Adultos de chupeta para aliviar ansiedade: Especialistas analisam fenómeno do TikTok
Ver um bebé com uma chupeta na boca é uma imagem relativamente comum. Mas, no TikTok, alguns adultos dizem utilizar chupeta para reduzir os níveis de ansiedade e stress.
Esta prática começou na China, mas rapidamente se espalhou aos Estados Unidos, Brasil e Europa. Em centenas de vídeos no TikTok, jovens adultos afirmam ter voltado a usar chupeta para acalmar o stress do dia a dia e para ajudar a adormecer. Noutras tantas publicações, alerta-se para os riscos desta prática, principalmente na saúde oral.
“Quem disse que as chupetas são só para bebés?”, questiona um jovem adulto num vídeo em que aparece a utilizar a chupeta. Outra jovem adulta admite usar chupeta porque a faz “sentir segura e confortável”.
Voltar a usar objetos de infância é conhecido na psicologia como “fenómeno da regressão”: perante os desafios da vida adulta, o indivíduo recorre a objetos da infância – seja uma chupeta, um peluche ou uma mantinha – para procurar a mesma sensação de segurança e conforto que tinha nessa fase da vida.
Será verdade que as chupetas tratam ansiedade, stress e problemas de sono? Quais os benefícios de voltar a usar chupeta na idade adulta? E os riscos? A psicóloga Ana Félix, a odontopediatra Sofia Baptista e o pneumologista Tiago Alfaro ajudam a perceber o que está por trás desta nova tendência das redes sociais.
Usar chupeta em idade adulta trata a ansiedade, o stress e ajuda a adormecer?
Usar chupeta para reduzir ansiedade e stress é uma tendência muito recente e, por isso, não existem estudos científicos que validem os efeitos desta prática. Apesar de haver evidência de que o uso de chupeta acalma os bebés, não se sabe se o mesmo efeito ocorre em adultos.
“A utilização de um objeto – seja a chupeta, uma manta da infância ou outro objeto – para autorregulação emocional pode ajudar a diminuir um pouco a ansiedade. Mas está a mascarar o verdadeiro problema”, afirma a psicóloga Ana Félix, em declarações ao Viral.
O uso da chupeta em idade adulta pode levar o indivíduo a “redescobrir o conforto e o vínculo” que tinha com este objeto na infância, explica a especialista. Contudo, esta técnica pode “aumentar a dependência emocional” em relação ao objeto, o que vai “camuflar e intensificar os sintomas de ansiedade, tornando-a crónica”.
“Temos de perceber o porquê de a pessoa não conseguir autorregular-se autonomamente, ou seja, sem recorrer a objetos. Só assim conseguimos mitigar os sintomas e tratar o problema”, acrescenta.
Nas crianças, a sucção da chupeta liberta “neurotransmissores associados ao prazer e à calma”, mas “não se sabe se, nos adultos, terá o mesmo efeito”, ressalva a especialista. Para entender os benefícios na idade adulta seria necessário “realizar uma investigação longitudinal”.
Também a odontopediatra Sofia Baptista, autora do projeto Doutora Dentinhos, identifica a sucção da chupeta como um “reflexo de autorregulação”, uma vez que “liberta endorfinas e dá um sentimento de segurança” ao bebé ou criança. No entanto, a especialista ressalva que o uso de chupeta na idade adulta é uma “forma de compensação”.
“Em termos psicológicos, consigo perceber a base para esta tendência, porque a sucção é um reflexo de autorregulação que temos desde a nascença. Mas é uma forma de compensação, não estamos a processar as coisas de forma correta”, afirma a especialista.
Numa revisão, publicada em 2012, explica-se que “o ato de sucção, quer seja nutritivo ou não nutritivo, é amplamente reconhecido pelos especialistas em desenvolvimento como um meio saudável e reflexivo para uma criança se auto-confortar, acalmar, reorganizar e ganhar controlo quando está perturbada ou stressada”.
Aliviar pontualmente os sintomas de stress não resolve o problema a longo prazo. Quando a situação é frequente e tem impactos na vida do indivíduo, realizar sessões de terapia com profissionais de saúde qualificados poderá ajudar a entender e tratar a origem da ansiedade.
