprados online “não é seguro” e é “altamente desaconselhável”.  

O médico dentista explica que qualquer “tratamento ortodôntico sem um diagnóstico inicial adequado ou sem supervisão clínica regular pode ter um resultado de qualidade inferior, na necessidade de tratamento adicional e causar danos irreversíveis na saúde oral”.

Assim, na perspetiva do dentista, “o autotratamento ortodôntico e o tratamento remoto de pacientes devem ser rejeitados”, já que são “potencialmente danosos para a saúde do paciente”. 

Para mais, acrescenta, “do ponto de vista profissional e ético”, estas práticas “também são inaceitáveis e representam uma violação séria dos padrões médico-dentários”.

Segundo o professor da FMUC, “qualquer médico dentista pode fornecer este tipo de tratamentos”, mas, neste caso, recomenda-se “que cada doente consulte pessoalmente um especialista em ortodontia”.

Consultar um especialista permitirá não só que “o tratamento seja cuidadosamente monitorizado”, mas também garantir “que, caso surja algum problema, ele seja atempadamente resolvido”, conclui.

O mesmo ponto de vista é reforçado pela própria Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) que tem emitido pareceres nesse sentido.

Num texto publicado no seu site, a OMD apela à “regulamentação de alinhadores vendidos online” e alerta para “casos graves de doentes que chegam aos consultórios com perda de dentição após o autotratamento sem supervisão de um médico dentista”.

Perante esta realidade, assinala-se que “todo e qualquer tratamento ortodôntico exige um diagnóstico e acompanhamento rigorosos por parte de um médico dentista qualificado”.

Segundo a OMD, “todas as etapas devem ser presenciais, para uma avaliação permanente da evolução do tratamento, mitigando efeitos colaterais indesejáveis”.

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Além disso, outras instituições internacionais – como o Conselho Europeu de Médicos Dentistas (CED, na sigla inglesa) e a Federação Europeia de Associações de Especialistas em Ortodontia (EFOSA) – também emitiram alertas devido aos riscos associados a práticas de ortodontia “faça você mesmo” (“do it yourself”, em inglês).

O que são os alinhadores dentários? Como funcionam?

Francisco do Vale adianta que “os alinhadores ortodônticos são aparelhos termoplásticos” removíveis “que permitem tratar a má oclusão simples, como os apinhamentos dentários ligeiros” (ver aqui e aqui). 

O tratamento com estes aparelhos “é feito através da deslocação dos dentes, produzida pela pressão exercida por vários alinhadores (em média 50 por tratamento) que são usados de forma sequencial”. 

Por norma, prossegue o especialista, “cada alinhador é usado 22 horas por dia, durante uma a duas semanas, e produz 0,25 mm a 0,33 mm de movimento dentário antes de ser colocado o alinhador seguinte”.

Dependendo da gravidade da má oclusão, em média, o tratamento “dura cerca de dois anos”. No entanto, sabe-se que, “em cerca de 94% dos casos, as previsões falham, em média, seis meses e são necessários novos alinhadores, num processo chamado refinamento”, explica.

Durante a utilização destes aparelhos é necessário ter alguns cuidados. Em primeiro lugar, é essencial haver uma “higienização adequada do alinhador em uso, pelo menos duas vezes por dia, e da cavidade oral, com uma correta escovagem dentária e o uso do fio dentário”.

Além disso, “devem ser cumpridas de forma diligente todas as recomendações dadas pelo médico dentista, nomeadamente no que respeita ao número de horas de uso diário e à assiduidade das consultas”, destaca o professor da FMUC.

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Qual a melhor opção: os alinhadores dentários transparentes ou os aparelhos convencionais?

Do ponto de vista de Francisco do Vale, a principal vantagem destes alinhadores dentários “é serem mais estéticos do que os aparelhos fixos, pois, como são transparentes, não se destacam tanto”. 

O facto de serem “bastante confortáveis” e “facilitarem as atividades diárias, uma vez que são removíveis”, também são pontos a favor.

Ao contrário dos aparelhos convencionais, estes podem ser retirados em várias ocasiões, “como nas refeições e na higienização da cavidade oral”, informa.

Contudo, ainda existem muitas desvantagens. Apesar de serem mais estéticos, os alinhadores continuam atrás dos aparelhos convencionais, em termos de eficácia.

Segundo Francisco do Vale, “são tratamentos habitualmente mais caros, menos previsíveis e eficazes”. 

A evidência científica recente mostra que os alinhadores “revelam baixa precisão dos tratamentos”, “maior tempo de tratamento em relação ao sistema fixo multibrackets”, “incapacidade de produzir movimentos dentários complexos” e “mau acabamento dos tratamentos”, refere o dentista.

Assim, o tratamento com alinhadores transparentes, em termos de eficácia, é igualado ao realizado por aparelhos removíveis numa época anterior à introdução dos sistemas fixos”.

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No que toca à segurança, estes aparelhos também levantam algumas dúvidas. 

“Recentemente, estão a surgir grandes questões relacionadas com a biocompatibilidade destes aparelhos, associando os alinhadores ortodônticos à citotoxicidade [efeito tóxico nas células], capaz de causar efeitos teratogénicos, mutagénicos e carcinogénicos”, frisa Francisco do Vale (ver também aqui e aqui).

Por isso, na visão do dentista, “são necessários mais estudos” para garantir a segurança destes aparelhos, “pois são usados 22 horas por dia e estão sujeitos a desgaste decorrente da função oral”.

18 Jun 2024 - 10:52

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