Alergia a bijuteria: Pôr verniz transparente nos brincos impede reações alérgicas?
No TikTok partilha-se uma técnica supostamente útil para quem tem alergia a bijuteria. Segundo os vídeos publicados, pôr verniz transparente nos brincos impede o contacto do metal com a orelha, evitando reações alérgicas. Será este método eficaz e seguro?
É verdade que pôr verniz transparente nos brincos impede reações alérgicas?
Em declarações ao Viral, Ana Brasileiro, dermatologista na área de alergologia cutânea do Hospital Santo António dos Capuchos da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José, adianta que “não há estudos que sustentem esta prática”.
Aliás, no âmbito da prevenção de reações alérgicas à bijuteria, a médica refere não conhecer nenhum método caseiro “cientificamente provado”.
Além disso, na perspetiva da especialista, “há vários fatores que podem influenciar” a eficácia desta técnica, como “a quantidade de verniz aplicada, o tipo de verniz e a resistência do mesmo”.
É provável que “o tempo faça com que o verniz seja eliminado”, como acontece “ao fim de alguns dias quando o colocamos nas nossas unhas”, refere.
Assim, “poderá ser necessário reaplicar com frequência – mas, mais uma vez, não temos estudos que avaliem ao fim de quanto tempo e como deve ser feita esta reaplicação, pelo que não posso recomendar” esta prática, sublinha Ana Brasileiro.
Por outro lado, esta técnica pode ter riscos. “Depende da composição do verniz, do tempo de secagem do mesmo e das condições de aplicação”, mas “basta pensarmos que o verniz foi feito para ser aplicado nas unhas e não na pele”, defende.
Em princípio, a bijuteria vendida na Europa é segura
Ana Brasileiro explica que “a alergia à bijuteria, ou a dermatite de contacto alérgica aos metais, é uma condição relativamente comum”.
Manifesta-se “por lesões eritematosas, descamativas, com prurido associado, que tipicamente surgem no local de contacto com um objeto metálico, podendo ultrapassar os limites desse contacto”, prossegue a dermatologista.
Estas lesões podem aparecer “várias horas ou até dois a três dias após o contacto e costumam durar vários dias (ou mais tempo, se o contacto com o objeto persistir) se não forem tratadas”.
Neste contexto, refere, o mais frequente é a alergia “ser causada pelo contacto com o sulfato de níquel presente em ligas metálicas, embora possa também ser causada por outros metais como o cloreto de cobalto”.
Tal como se aponta num documento da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), o níquel está presente “em adornos metálicos (bijutaria, alguma joalharia de ouro), assim como partes metálicas do vestuário e calçado; e em objetos metálicos diversos (chaves, isqueiros, tesouras, dedais, pinças, aros metálicos dos óculos, etc), ligas metálicas, próteses dentárias e ortopédicas e moedas (1 e 2 euros)”.
No entanto, devido à prevalência desta alergia e ao impacto da bijuteria nas reações alérgicas, desde 1994 que “a regulamentação da União Europeia foi alterada para tentar proteger a população”, salienta Ana Brasileiro.
Segundo a médica, “a bijuteria comercializada na Europa tem de obedecer ao que foi definido na Diretiva do Níquel, que prevê que os limites de libertação de sulfato de níquel sejam muito baixos, de forma a não causar alergias”.
Esta medida torna, “em princípio, a bijuteria vendida na Europa segura”, o que não se aplica “a bijuteria que seja comprada online e que provenha de fora da Europa”, esclarece.
Como se previne e trata reações alérgicas a bijuteria?
Segundo Ana Brasileiro, a única forma eficaz de “prevenir a reação alérgica será mesmo evitar o contacto com as substâncias que causam essa mesma reação”, (ver também aqui e aqui).
No caso da bijuteria, lembra a médica, “a recomendação principal a fazer para prevenir” reações alérgicas é comprar “bijuteria comercializada na Europa que obedece às regulamentações europeias”.
Caso o contacto com a substância alergénica aconteça, “é possível tratar o eczema (ou dermatite) de contacto alérgica daí resultante”, refere a dermatologista.
Por norma, o tratamento passa “pela aplicação de cremes emolientes adequados e do uso de medicamentos anti-inflamatórios”, como os corticosteroides (“tópicos ou sistémicos, consoante a gravidade do caso”), esclarece.