Alimentos com probióticos previnem cancro do intestino? O que diz a ciência
Num vídeo partilhado no TikTok sugere-se que comer alimentos fermentados (também conhecidos como “alimentos com probióticos”), como iogurte natural, leite fermentado, kombucha e chucrute, previne o cancro do intestino. Mas será mesmo assim? Há evidência científica que comprove que o consumo de probióticos previne a doença oncológica?
É verdade que comer alimentos com probióticos previne o cancro do intestino?
Em declarações ao Viral, Ricardo Veloso, gastrenterologista e membro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), adianta que, apesar de ser “uma área de investigação, não há estudos de qualidade suficientes” que permitam afirmar que comer alimentos com probióticos ou tomar suplementos de probióticos previne o cancro do intestino (colorretal).
Aliás, na perspetiva do médico, além de “não fazer sentido, é perigoso dizer que se eu tomar um probiótico não vou ter cancro colorretal”.
A doença oncológica é complexa e multifatorial e, tal como já tinha esclarecido a médica e nutricionista Paula Ravasco, em declarações anteriores ao Viral, “não existe uma única substância com a capacidade de prevenir uma doença como o cancro”.
No mesmo sentido, várias organizações de saúde – como o Cancer Council, o Breastcancer.org e o Cancer Research UK – assinalam, em textos publicados nos seus sites, que nenhuma dieta ou alimento específico vai impedir, por si só, o aparecimento de cancro, nem curar a doença.
Noutro texto do Cancer Council sobre o impacto dos probióticos no cancro explica-se que, de facto, algumas (poucas) investigações sugeriram que “o uso regular de probióticos pode ter um pequeno benefício na prevenção do desenvolvimento de alguns tipos de cancro”.
Contudo, ainda não se sabe “até que ponto esta ligação é fiável”, porque, “por exemplo, as pessoas que consomem probióticos podem também comer alimentos mais saudáveis e fazer mais exercício, e podem ser estes outros fatores que levam à redução do risco de cancro” nestas pessoas.
Por esse motivo, assinala a organização, “nesta fase, não recomendamos a toma de probióticos para a prevenção do cancro”.
O que são probióticos? Qual o seu impacto na saúde do intestino?
Segundo Ricardo Veloso, para se perceber o que são os probióticos é preciso entender primeiro o que é a microbiota.
O especialista explica que “a microbiota é o conjunto de microorganismos presente no tubo digestivo, que atua como ‘uma espécie de biorreator’”. Isto é, além de ter “uma função importantíssima na digestão e na produção de algumas vitaminas”, a microbiota “também tem um papel de defesa e biovigilância do nosso organismo”, clarifica.
Por outro lado, “os probióticos são bactérias ‘boas’ ingeridas ou tomadas de alguma forma, seja na forma de comprimidos, seja através de alguns alimentos”, como certos iogurtes, kombucha e vegetais fermentados (ver aqui).
Sabe-se que os probióticos têm a capacidade de “alterar transitoriamente a microbiota, mas não têm efeitos sustentados ao longo do tempo”, salienta o gastroenterologista.
Por isso, apesar de poderem ter um impacto positivo na microbiota intestinal, até à data, “não há uma maneira de manipular adequadamente a microbiota através de probióticos, de forma a prevenir doenças”, esclarece Ricardo Veloso (ver também aqui).
Além de cada pessoa ter uma microbiota diferente, “há muitos probióticos diferentes com muitas estirpes diferentes”, acrescenta.
Existe alguma evidência que sugere que “há uma estirpe específica de probióticos que parece melhorar a colite ulcerosa (uma doença inflamatória intestinal)”, aponta.
Contudo, não se sabe, até hoje, “qual é a melhor estirpe para dar às pessoas para prevenir uma determinada doença”.
Em relação ao cancro colorretal, sabe-se que as pessoas com esta doença “têm uma alteração relativamente específica da microbiota”.
No entanto, ainda não é possível perceber “se primeiro vem o cancro e depois se altera a microbiota, ou se uma alteração da microbiota vai espoletar o cancro”, refere o médico.