A febre do pilates clínico: o que promete, o que cumpre e quando pode ser um risco
Nos últimos anos, o pilates clínico tem vindo a ganhar espaço nas consultas de fisioterapia e nos gabinetes de reabilitação, muitas vezes indicado para corrigir a postura ou para aliviar as dores nas costas. Mas o que distingue, na prática, esta abordagem do pilates que se pratica em estúdios e ginásios? E até que ponto a ciência sustenta os benefícios que lhe são atribuídos? Para responder a estas e outras questões, o Viral falou com João Paulo Neves Branco, especialista em Medicina Física e de Reabilitação na ULS de Coimbra e professor auxiliar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC).
Pilates clínico e pilates convencional
A primeira distinção que importa fazer é sobre o próprio conceito. Segundo o especialista, o pilates clínico “utiliza os princípios gerais do método, mas integra-os num programa terapêutico individualizado, definido após avaliação funcional e conhecimento da história clínica do utente”. Isto significa que os exercícios são “selecionados, adaptados e progressivamente ajustados às limitações, objetivos e patologia de cada pessoa”, idealmente sob orientação de “um profissional de saúde habilitado, com experiência em exercício terapêutico”.
Já o pilates convencional “tem, sobretudo, objetivos de condição física e é frequentemente realizado em grupos, sem avaliação clínica detalhada”, refere.
O que diz a evidência científica
Apesar da popularidade crescente, a evidência científica sobre a eficácia do pilates clínico é mais robusta apenas para uma condição em particular: a lombalgia crónica inespecífica. Nestes casos, “o pilates pode reduzir a dor e melhorar a funcionalidade, sobretudo quando comparado com a ausência de exercício”, explica João Paulo Neves Branco. Contudo, adiciona que “não está claramente demonstrado” que esta atividade seja “superior a outros programas de exercício terapêutico adequadamente prescritos”.
Numa revisão sistemática sobre a eficácia desta atividade em pessoas com dor lombar crónica sublinha-se que “a prática de pilates proporciona maiores melhorias na dor e na capacidade funcional, em comparação com os cuidados habituais e a atividade física, a curto prazo”. Os autores explicam que oferece “melhorias equivalentes às da massagem terapêutica e a outras formas de exercício”.
Para outras patologias, o cenário é menos consistente. Os estudos disponíveis são, segundo o especialista consultado pelo Viral, “mais pequenos, heterogéneos e com menor qualidade metodológica”. Por isso, o pilates clínico trata-se de “uma opção válida, mas não de uma intervenção universal nem superior a todas as alternativas”, esclarece.
Outra revisão sistemática focada na eficácia e na segurança dos exercícios de pilates em doentes com osteoartrite do joelho, disponível na revista médica Annals of Medicine, concluiu que “o pilates pode aliviar a dor e melhorar a função física, mas tem efeitos limitados na amplitude de movimento”. Além disso, “devido à falta de relatos de eventos adversos, a segurança continua a ser incerta”, alertam os autores.
Para quem é indicado
De acordo com João Paulo Neves Branco, o pilates clínico pode ser recomendado a pessoas com lombalgia crónica inespecífica, défices de controlo motor, alterações posturais, descondicionamento físico ou necessidade de melhorar a mobilidade, a força e a estabilidade do tronco. Pode ainda integrar programas individualizados em casos de cervicalgia, artrose, recuperação após determinadas lesões musculoesqueléticas e algumas doenças neurológicas.
Mas o especialista avisa que a indicação depende sempre “da avaliação clínica, da fase da doença e dos objetivos funcionais”. Ou seja, o pilates clínico “não deve ser apresentado como tratamento específico para todas as causas de dor”.
Quanto à idade, desde jovens atletas a pessoas idosas, todos podem beneficiar da prática, desde que devidamente adaptada. Nos mais jovens, pode contribuir para o “controlo motor, mobilidade e complemento da preparação física”; nos idosos, pode “melhorar o equilíbrio, a função e a confiança no movimento”. Ainda assim, o especialista acautela que “não está demonstrado de forma robusta que, isoladamente, reduza o número de quedas” em pessoas idosas. “A idade, por si só, não é uma contraindicação: o essencial é a avaliação funcional e a adequada progressão da carga”, acrescenta.
Quando é desaconselhado, ou até perigoso
Nem sempre o pilates clínico é seguro. João Paulo Neves Branco refere que existem situações em que “deve ser adiado ou cuidadosamente adaptado”: no caso de dor aguda intensa, traumatismo recente, défices neurológicos progressivos, instabilidade articular, fratura, infeção, doença cardiovascular descompensada ou processos inflamatórios agudos. Ademais, indica que “pessoas com osteoporose grave, cirurgia recente ou patologias complexas necessitam de avaliação médica e funcional prévia”.
O especialista fala também da parte técnica: “Exercícios inadequados, amplitudes excessivas ou cargas mal selecionadas podem agravar sintomas”. E há sinais que exigem atenção médica imediata, antes de se iniciar qualquer programa de exercício. Segundo o docente, “a presença de dor noturna, perda de força, alterações sensitivas ou disfunção dos esfíncteres exige avaliação médica antes de iniciar exercício”.
Como escolher um profissional qualificado
Com a popularidade do pilates clínico, multiplicam-se também as ofertas. O especialista diz que “num contexto clínico, deve procurar-se preferencialmente um fisioterapeuta com cédula profissional válida e formação adicional comprovada em pilates clínico ou exercício terapêutico”. Essa inscrição pode ser confirmada no diretório da Ordem dos Fisioterapeutas, podendo qualquer pessoa pedir para ver a cédula do profissional.
Além disso, um verdadeiro acompanhamento clínico “deve realizar uma avaliação inicial, conhecer os antecedentes clínicos e explicar objetivos, riscos e progressão”, esclarece. A designação “‘instrutor de pilates clínico’ não substitui uma qualificação profissional de saúde”.
Resultados são realistas, mas variam com a patologia
Quanto tempo é preciso esperar para ver resultados? “Com uma prática regular, habitualmente duas a três vezes por semana, podem surgir melhorias graduais da mobilidade, controlo motor, força, equilíbrio e capacidade funcional ao longo de seis a doze semanas”, descreve João Paulo Neves Branco. No entanto, “a resposta varia com a patologia, intensidade dos sintomas, adesão e condição física inicial” de cada pessoa.
O especialista alerta que é um erro comum pensar que o pilates “corrige a postura”, elimina todas as dores ou resolve alterações estruturais. Na perspetiva de João Paulo Neves Branco, trata-se de “uma ferramenta útil dentro de um plano terapêutico mais amplo, mas não substitui o diagnóstico, o tratamento médico ou outros tipos de exercício quando indicados”.
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