A psicóloga lembra que adotar um estilo de vida saudável – uma alimentação variada, exercício físico, uma boa higiene de sono e um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal – também pode ajudar a reduzir os níveis de ansiedade e o stress no dia a dia.
Quais os riscos de usar chupeta em adulto?
A chupeta é um objeto controverso, pois a sua utilização tem benefícios e riscos para as crianças, dependendo “da frequência, da intensidade e do tempo de uso da chupeta”, afirma Sofia Baptista. Algumas das consequências negativas podem também afetar adultos, embora não haja estudos científicos sobre esse assunto.
“Usar chupeta altera os músculos da boca e faz com que a língua fique numa posição mais baixa”, explica Sofia Baptista, sublinhando que estas alterações podem acontecer tanto nas crianças como nos adultos. Essas alterações podem provocar “alterações na respiração” – potenciando uma respiração mais oral, em vez de nasal – ou na forma de falar.
A utilização intensa, frequente e prolongada da chupeta por adultos leva a uma estimulação excessiva dos músculos da face, o que poderá provocar dores na articulação temporomandibular e cefaleias. “A partir de certo ponto, [o uso da chupeta] vai causar problemas, pois estamos a usar músculos que não é suposto usarmos”, alerta a especialista.
Outro efeito negativo do uso da chupeta é a “alteração da posição dos dentes”. “Apesar de o adulto já ter consolidado o seu crescimento, existe sempre a capacidade do osso regenerar ou reformar perante a força aplicada”, explica a odontopediatra, lembrando que é nessa premissa que se baseiam os tratamentos de ortodontia e de alinhamento dos dentes.
O uso das chupetas em bebés e crianças tem motivado diversos estudos e as conclusões dividem-se entre benefícios e riscos da utilização frequente e prolongada deste objeto. Contudo, não há investigações conduzidas em adultos que possam mostrar benefícios ou riscos de utilizar chupeta.
Num estudo, publicado em 2025, refere-se que o uso da chupeta (em crianças) “tem uma influência significativa não apenas no crescimento do osso facial, mas também na estimulação das funções orais, tais como a sucção e alimentação”.
Os investigadores concluíram ainda que “a geometria da chupeta afeta os tecidos moles (língua e músculo) e os tecidos duros (palato e maxilar) de forma diferente, o que enfatiza a necessidade de selecionar cuidadosamente as chupetas durante a infância”.
Na revisão citada anteriormente, analisaram-se também os riscos associados ao uso de chupeta na infância. Os investigadores concluíram que o uso frequente, intenso e durante um longo período “aumenta a incidência de otite média aguda”, tem um “possível impacto negativo na amamentação” e está associada a casos de “má oclusão dentária, principalmente se a utilização ultrapassar os 2 ou 3 anos”.
Além dos potenciais riscos na cavidade oral, o uso de chupetas por adultos aumenta o risco teórico de aspiração de partes do objeto. O pneumologista Tiago Alfaro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), lembra que as chupetas são desenhadas para as crianças e os materiais podem não estar adaptados para a utilização por adultos, que têm mais força de sucção e de mastigação do que os bebés.
“Existe o risco da chupeta se partir com os dentes e a pessoa se engasgar. É um risco teórico, neste momento não há casos descritos”, explica o pneumologista, sublinhando que “não é aconselhado pôr coisas na boca quando se dorme”.
O uso de chupetas pode também aumentar o risco de desenvolver infeções na cavidade oral e, em casos mais graves, no sistema respiratório. “Pôr uma coisa estranha na boca, que pode não ser feita com materiais de qualidade, aumenta o risco de infeções, porque há mais bactérias [na cavidade oral]. O risco de desenvolver pneumonia também é maior”, alerta Tiago Alfaro.
Em suma, não existe evidência que valide os efeitos positivos da utilização de chupeta no tratamento da ansiedade e do stress em adultos. O recurso a um objeto para ajudar na autorregulação não trata o problema, podendo apenas mascará-lo. Além disso, o uso intenso, frequente e prolongado deste objeto poderá ter consequências nefastas na saúde oral.